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O ensino de Economia nas escolas brasileiras

Apesar de iniciativas governamentais, ensino de Economia nas escolas brasileiras ainda é incipiente

Por Victoria Salemi (vicbsalemi@gmail.com)

Oferta, demanda, elasticidade, taxa SELIC, PIB, monopólio, tributação… Quem não é economista se lembra de já ter ouvido algo sobre alguns desses conceitos, mas não sabe direito o que eles significam, não é? Isso acontece porque a Economia não é ensinada a todos nas escolas. Ao considerar a sociedade inteira, apenas uma parcela muito pequena dela tem as noções econômicas básicas que seriam necessárias para um bom aproveitamento de seus recursos e para a luta por direitos do cidadão.

Na maioria das escolas, ainda é raro ter alguma disciplina relacionada à Economia na grade curricular. “É uma bobagem, pode-se usar a Economia para ensinar muitos temas da Matemática, como logaritmo, por exemplo. A maioria dos professores nem se dá conta disso”, diz Maria Helena Soares de Souza, que é responsável pelos materiais didáticos da área de Matemática na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Até há uma iniciativa do Ministério da Educação (MEC) para que se incentive isso, mas o processo ainda engatinha. “A Secretaria de Educação fez uma parceria com o Banco do Povo Paulista para usar o material de um de seus cursos de empreendedorismo nas escolas, mas essa preocupação é recente. Tanto essa parceria quanto uma alteração curricular começaram a ser feitas este ano”, ela completou.

A Matemática é uma das linguagens da Economia. Contudo, a própria Ciência Econômica torna mais palatáveis certos conceitos matemáticos. Imagem: Tutorvista3/Flickr

Ao contrário do que muita gente imagina, a dificuldade de se ensinar Economia em colégios particulares é maior do que nos públicos. Isso acontece por conta da pressão encontrada nas escolas privadas para boas pontuações nos vestibulares e  no Exame Nacional do Ensino Médio. Conforme explica Maria Helena, “Há a competição do ENEM e acaba sobrando pouco espaço para se ensinar conceitos econômicos importantes que não sejam cobrados nessa prova”. Já nas escolas públicas, a exigência dos pais para que seus filhos tenham bons resultados no vestibular é menor. Dessa forma, há mais abertura para disciplinas que não sejam cobradas em provas de aceitação.

Apesar dessas dificuldades para se implementar o ensino da Economia para alunos do Ensino Básico, as iniciativas do MEC são muito importantes. De acordo com a economista e professora do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), Regina Madalozzo, “alunos e suas famílias seriam bastante beneficiados com o ensino dessa matéria. Quando uma criança ou adolescente entende o quanto custa parcelar uma compra, quanto ela compraria a mais se guardasse o dinheiro para utilizar depois, a importância da poupança no curto, médio e longo prazo, entre outros conceitos, ela já começa a se preparar para gerir de forma mais adequada seus rendimentos futuros”.

Além das vantagens na vida pessoal, a Economia poderia até servir como ferramenta para se entender métodos da Matemática que são muito abstratos para os alunos. “O melhor exemplo é a taxa de juros. A ideia de porcentagem, muitas vezes, é complicada para a criança entender. Mas, se você usar o conceito de números porcentuais para o cálculo de juros e mostrar para a criança  a aplicação disso no seu dinheiro, sua mesada, aumentando ou diminuindo devido a isso, fica mais fácil de ela entender até mesmo o que está calculando”, completa Regina.

Mais uma vantagem de se ter indivíduos que saibam minimamente lidar com questões econômicas é a consciência em relação às decisões do governo. “As pessoas teriam maior clareza das implicações de políticas governamentais em seus próprios rendimentos, e isso faria com que elas conseguissem se programar melhor para um futuro financeiro mais saudável”.

O ensino de economia nas escolas de outros países

Em outros países, as escolas oferecem disciplinas voltadas para a Economia, como forma de ensinar a população desde cedo. Lugares como Estados Unidos e Espanha apresentam a matéria Economia na grade curricular  do Ensino Médio.

A Irlanda é outro país onde essa disciplina é ensinada nas escolas. O estudante Stefan Quinlan, de 17 anos, conta que, lá, certos conceitos são aprendidos em sala de aula. “Aprendemos sobre fatores de produção, produtor, consumidor, mercados, oferta e demanda, elasticidade. Estamos sempre estudando custos e como maximizar os lucros”. Além disso, aos jovens também é traçado o panorama econômico da Europa e da própria Irlanda.

 

José Henrique Paim, nomeado ministro da Educação pela presidente Dilma em 2014. Imagem: Agência Brasil

Lá, essas aulas começam a ser dadas desde o início da vida acadêmica. No primeiro ano, quando as crianças têm entre 11 e 12 anos de idade, elas fazem uma matéria chamada “Business Studies” (Estudos de Negócios, literalmente), na qual são apresentadas aos primeiros conhecimentos acerca da Economia. A partir do quinto ano, os estudantes precisam escolher qualdisciplina estudarão entre três: Economia, Negócios ou Contabilidade. Mesmo com a possibilidade de escolha,  todas elas são voltadas para explicar conceitos econômicos básicos aos alunos com aproximadamente 16 anos.

Apesar de, no Brasil, o MEC exigir que se pincelem alguns itens da Economia nas aulas de outras disciplinas, essa iniciativa ainda é pouco desenvolvida. Em outros países, o ensino da Economia tem espaço como matéria exclusiva, deixando-a mais clara para os alunos.

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