Zoológico: escola ou espetáculo?

Por Leonardo Milano (leormilano@gmail.com)

A domesticação de animais e plantas é um processo utilizado pelos seres humanos desde a pré-história, quando as primeiras sociedades humanas passaram a selecionar e adaptar certos seres vivos, considerados úteis para suprir as necessidades do grupo. Inicialmente, esse processo objetivava exclusivamente a sobrevivência, suprimindo anseios básicos dos humanos, como a alimentação. Mas, com o passar dos séculos, os seres humanos passaram a explorar o meio ambiente de forma predatória, com o objetivo não da subsistência, mas da produção de excedentes e, assim, do lucro. A lógica comercial criou relações desarmônicas com a natureza e, às vezes, voltadas única e exclusivamente ao entretenimento humano, como a utilização de animais em circos e a exibição de seres vivos em jaulas de Zoológicos. Na sociedade moderna, é difícil identificar até que ponto o ser humano utiliza-se da domesticação para sobreviver ou apenas como fonte de prazer ilimitado.

O Zoológico de São Paulo, por exemplo, é o maior zoológico do Brasil e é administrado pela Fundação Parque Zoológico de São Paulo. Fica localizado em uma área de 900.000 m² sendo 824.529 m² de Mata Atlântica original. Exibe mais de 3.000 animais, entre aves, répteis, mamíferos, anfíbios e invertebrados, em recintos que, teoricamente, procuram reproduzir os hábitats naturais das espécies confinadas.

Possui uma biblioteca de mais de quatro mil volumes, aberta ao público, e parcerias com instituições estaduais, federais e estrangeiras que incluem pesquisas com o objetivo, segundo a instituição, de preservar espécies ameaçadas. Atualmente o Zoológico de São Paulo é o quarto maior do mundo.

Os viveiros ensinam as aves a não voarem… Foto: Leonardo Milano

No site da instituição há uma série de informações e dados que buscam aproximar o Zoológico da causa ambiental. Sobre o Zoológico é dito que “A Fundação Parque Zoológico de São Paulo tem como missão manter em cativeiro uma coleção de animais vivos provenientes de diversas partes do mundo não só para educação e recreação do público, como também para realização de pesquisas científicas, para melhor conhecer os animais. A instituição já realiza trabalhos focados na reprodução de algumas espécies ameaçadas de extinção, e cumpre um importante papel na conservação destas; na disseminação do conhecimento através de trabalhos científicos e congressos e nos projetos de educação ambiental”.

Além disso, no site do Zôo, afirma-se que a Fundação possui um programa de qualificação profissional de estudantes e pesquisadores das áreas de biologia, veterinária e zootecnia e realiza programas de pesquisa científica e conscientização ambiental da população através dos visitantes.

É inegável, a partir da lista de iniciativas e parcerias realizadas pela Fundação, que a instituição representa uma iniciativa voltada à preservação e à causa ambiental.

Mas o que o Zoológico realmente representa no imaginário social? O que a população, ao visitar o parque, aprende, de forma efetiva, ao se deparar com animais enjaulados, em recintos muito menores do que a área de hábitat natural dos animais ali expostos?

Madagascar

O filme de animação gráfica norte-americano Madagascar, dirigido por Eric Darnell e Tom McGrath, e produzido pela DreamWorks Animation SKG trata do tema, ao procurar reproduzir uma história fictícia, na qual um grupo de animais foge do zoológico do Central Park, em Nova Iorque, para viverem na selva.

O leão Alex (Ben Stiller) é a grande atração do zoológico. Ele e seus melhores amigos, a zebra Marty (Chris Rock), a girafa Melman (David Schwimmer) e a hipopótamo Gloria (Jada Pinkett Smith), sempre passaram a vida em cativeiro e desconhecem o que é morar na selva. Curioso em saber o que há por trás dos muros do zoo, Marty decide fugir e explorar o mundo. Ao perceberem a fuga de Marty, Alex, Gloria e Melman decidem partir à sua procura. O trio encontra Marty na estação Grand Central do metrô, mas antes que consigam trazê-lo de volta ao Zoológico, que consideram “sua casa”, são atingidos por dardos tranquilizantes e capturados. Embarcados em um navio rumo à África, eles acabam na ilha de Madagascar, onde precisam encontrar meios de sobrevivência em uma selva verdadeira.

Visitantes desejados? Foto: Leonardo Milano

No primeiro e no segundo filme da trilogia, os animais despertam instintos e aprendem a viver livremente, apresentando crises de identidade e dificuldades para sobreviverem e readaptarem-se ao meio natural. Após tentativas fracassadas, no terceiro filme, Alex, Marty, Melman e Gloria conseguem sair da ilha, mas acabam entrando para um circo de animais. A partir de uma estranheza inicial, se adaptam ao circo, revitalizando-o e voltando para o Zoológico ao fazerem uma turnê por Nova York.

Por se tratar de uma animação, o filme atrai principalmente o público infantil. Logo, possui um papel educativo intrínseco.  Mas o que o filme ensina afinal?

A mensagem implícita à história narrada em Madagascar transmite a ideia de que os animais vivem de maneira mais confortável no Zoológico, já que, no filme, os animais fazem de tudo para voltarem às suas jaulas, onde não possuem problemas para sobreviver como na selva. Até Marty, a zebra que no primeiro filme sonhava em ser livre acaba voltando para o Zoológico para viver em seu cubículo, longe de outros animais de sua espécie, com a qual tem contato na ilha africana. O leão Alex pretere a sua família, que vive na ilha de Madagascar, para continuar com seu “estrelato” no Zoológico Nova Yorkino.

Assim como o filme, o Zoológico possui, acima de tudo, o papel de entreter o público e também, de forma implícita e inconsciente, transmite uma mensagem semelhante: a mensagem de que os animais estão “bem” enjaulados e fora de seu hábitat natural.

Muitas vezes os zoológicos são criticados por pessoas que acreditam ser errado manter animais presos em cativeiro, enquanto outros argumentam que os zoológicos podem ajudar na preservação dos mesmos embora deslocados de seus ecossistemas naturais.

Zoológico de São Paulo

Em minha visita ao Parque Zoológico de São Paulo foi difícil encontrar algum visitante que não estivesse acompanhado de uma ou mais crianças. Além disso, nove peruas escolares encontravam-se no estacionamento do parque. Novamente, observa-se um papel educativo intrínseco, nesse caso, ao zoológico.

Nos quadros informativos não havia o tamanho das jaulas e nem a área necessária que cada animal necessita para viver “bem” em seu hábitat natural. Os leões marinhos, por exemplo, eram obrigados a nadar em círculos. Alguns banheiros eram maiores do que muitas das jaulas.

Crianças gritavam para os animais “se mexerem”, irritadas com a falta de ação de muitos deles. Aliás, crianças gritavam todo o tipo de coisas, enquanto a maioria dos pais parecia não se importar com a poluição sonora gerado por seus filhos, que poderia incomodar os animais. Mas as grades garantiam que os bichos não pudessem fugir para um local mais calmo. Os pequenos viveiros exerciam função semelhante à das grades: impedir que as aves voassem, fugindo das pessoas que não retiravam nem ao menos os flashes de suas máquinas fotográficas para fotografarem-nas.

Algumas espécies de macacos não ficavam cercadas por grades, mas sim, isolados em minúsculas ilhas. Rondavam-nas sem parar. Mas macacos não sabem nadar.

Meu momento de maior êxtase, aliás, foi avistar um macaco livre, alimentando-se de cocos numa palmeira dentro do zoológico. Fitei-o por um longo momento, instigado com o seu agir natural. Com a sua liberdade. A alegria era saber que tive a sorte de vê-lo ali, naquele momento em que passava. Era torcer para que permanecesse ali por mais alguns instantes. “Ele deve ter fugido”, comentou uma mulher ao meu lado, como se o estado natural dos animais fosse a prisão das jaulas do parque. Em alguns recintos onde ficavam espécies de macacos não havia uma árvore sequer. Apenas troncos sintéticos.

Perguntei a uma garotinha, de uns 7 anos, se ela não se incomodava em ver os animais presos. Fez que “não” com a cabeça e se afastou para perto da mãe. Preferi não insistir e ser o “chato” da vez.

Apesar do discurso, voltado à conscientização e a preservação ambiental, não pude constatar um grande papel educativo positivo durante a minha visita. Não ouvi nenhum pai ensinando aos filhos de que os animais ali enjaulados deveriam viver livres na natureza ou, que seus hábitats naturais deveriam ser preservados.

Muro da libertação: gaiolas onde ficavam presas aves reintroduzidas na natureza pelo Projeto Bicho Livre na Chapada Imperial, DF. Foto: Leonardo Milano

Mas há uma evolução no papel social dos Zôos desde sua criação em tempos longínquos. Os primeiros zoológicos eram coleções particulares, geralmente de reis. No passado, os animais eram treinados para se exibirem ao público como Alex, o leão de Madagascar, que no filme ama fazer isso, apesar de sabermos dos maus tratos sofridos por animais treinados para realizarem “shows”. Mas isso raramente acontece nos dias atuais. Hoje em dia, os zoológicos, como a própria Fundação Parque Zoológico de São Paulo, inegavelmente preocupam-se em lutar pela causa ambiental: não enjaulando os animais, mas, sim, através de várias outras iniciativas de pesquisa e preservação.

Faz tempo que a poluição e o desmatamento aumentam drasticamente, afetando o habitat natural de certas espécies. Por esta razão, para os defensores dos zoológicos, a única forma de evitar a extinção é viver em cativeiro. Muitas espécies já conseguiram reproduzir-se em cativeiros e, mais tarde, depois de um período de adaptação, foram devolvidas com sucesso à natureza.

A função educativa dos Zoológicos baseia-se na ideia de que a urbanização acabou afastando as pessoas do contato com a natureza selvagem, automaticamente diminuiu o contato com os animais e que, portanto, o parque educa as pessoas fazendo-as conhecer os animais e as ameaças que eles enfrentam. Mas para tanto é necessário que haja um trabalho por trás. Apenas exibir animais presos em jaulas para crianças e para o público em geral não basta.

Luís Otávio Targa é professor de biologia do Colégio Vértice e formado em biologia pela UNESP. Perguntei a ele se levava seus alunos de Ensino Médio e Fundamental para visitas pedagógicas ao Zoológico. Targa me informou que sim. Questionei-o acerca de sua opinião em relação à instituição e seu papel educativo: “Acredito que o Zoológico possa ser útil quando analisado pelo prisma correto. Discutir que tipo de proximidade com os animais o Zoo promove pode servir de base para discutir com os alunos os objetivos da instituição e a maneira como tratamos os animais. O Zoo de São Paulo cuida, por exemplo, de animais que foram abandonados por circos ou donos negligentes e isso é muito interessante. Para crianças do Ensino Infantil o parque tem o poder de despertar o interesse e o respeito com os animais. Acredito que o papel educativo do Zoológico só consegue ser cumprido se, em sala de aula, o professor trabalhar o tema, pois a visita monitorada não promove discussões ou gera incômodo nos alunos”.

O professor concorda que não só o Zoológico representa uma alegoria para a dominação: “As lojas de pet exóticos, os programas de televisão e os filme infantis, também tem sua parcela de culpa. Os animais são sempre vistos como perigosos e agressivos.”

O grande papel dos Zoológicos acaba sendo a pesquisa. Testes para gravidez de animais, tratamento de doenças, inseminação artificial e rastreamento de animais na natureza; Tudo isso ajuda na reprodução e também no nosso aprendizado sobre seus estilos de vida, ajudando em sua preservação.

Mas há inciativas que vão na contramão da ideia estabelecida nos Jardins Zoológicos.

Projeto Bicho Livre

O Projeto Bicho Livre é realizado em Brazlândia, Distrito Federal, e representa um projeto de soltura e reintrodução de animais silvestres na reserva ecológica Chapada Imperial promovido pelo IBAMA. Anderson Valle é agente ambiental federal no IBAMA e comentarista nos programas Cidadania Ecológica, na TV Supren, e Em Contexto, na rádio Cultura/DF, além de coordenador voluntário do Projeto Bicho Livre. Ao opinar acerca dos Zoológicos, Anderson afirmou que não acredita “que as pessoas subjugarem um animal atrás de grades poderá educá-las a entender que devemos respeito a eles e que um dia em algum lugar eles representaram algo para a natureza. Acredito que santuários deveriam ser criados para manter estes animais em condições mais adequadas. Acredito também que um visitante, ao ver animais que estavam cativos tentando retornar à natureza e sua nova qualidade de vida, possa sim ser educado e repensar seu comportamento para com os animais.”

Gaiolas abertas. Araras são reintroduzidas na natureza através do Projeto Bicho Livre. Foto: Leonardo Milano

Anderson possui um site, mantido através de parcerias, na qual é possível assinar petições em favor de causas ambientais. O agente ambiental afirma que o currículo pedagógico dos Ensinos Médio e Fundamental necessita de uma profunda revisão “olhando não mais para a formação de técnicos altamente especializados em marcar X em provas de vestibular, mas sim na formação de cidadãos voltados para viver em sociedade”.

“Posso dar inúmeros exemplos: veja, aprendemos que a planária é um platelminto acelomado com capacidade de autorregeneração e sistema neural difuso, mas não sabemos sequer a constituição de nosso país. Não sabemos quais nossos direitos e obrigações em relação ao próximo e ao meio ambiente, mas temos que entender sobre um platelminto de vida livre que pouca interferência tem na vida adulta de qualquer cidadão. A educação desvirtuada de nosso país fecha o ciclo do meu comentário. Visite a Amazônia, pois ela vai acabar.”, afirma Anderson, que também é voluntário no projeto Escola da Sustentabilidade, também em Brazlândia Distrito Federal, na qual realizam um projeto educacional voltado à conscientização ambiental.

Educação ou entretenimento? Parece uma pergunta difícil de responder quando o assunto são os Zoológicos. O que vale é a reflexão: animais presos nos ensinam que na verdade devem ser livres?

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