O País do futebol quer ser o País dos pais

Projeto estimula a participação dos pais na educação e cuidado dos filhos

Por Daniel Tubone (daniel.tubone17@gmail.com)

Carlos Leal e sua filha. Maranhense conseguiu 120 dias de licença paternidade. Foto: divulgação

“O clássico papel do homem como provedor financeiro de suas famílias parece estar dando lugar ao papel de pai.” Afirmações desse tipo foram recorrentes após um pai adotivo solteiro conseguir, na justiça, uma licença-paternidade de 120 dias no ano passado, no Maranhão. Mas o caso do brasileiro ainda é, infelizmente, um caso isolado. De acordo com o artigo 7º da Constituição de 88, o prazo de licença-paternidade é de apenas 5 dias. Um número insignificante se comparado aos 2 meses reservados exclusivamente à pais na Suécia. A ideia de países como a Suécia é estimular a atuação dos pais na criação das crianças. Com pensamento semelhante, projetos de estimulo ao papel do homem como pai surgem também no Brasil. É o caso do projeto “Pai, Entre nesse jogo”, realizado por alunos da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) em conjunto da Unidade Básica de Saúde (UBS) Bom Retiro.

O contexto do projeto

O projeto teve origem no acompanhamento da UBS Bom Retiro, que faz o atendimento à comunidade do bairro. A região tem origens bem diversificadas. O que já foi um reduto de italianos, atualmente é a casa de imigrantes latinos, principalmente bolivianos, que têm condições totalmente precárias de trabalho e vida. A maioria deles trabalha na área de confecção de roupas e são submetidos à extensas jornadas de trabalho em lugares pequenos e mal ventilados. Os imigrantes chamaram atenção pelo “descaso” com si mesmos e com suas famílias, o que origina o nome do projeto. Segundo Oziris Simões, professor da FCMSCSP e coordenador do projeto, “o longo tempo dedicado ao trabalho, os hábitos culturais, e muitas vezes o receio pela suposta condição ilegal no país, os torna muito reticentes a participar de vários benefícios sociais a que tem direito, o que os leva à auto exclusão de creches, educação para seus filhos e a saúde para todos da família. Com tudo isso, estão mais sujeitos a vários problemas de saúde, como carie dentaria, tuberculose, sífilis, maior mortalidade infantil e materna”

Bairro do Bom Retiro. Foto: Museu da Imigração

Os alunos realizam um trabalho de campo na região e na Unidade Básica de Saúde, conhecendo as famílias e os locais de trabalho destes imigrantes. Assim foram percebidos inúmeros problemas, tendo destaque a pouca participação dos homens nas questões educacionais dos filhos e na parceria com suas esposas no que diz respeito ao acompanhamento da gestação e ao planejamento familiar. Em relação a saúde, todos os integrantes acabam tendo problemas semelhantes, mas o homem ganha maior atenção pelas poucas visitas a unidades de saúde. O problema, muitas vezes, não é a falta de projetos, mas sim a falta de adesão a estas propostas por parte dos homens. Mas nem sempre a “culpa” é desses homens. Ao falar sobre o que impede estes imigrantes a frequentar assiduamente as UBS, Simões diz que são “vários fatores que interferem na possibilidade de oferecer contribuições para melhorar a condição de saúde por parte da ESF (Equipe da Saúde da Família)”. Além do horário de funcionamento das unidades – período da tarde – ser impróprio para quem tem muitas horas de trabalho – no caso destes homens a jornada de trabalho passa das 12 horas -, a condição de imigrante também atrapalha, porque os coloca como indivíduos desvalorizados, sujeitos a muitos preconceitos.

As Leis Trabalhistas brasileiras já não garantem condições ideais de trabalho para brasileiros que possuem Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS). Imagine então para imigrantes que, na maioria dos casos, vieram para o Brasil de forma ilegal e que são explorados em trabalhos subumanos sem qualquer tipo de legislação. Os adultos têm medo de serem demitidos caso faltem no trabalho para frequentar assistências médicas e, mais medo ainda, de serem mandados de volta aos seus países de origem.

Ao relatar a relação desses pais com a família, Oziris diz que “como parte de uma estrutura familiar tradicional, onde o homem se vê como provedor principal, há um certo descompromisso com a condução da educação infantil. As intervenções dos pais se dá de forma hierarquizada e com frequência de forma severa.” O professor completa dizendo que este papel tradicional vem ligado à manutenção de sua masculinidade, de modo que estes pais acreditam que ficar doente não cabe ao papel de homem. O que remete a já antiquada expressão “os homens não choram”, e que neste caso, também não podem ter problemas financeiros ou de saúde.

Saúde e Futebol

Profissionais de Saúde atendem latinos durante o campeonato. Foto: Daniel Tubone

Como projeto de medicina social, foi decidido com a participação de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) de origem boliviana realizar o evento simultaneamente a um campeonato de futebol organizado por estes agentes, que tem como objetivo a inclusão social. No campeonato participam mais de uma dezena de equipes com composição variada: brasileiros, bolivianos, paraguaios e times mistos, sendo, em maioria, os mesmos atendidos na UBS Bom Retiro. A sede é também migrante, ou seja, a cada ano (o campeonato tem 12 anos de existência) ocorre em um lugar cedido. Atualmente ocorre em um Centro de Acolhida (CA João Paulo II) em convênio com a prefeitura de São Paulo.

Com a reunião de muitos homens há a possibilidade de maior alcance do projeto, passando a mensagem “Pai, entre nesse jogo” e, ao mesmo tempo oferecendo cuidados preventivos de saúde. Além dos cuidados oferecidos pela UBS, que se incluem atendimentos a hipertensão arterial, diabetes, ortopedia, medicina esportiva e clínica geral. Seria realizada uma primeira abordagem em forma de entrevista com objetivo do desenvolvimento de uma sensibilização como educador e companheiro na família, questionando como se dá sua inserção nessas questões.

Médicos e Alunos assistem aos jogos. Foto: Raíssa Godoy

O evento ocorreu pela primeira vez no dia 15 de junho, pela manhã, e teve grande sucesso. De acordo com Oziris Simões, como coordenador do projeto, a “receptividade foi muito boa, em particular pela expectativa de cuidar de seus problemas de saúde, ou de suas duvidas sobre possíveis riscos, como portabilidade do vírus da AIDS, planejamento familiar, doenças de pele.” Assim, podemos começar a acreditar na primeira afirmação de que o papel do homem está mudando. Pelo menos como projeto, pois além de uma conscientização destes imigrantes, há a conscientização dos alunos. Oziris completa dizendo que outro componente principal é “sensibilizar (os profissionais de saúde) para uma abordagem mais compreensiva e inclusiva desses pais no cotidiano da UBS.”

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