Cultura Sociedade

Os museus brasileiros e a democratização do acesso à Arte

As providências tomadas por instituições para que o público se interesse pela Arte, e tenha meios para alcançá-la.

Por Ariane Alves (arianecamilo.alves@gmail.com)

Contemporânea ou não, a produção artística conhecida, estudada e documentada tem um valor cultural imprescindível para as relações humanas. É necessário, portanto, analisarmos as formas pelas quais a Arte se apresenta ao público que deseja (re)conhecê-la. Os museus, forma mais tradicional de se reunir e expor coleções de objetos de arte ou ciência, inserem-se nessa lógica e têm sua metodologia constantemente repensada enquanto mediadores de uma interação tão importante.

Atualmente, os museus se apresentam para praticamente todos os gostos. Há construções muito antigas que são preservadas, como o Museu Britânico; produções modernas constantemente adaptadas, como o MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York); ou obras que utilizam o que há de mais novo em termos de tecnologia, como o sustentável Kunsthaus Graz (Casa das Artes), na Áustria. Há também lugares reservados a exposições dentro de Centros Culturais, integrando-se às demais formas de manifestações e estudos sobre a Arte.

O Museu Britânico, o MoMA e o Kunsthaus Graz: três construções completamente diferentes, porém com propósitos afins. Fotos: 1) Wikimedia Commons 2) Balzer Designs 3) Wikimedia Commons

Para o museólogo e professor da USP Martin Grossman, os museus devem seguir o conceito de transversalidade, em que diversas linguagens tradicionais e tecnológicas se relacionam de forma original. Outro aspecto relevante é a consideração de um parâmetro “glocal” (global + local), que reconhece a influência mútua de ações culturais realizadas no mundo a todo.

Tais aspectos teóricos nos ajudam a compreender o que acontece na prática. A real situação dos museus – e dos demais aspectos ligados à Arte – em países como o Brasil nos alerta para questões mais profundas, que dizem respeito a políticas públicas, educação formal e ampliação do acesso aos vários tipos de produção artística.

Questão política

A ampliação do acesso ao conteúdo dos museus deve, antes de tudo, passar por mudanças drásticas na forma como a população se relaciona com a cultura no geral. Em um artigo sobre Políticas Culturais no Brasil, a historiadora Lia Calabre define: “Numa democracia, a cultura deve ser encarada como expressão de cidadania. Um dos objetivos de governo deve ser, então, o da promoção das formas culturais de todos os grupos sociais […], procurando incentivar a participação popular no processo, promovendo modos de autogestão das iniciativas culturais.”

Lia enxerga, ainda, o forte papel político que a cultura exerce na sociedade: “A cidadania democrática e cultural contribui para a superação de desigualdades, para o reconhecimento das diferenças reais existentes entre os sujeitos em suas dimensões social e cultural. Ao valorizar as múltiplas práticas e demandas culturais, o Estado está permitindo a expressão da diversidade cultural.”

Para o museólogo, a descentralização cultural é um fenômeno importante. A gestão de Gilberto Gil como Ministro da Cultura propiciou, segundo Martin, “um real investimento do poder público federal em patrocinar essa descentralização”. Infelizmente, ele aponta, as gestões posteriores não deram efetiva continuidade às mudanças implementadas por Gil, que deixou o cargo em 2008.

Modelos para o século 21

Diante dos modelos criados em contextos históricos distintos e servindo a outros propósitos comparados aos atuais, cabe observar os exemplos que têm a cara do século 21. Cada vez mais, as construções integram espaço para exposições, bibliotecas, praças e palcos de teatro, buscando criar um espaço que possibilite o contato do público com as várias formas de manifestação cultural.

Os Museus Integrados e os Centros Culturais, experiências recentes que buscam ampliar o contato dos visitantes com as diversas áreas do conhecimento, vêm ao encontro da visão de Martin sobre a transdisciplinaridade, ou seja, a presença de “equipes compostas não só por os especialistas em arte, mas que possam pensar a inserção dos diversos equipamentos na cidade”. O Museu Integrado de Roraima (MIRR), por exemplo, visa expor o patrimônio natural e cultural do estado de forma didática. Ele reúne exemplares de espécies da fauna e da flora amazônicas e elementos que recontam a história dos povos indígenas e imigrantes que compõem a história da região. Além disso, desenvolve projetos educacionais que levam a produção artística ao ambiente escolar.

Estudantes visitam exposição no MIRR, instituição pública em Boa Vista. Foto: cienciahoje.uol.com.br
Estudantes visitam exposição no MIRR, instituição pública em Boa Vista. Foto: cienciahoje.uol.com.br

Outro espaço interessante a ser analisado é o Centro Cultural São Paulo, que, juntamente com os Sescs, é incluído nessa nova dinâmica. O CCSP abrigou até 28/7 a exposição “Metrô de Superfície II”, com curadoria de Bitu Cassundé e Clarissa Diniz e obras de onze dos novos nomes que protagonizam a produção artística contemporânea do Nordeste brasileiro, como Bruno Faria, Fabiano Gonper, Lourival Cuquinha, Vitor Cesar e Yuri Firmeza. Sobre a exposição, Bitu Cassundé afirma: “É de grande importância para o circuito de arte nordestino esse tipo de atitude, pois estimula o fomento e a circulação da nossa produção. Além do pensamento crítico, possibilita às pessoas de outras regiões conhecer a produção contemporânea desenvolvida a partir do nordeste brasileiro. A recepção do público foi bastante satisfatória. “

O museus e os públicos

Bitu, que atualmente integra o conselho curatorial do Museu de Arte Contemporânea (MAC) do Ceará, entende que os principais museus brasileiros mediam de forma satisfatória sua relação com o público, mas aponta a necessidade de ver a questão de uma forma mais ampla.“Essa aproximação do público com a arte é uma questão que deve ser lapidada na escola, é uma lacuna educacional, cultural. O museu é um importante mecanismo de ativação desse processo, de aproximação, de educação, porém precisamos de estratégias educacionais de base, ou seja, na família e na escola”, comenta.

Até meados do século 20, mais precisamente o fim da década de 1960, os museus estavam diretamente relacionados com a ideia de poder (econômico, religioso, etc.). A aproximação com o público de que falamos aqui está alinhada aos diversos questionamentos acerca da Arte produzida hoje. Desde aquela época, surgiram muitas propostas de democratização do acesso às obras. Entretanto, elas têm que batalhar com os interesses comerciais de uma lógica que transforma a produção artística em mais um bem de consumo disponível para poucos.

As novas formas de pensar o papel do museu na atualidade parecem convergir para a integração entre as várias áreas do conhecimento (o conceito de tranversalidade explorado por Martin) e o diálogo com ações educacionais, combatendo a segmentação e o isolamento social que, em outras épocas, caracterizaram esse tipo de construção.

Os sociólogos franceses Pierre Bourdieu e Alain Darbel certa vez afirmaram: “a freqüência dos museus – que aumenta consideravelmente à medida que o nível de instrução é mais elevado – corresponde a um modo de ser, quase exclusivo, das classes cultas”. Talvez agora seja o momento em que essa lógica se inverterá e  que poderemos ver, nas próximas décadas, cada vez mais pessoas conhecendo e interagindo com todos os tipos de arte.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *