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O papel do entretenimento na contemporaneidade

Na atual sociedade individualista, o entretenimento vem perdendo sua característica ficcional e integra ao mundo real

Por Vitória Batistoti (batistoti.v@gmail.com)

É muito provável que quem nega ter chorado ao assistir Titanic ou qualquer outro filme com história de amor destinada à tragédia no final, seja rotulado de “sem coração” ou “coração de pedra”. Ou então, por que não dizer “mentiroso”? O fato é que filmes, independente do gênero, possuem a capacidade de envolver quem os assiste e emocionar com seu enredo e suas personagens. E essa capacidade não fica restrita somente a eles: livros, músicas, peças teatrais, concertos musicais e várias outras formas de entretenimento adquiriram a função social de interagir e criar relações e laços com o ser humano.

Questionando esta nova relação entre homem-ficção/homem-entretenimento na era contemporânea, época tão individualista e êfemera nas relações pessoais, tempo das relações líquidas (conceito do sociólogo Zygmunt Bauman), haveria uma justificativa para as obras ficcionais emocionarem cada vez mais e teriam elas adquirido a função de suprir a ausência de relações afetivas?

Fãs se emocionam durante show de Luan Santana. (Imagem: UOL)

O desgaste das relações interpessoais

O ser humano nem sempre foi um indivíduo regido pelo individualismo. Na verdade, esta característica foi surgindo ao longo de um processo  de ascensão ao passar dos séculos até atingir seu auge na contemporaneidade. O psicólogo e diretor-fundador do Instituto de Psicologia Cognitiva e Comportamental de Franca (IPCC-Franca), Rafael Lourenço de Carmago, explica: “Segundo uma visão evolucionista, os seres humanos são ‘animais sociais’. Passamos grande parte do tempo nos relacionando. Em tempos remotos, a filiação social foi muito importante como habilidade adaptativa para nossa sobrevivência, uma vez que é mais fácil atacar um indíviduo do que um grupo”.

Na Antiguidade Clássica, especificamente nas polis gregas, tem-se um bom exemplo de cooperação, relação baseada na colaboração entre indivíduos. Os cidadãos tinham uma obrigação para com a vida da cidade-Estado. Aqueles homens conheciam sua importância no âmbito político e social de seu espaço, sentiam a necessidade que o corpo político tinha de cada um deles. Dessa forma, pertenciam à sociedade e reciprocamente necessitavam um do outro.

Na sociedade contemporânea, por sua vez, é o individualismo que rege o homem, fortalecido pelo modelo econômico mundial vigente, o capitalismo. Para sua sobrevivência, é necessário que as relações interpessoais sejam baseadas na competição e concorrência em busca da maior preciosidade: o lucro. As relações de trabalho, familiares e sociais são influenciadas pelo anseio de crescer economicamente e adquirir bens materiais que trazem status ao seu dono e, devido a isso, a cooperação natural entre os homens vem apodrecendo, assim como o sentimento de unidade e união entre eles, existente na Antiguidade Clássica, por exemplo.

O desejo de ascensão social por vias econômicas faz do homem um indivíduo que trabalha para consumir, preso a um círculo vicioso. As longas jornadas de trabalho são fundamentais para se atingir esse objetivo e, na luta por ele, as relações sociais se desgastam, o tempo de exercer a cidadania diminui bruscamente e, no fim, o homem é mais um ser solitário sem engajamento social e político com seu mundo, preso a uma sociedade de homens solitários não engajados que trabalham longas horas para, no final do mês, poder comprar o mais novo celular. Celular este que aparece nos anúncios publicitários como “o mais rico em aplicativos que irão conectar você com tantas outras pessoas ao redor do mundo!”

Rafael comenta sobre as relações na atualidade: “A contemporaneidade nos demanda um cenário marcado por características cada vez mais competitivas com os nossos próprios ‘companheiros de espécie’, principalmente no trabalho. Marcadas por transformações aceleradas, individualismo, competição globalizada, anseios e ansiedades, as relações de intimidade passam a correr sérios riscos. Isso pode ser observado nos noticiários, onde a crueldade e a redução do fato humano (humanização, empatia e amor ao próximo) são evidentes”.

Segundo uma pesquisa realizada pela psicóloga Marilda Lipp, pós-doutora pelo National Institutes of Health, dos EUA, sobre o estresse no Brasil, 18% dos entrevistados apontaram os relacionamentos como o fator mais estressante no cotidiano.

Entreter-se

O entretenimento é uma generalização de tudo aquilo que diverte e possui caráter recreativo para agradar pessoas em seus momentos de tempo livre e de lazer. Ele, quando atinge seu objetivo, faz com quem o consuma desligue-se de suas preocupações cotidianas e problemas rotineiros, proporcionando, portanto, prazer e sensações por tempo determinado. Dessa forma, ele só é efetivo quando causa emoções e repercute internamente em seu telespectador/leitor/ouvinte/consumidor.

A emoção, por sua vez, é um impulso neural provocada por estímulos psicofisiológicos, ou, em outras palavras, um conjunto de respostas químicas e neurais. Respostas estas produzidas quando o cérebro recebe um estímulo que rompe com o seu equilíbrio, dando origem à emoção. Uma vez desencadeada, ela pode impelir o organismo que a sente para a realização de uma ação, dependendo da emoção sentida (por exemplo, ao sentir nervosismo, algumas pessoas tendem a roer as unhas).

 

Espectadores se emocionam com o filme A Culpa é das Estrelas. (Imagem: UOL)

As emoções podem ser classificadas em sua ocorrência de tempo: existem emoções que ocorrem em um curto período, por exemplo, a surpresa, e existem outras que sua ocorrência dura mais tempo, a tristeza, por exemplo. Além disso, as emoções podem surgir com maior facilidade em algumas pessoas do que em outras: isso é relativo às disposições emocionais. Isto quer dizer que as peculiaridades de um indivíduo, suas características e personalidade influenciam na ocorrência das emoções que ele sente. Exemplificando: uma pessoa irritável é, geralmente, muito mais vulnerável a sentir irritação do que outras. Da mesma forma, uma pessoa solitária, que gasta maior parte de seu tempo realizando tarefas em seu negócio de trabalho e não desenvolve grandes relações afetivas, quando entra em contato com obras ficcionais que abordam um universo muito distante do seu (supondo, ao assistir à série Friends), tendo ausência de relações em sua vida, é propícia a desencadear admiração pelo relacionamento das personagens visto que é algo que falta em seu cotidiano, algo que naturalmente ela sente falta.

Emoções são bastante poderosas: detêm o poder de transformar um organismo. Emoções desagradáveis, como o medo, podem desencadear muitos transtornos psicológicos, como transtornos de pânico, ansiedade, obsessivo-compulsivo, fobias etc. Ao passo que emoções agradáveis podem transformar o indivíduo, provocando mudanças positivas, ajudando a recuperação de doenças e fortalecendo o sistema imunológico. Além disso, sabe-se hoje que as emoções exercem grande influência no estado de saúde do indivíduo.

Emocionar-se faz com que nos sintamos vivos e não podemos fugir disto porque é do instinto humano trabalhar primeiro emocionalmente para depois executar o raciocínio. A obra Convivencialidade – a expressão da vida nas empresas, de José Predebon, Márcia Esteves Agostinho e Ruben Bauer, aborda o assunto no seguinte trecho: “Para ter chance de sobreviver, o Homo sapiens — assim como praticamente todos os outros animais — têm reações instintivas que são muito rápidas. (…) Junto com essas reações, assaltam-nos diversas emoções, provocando uma tormenta bioquímica em nosso corpo cujo principal objetivo é preparar-nos para lutar ou fugir. Para reagir a certo perigo potencial — como o inesperado espocar de fogos de artifício bem acima de nossas cabeças — nosso racional gasta mais tempo, pois a informação precisa percorrer um caminho cognitivo maior do que a emoção pura. Assim, as reações emocionais e instintivas são muito mais rápidas do que nossas considerações racionais sobre os eventos”.

A relação homem-entretenimento

Com a decadência das relações interpessoais no atual século, objetos e formas de entretenimento adquirem a função outrora executada por seres humanos: o afeto e relação de homem-objeto/homem-entretenimento ascendem em detrimento da relação homem-homem, denegrindo cada vez mais a essência de relações afetivas sociais. Devido à ausência de afeição humana, o indivíduo desenvolve relações com artigos e ferramentas que lhe trarão prazer efêmero e passageiro, que irão suprir suas necessidades naquele momento. Ele necessita buscar formas que o façam sentir vivo: formas que o emocionem para que ele sinta alguma coisa se quer. Há uma necessidade de chorar, de rir, de se desligar da rotina, mas, quando isso não é possível em convívio humano, em sociedade (o que vem se tornando cada vez mais comum), ele ouve músicas tristes, lê livros de boas histórias de amor e se aventura em filmes ficcionais. Um filme romântico trará o par ideal de quem o assiste, um livro trará uma personagem tão encantadora que o leitor desejará tanto ser amigo dela.  E cada vez mais, o homem se relaciona com formas de entretenimento para suprir sua carência de afeto, de atenção, tornando-se amigo de personagens de séries, envolvendo-se com histórias fictícias e criando um mundo paralelo à realidade.

É exorbitante a infinita quantidade de grandes listas no Google e em redes sociais de “filmes/livros/músicas/peças teatrais que vão fazer você se emocionar!”, ou ainda, “se você não chorar ao assistir este vídeo, não é um ser humano”. Este novo relacionamento que há entre homem e ficção tornou praticamente irreconhecível a dicotomia que havia entre a esfera da fantasia e da realidade. O indivíduo integrou a ficção do entretenimento à sua vida solitária, vazia.

Tatuagem que remete à figura dos Comensais da Morte, da saga de Harry Potter. Acredita-se que a obra deve ter significado para quem a eterniza em seu corpo. (Imagem: Pinterest)

Um estudo realizado por cientistas da Universidade Emory, nos EUA, publicado ano passado na revista Brain Conectivity, mostra que ler pode afetar o cérebro por dias, como se a aventura trazida na obra ficcional tivesse sido realmente vivenciada pelo seu leitor. Para analisar os efeitos da leitura, o estudo foi realizado utilizando-se ressonância magnética funcional sobre redes cerebrais. O estudo se diferenciou de outras anteriores porque não focou apenas nos efeitos imediatos da leitura, mas sim nos efeitos posteriores causados por ela. Os voluntários da pesquisa leram a obra Pompeia, de Robert Harris, por 19 dias consecutivos. A pesquisa foi executada da seguinte forma: nos cinco primeiros dias, o cérebro dos voluntários foi analisado todas as manhãs e, a partir do sexto dia, passaram a receber toda a noite fragmentos da obra para ler. Nas manhãs seguintes, eram submetidos ao exame de ressonância magnética.

Foi descoberto no cérebro dos voluntários uma elevada conectividade no córtex temporal esquerdo, que significa que “mesmo que os participantes não estivessem realmente lendo o romance enquanto estavam no scanner, eles mantiveram essa conectividade elevada. Chamamos isso de ‘atividade sombra’, quase como uma memória muscular”, diz o neurocientista Gregory Berns. Além do córtex, outra área com conectividade intensificada era próxima ao sulco central, o que significa que o cérebro dos voluntários funcionava como se eles tivessem se exercitado fisicamente, realizado atividades que a personagem do livro realizou. “As mudanças neurais que encontramos associadas às sensações físicas e sistemas de movimento sugerem que a leitura de um romance pode transportá-lo para dentro do corpo do protagonista. (…) Nós já sabíamos que boas histórias podem colocá-lo no lugar do outro em sentido figurado. Agora estamos vendo que alguma coisa pode estar acontecendo também biologicamente. (…) Mas o fato de que as detectamos por alguns dias para um romance aleatório que as pessoas tiveram de ler sugere que seus livros favoritos certamente podem ter um efeito maior e mais duradouro sobre a biologia do seu cérebro”, relatou Berns.

O envolvimento com a ficção pode ser tanto enriquecedor como maléfico. É mundialmente conhecido o assassinato do ex-Beatle, John Lennon, em 1980 por Mark Chapman (que nunca foi diagnosticado como psicopata), que assumiu ter atirado em seu ídolo após ter sido inspirado a cometer o crime pela obra de J.D. Salinger, O Apanhador no Campo de Centeio. Chapman disse: “Grande parte de mim é Holden Caulfield” (a personagem principal da obra). É necessário ressaltar que não há, na obra, nenhuma referência nem incentivo a cometer assassinatos.

Todavia, não deixemos de lado os benefícios de se admirar tanto uma obra (seja literária, musical, teatral) que traga emoções positivas e boas sensações para nossa vida. O entretenimento está aí para que possamos usufruí-lo de forma que nos beneficie, e não para tomar lugar de relações pessoais. Não nos deixemos esquecer a importância de se relacionar e emocionar com as coisas belas do cotidiano. Caso esta teoria da substituição de relações humanas por formas ficcionais se comprovar e alavancar, creio que seja necessário lembrar que fundamental mesmo é o amor, é impossível ser feliz sozinho.

 

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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