St. Pauli: Futebol, rock e respeito

Futebol também pode ser tratado como prática de consciência social e incorporar o intenso rock ‘n’ roll

Por Vitor Andrade (vitortheandrade@gmail.com)

Tarde de um domingo ensolarado em Hamburgo, Alemanha, dia 27 de Abril. As ruas da região de Saint Pauli estão vazias. Porém não se trata de uma missa na tradicional igreja de São Paulo. Se trata de algo muito mais sagrado para os moradores da região. Chegando perto do Millernton-Stadion, dá para saber aonde está a população que havia sumido das ruas. Às 16h25, começa a tocar Hells Bells, da banda de rock AC/DC, e a torcida na arquibancada, que pinta os 29 mil lugares com a cor negra, começa a gritar e agitar suas bandeiras que vão do tradicional símbolo pirata de caveira e ossos, até a bandeira arco-íris e a imagem rubro-negra de Che Guevara.

Che Guevara e caveiras se misturam na torcida do St. Pauli. Foto: Reprodução

Entra em campo o time da casa. Tschauner, Schachten, Sobiech, Schindler, Maier, Buchtmann, Nehrig, Thorandt, Kalla… entram em campo ovacionados. Nenhum deles veio de fora da Alemanha, assim como também nunca jogaram pela seleção alemã e também nunca ganharam um título com o clube. Os “sinos do inferno” da banda australiana ainda tocam enquanto o adversário, VfR Aalen, entra em campo, e a torcida negra também grita. Os jogadores do VfR Aalen agradecem. O hino da Alemanha toma o lugar da voz rasgada de Bon Scott, e também é acompanhada com entusiasmo de todos.

Após os devidos cumprimentos dos árbitros e capitães dos clubes, os jogadores se posicionam em seus campos e o juiz apita para permitir o começo da partida, às 16h30 da tarde em ponto. A torcida se mantém majoritariamente em pé, levantando suas placas e bandeiras e exaltando o nome do clube.

Aos 3 minutos de jogo, Robert Lechleiter faz um gol para o VfR Aalen. A torcida se cala por alguns segundos. Porém, assim que a bola se posiciona do meio de campo, ela volta a gritar. O primeiro tempo acaba 1 a 0 para o adversário vindo de Aalen. Durante o intervalo são tocadas músicas de Black Sabbath, Slayer, Megadeth, que balançam as cabeças dos torcedores que esperam o início do segundo tempo. A bola passa a ser chutada novamente após os devidos 15 minutos de descanso, e desta vez o VfR Aalen, que possui um elenco incomparavelmente mais caro, predomina com gols do argentino Leandro Grech e Manuel Junglas, que ainda assim não conseguem combater o fanatismo dos torcedores da casa. O juiz apita o final da partida, 3×0 para o visitante, resultado que tira a chance do anfitrião de se classificar para a Bundesliga. A música Song 2, da banda Blur, que é tocada aos gols da casa, ficou intocada pelos 90 minutos.

É possível ver algumas expressões de tristeza e desapontamento, porém nenhuma de desprezo ou raiva. Os presentes no estádio não precisam andar muito para chegar ao Jolly Roger, o bar mais tradicional do Reeperbahn, o distrito da luz vermelha, e ornamentado com os símbolos do time da casa e considerado pelos fãs o ponto de encontro pós-jogo. Porém não é como um encontro de bar tradicional brasileiro.

Ao som de metal do anos 70 e 80, os assuntos vão além do jogo perdido. Nas conversas, assuntos como a conjuntura política, a cultura, as teorias sociológicas, de uma visão claramente esquerdista liberal. Os torcedores do clube possuem uma sintonia em relação às suas visões políticas. A tradicional cerveja alemã adentra as bocas sorridentes espalhadas debaixo das luzes vermelhas e entre as vitrines de casas de prostituição durante todo o resto da noite.

Após a leitura dos últimos parágrafos, é possível perceber que este time que perdeu para o VfR Aalen não é um clube normal. O  Fußball-Club St. Pauli von 1910 e.V., conhecido como St. Pauli FC, é o time do bairro Saint Pauli e atualmente joga pela segunda divisão da Bundesliga. Não é um clube famoso por grandes jogadores ou títulos gloriosos, mas pelo que prega fora das quatro linhas. Algumas décadas após sua fundação, era um clube tradicional e que viajava entre as variadas ligas alemãs sem muito sucesso. Porém durante a década de 80, o clube se transferiu para a área costeira do bairro, perto do Reeperbahn, o distrito da luz vermelha mais famoso da Alemanha e o único local do país onde a prostituição é permitida.

O time passou a ganhar fãs na cena alternativa por seu direcionamento esquerdista, ativismo social e atmosfera intensa das partidas. Nesta época o surgimento do movimento neonazista e a violência do hooliganismo, de raiz fascista, assombrava os estádios em toda a Europa. Expressões com cunho de extrema direita foram banidas do estádio, e foi proibida a associações de fãs com este direcionamento. A média de público no estádio pulou de 1.600 a 20.000 durante os anos 80. A mídia passou a notar o sucesso do St. Pauli, e surgiram apelidos como “Piratas da Liga” e até “Bordel da Liga”.

Em bairros undergrounds localizam-se a sede e fanshops do clube/Reprodução
Em bairros undergrounds localizam-se a sede e fanshops do clube. Foto: Reprodução

St. Pauli é um clube ativista, que se declara oficialmente anti-racista, anti-facista, anti-homofóbico e anti-sexista. A sua torcida é fortemente identificada com a esquerda alemã, e o seu ex-presidente Corny Littmann, idolatrado pela torcida até hoje, é abertamente gay. O estádio possui uma bandeira arco-íris fixada em sua cobertura. O time possui dois logos: o oficial, que possui a igreja de São Paulo no centro, e o secundário, pregada pelos fãs, que é a bandeira pirata com caveira e ossos. Foi também o primeiro time a criar um documento de Fundamentos Principais, que incluem:

– Em sua totalidade, incluindo sócios, funcionários, torcedores e beneméritos, o St. Pauli é parte da sociedade e, dessa forma, é afetado direta e indiretamente pelas mudanças nas esferas política, cultural e social.

– O St. Pauli FC está consciente da responsabilidade social que isso implica, e representa os interesses de seus sócios, funcionários, torcedores e beneméritos em assuntos que não se restringem apenas à esfera do esporte.

– Tolerância e respeito nas relações humanas são pilares importantes da filosofia do St. Pauli.

– Todo indivíduo e todo grupo devem constantemente examinar as suas ações presentes e futuras de uma forma crítica, e devem também estar consciente da sua responsabilidade pelos outros. Adultos não devem se esquecer que são modelos, para crianças e jovens acima de tudo.

– Não existem ‘melhores’ ou ‘piores’ torcedores. Qualquer um pode expressar o seu jeito ou a sua maneira de torcer, desde que seu comportamento não entre em conflito com as determinações acima.

Esta política do clube o tornou um fenômeno Cult no mundo inteiro. St. Pauli possui 11 milhões de torcedores apenas na Alemanha, mais do que a maioria dos times da Bundesliga, e também aproximadamente 500 fãs-clubes espalhados no mundo. É o clube com o maior número de fãs do sexo feminino na Alemanha. É homenageado por bandas de punk rock no mundo inteiro, como Bad Religion, Gaslight Anthem e The Sisters of Mercy, e várias bandas criaram músicas chamadas “St. Pauli”. O Millerntor-Stadion tem fechado as últimas temporadas com uma média de público sempre maior que 95% da capacidade. “Este é um clube efetivamente dos torcedores, e não de alguém com dinheiro. O St Pauli é um time dos torcedores que são sócios do clube”, afirma o vice-presidente do clube, George Bernd.

St. Pauli é regular quando se trata de ganhar jogos, porém é excepcional em ganhar o coração dos fãs de futebol. É um fenômeno que vai além dos gols, dos títulos, das estrelas, dos milhões de dólares que protagonizam na mídia esportiva, e realmente bate um bolão associando consciência social ao esporte mais querido do mundo.

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