Saúde Sociedade

Violência Obstétrica: uma dor muito além do parto

As consequências da agressão, que não é só física, contra a mulher durante o parto torna um momento esperado em traumático

Por Marina Davis (marinadavis1810@gmail.com)

Os números chocam: 1 em cada 4 mulheres afirma ter sido vítima da violência institucional durante o parto e pós-parto. Imagem: Wikimedia Commons

A violência institucional relacionada à gestante no período do pré-natal, parto e pós-parto tem nome: violência obstétrica, e é muito mais comum do que se imagina. O termo, que surgiu após movimentos de mulheres na América Latina começarem a denunciar a violência ocorrida durante a assistência ao parto, caracteriza uma agressão que não é apenas física. De acordo com dados de uma pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, uma em cada quatro mulheres brasileiras foi vítima da violência verbal, sexual, psicológica, física ou até mesmo da negligência por parte da instituição de saúde.

Além das intervenções desavisadas, sejam elas um soro intravenoso ou uma episiotomia (incisão na região do períneo) e das agressões verbais, um exemplo muito comum de violência obstétrica é o desrespeito à Lei do Acompanhante. A lei obriga que os serviços de saúde, sejam eles públicos ou privados, permitam a presença de ao menos um acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto. Muitas mulheres, porém, não tem nem conhecimento de seus direitos e a experiência do nascimento de seus filhos acaba sendo não só solitária, mas muito traumática.

A psicóloga Heloísa de Oliveira Salgado, mestre e doutoranda pela Faculdade de Sáude Pública (FSP) da Universidade de São Paulo e autora da tese “A experiência da cesárea indesejada: perspectivas das mulheres sobre decisões e suas implicações no parto e nascimento” conta quais são algumas das formas de violências mais comuns entre os relatos das mulheres. O abandono no pós-parto é uma delas. “Elas dizem ser um momento em que ‘ficaram largadas no cantinho’, em que se sentiram abandonadas e vulneráveis e sem um profissional que informasse a situação delas e de seus bebês”. Além disso, muitas dizem não ter sido informadas de que seriam sedadas. “Elas contam que não lembram do primeiro contato com o bebê, só através de registros feitos por terceiros”.

Ao se ver obrigada a fazer uma cesárea, a jornalista Tatiane Cotrim sofreu agressões verbais, foi separada de seu marido, amarrada e sedada sem seu consentimento. Ela, então, usou seu blog para divulgar o seu caso de violência obstétrica através de uma carta aberta a sua obstetra. “Nunca tive coragem de voltar no consultório e falar essas verdades na cara da médica, que deve ter esquecido o juramento que fez. Mas tive coragem de escrever e mandar para  aquela senhora. Abrir para quem quisesse ler foi a minha forma de alertar outras mulheres, mostrar que não é uma coisa rara”. (Leia a carta na íntegra aqui)

Tatiane diz ainda que demorou a entender o que realmente tinha acontecido. “É difícil aceitar que o momento que deveria ser o mais lindo de sua vida foi o mais horrível. Que você olha para o seu filho e só sente amor, mas fica triste quando pensa no momento em que ele nasceu. Se ele é a melhor coisa da sua vida, como o nascimento dele pode ter sido triste?”. Heloísa explica que a mulher é pressionada para que esteja contente depois do nascimento do seu filho. “A sociedade espera e cobra dela que ela esteja bem. Ela está viva, o bebê está vivo, todo mundo está bem e saudável, como assim ela está triste? Por que ela está reclamando, chorando? Ela tem que estar feliz, comemorando”.

A Voz das Brasileiras

Como uma ação para o dia internacional de luta pelo fim da violência contra a mulher, realizado no dia 25 de novembro, um grupo de alunas da FSP produziu um documentário chamado “Violência Obstétrica – A Voz das Brasileiras”, em que várias mulheres fizeram vídeos contando suas experiências traumáticas durante o parto. A psicóloga Heloísa ajudou durante o processo de pós-produção e se mostrou bastante surpresa com as reações causadas pelo filme. “O documentário fez com que muitas mulheres conseguissem nomear e entender o que tinham vivido, o porquê da experiência do parto ter sido frustrante e, principalmente, fez com que profissionais, assistindo, se dessem conta de que estavam, no dia-a-dia, parto a parto, submetendo suas pacientes a situações que para elas eram vexatórias, dolorosas, desrespeitosas e tristes, e nem se davam conta disso”. (Veja aqui o documentário completo)

Os diferentes partos

Hoje fala-se muito sobre o parto humanizado, mas Heloísa explica que não o termo pode ser um pouco confuso. “Na verdade não existe parto humanizado, o que existe é a humanização da assistência”. Ou seja, o parto humanizado não é um tipo de parto, como o normal ou a cesárea, e sim a forma de abordagem do atendimento à parturiente.

Para a psicóloga, para que a assistência seja considerada humanizada, são necessários três pré-requisitos. O primeiro é de que a mulher e os profissionais tenham uma relação horizontal. “As informações são dadas a ela que, junto com o profissional, decide e é respeitada em suas decisões”. O segundo é que a paciente seja atendida com tudo que há de mais atual e seguro em termos de evidência científica para a assistência à gestação, parto e pós-parto para sua condição, seja ela de alto risco ou não. E por fim, a mulher não pode ser vítima de nenhum tipo de violência verbal, física ou de negligência. “Ela tem que receber incentivos e não palavras que acabem com ela. Ela tem que ser avisada do porquê de cada intervenção e sua autorização tem que ser concedida”.

Priscila Cavalcanti, advogada especializada em direitos reprodutivos e sexuais da mulher,  explica como as vítimas de violência obstétrica devem proceder. “A mulher que entende ter sido vítima de qualquer das formas de violência obstétrica deverá pedir seu prontuário e de seu bebê, junto ao hospital que a atendeu. Em seguida, deverá procurar um advogado de sua confiança para orientá-la. A mulher poderá, também, procurar a Defensoria Pública de sua cidade, que igualmente poderá representá-la na defesa de seus direitos.”

A repercussão do texto de Tatiane mostra o quão frequente é essa violência. “Além dos acessos e dos compartilhamentos, recebi mais de 100 relatos, tanto nos comentários como por e-mail. E sempre recebo um relato novo, o que me entristece muito”, conta  a jornalista. O que tem que mudar, para a psicóloga Heloísa, é o ponto central de toda a ação. “O mais importante é entender que o foco do atendimento e das necessidades durante o momento do pré-natal, parto e pós-parto devem ser a mãe e o bebê, e não o profissional e a instituição”.

J.Press
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