Muito além do giz e da lousa

Diferente dos métodos tradicionais de aprendizado, algumas escolas utilizam práticas alternativas na formação dos alunos.

Por Sara Baptista (sarabm6@gmail.com)

Giz, lousa e carteiras enfileiradas. Para completar a dinâmica, um professor que ensina e um aluno que aprende. Resumidamente é assim que funciona uma sala de aula de uma escola tradicional. Quando a disciplina não é um problema, o professor é um ser superior e respeitado, é aquele que sabe. Por outro lado, o aluno é aquele que está ali para ouvir e anotar e, quando muito, tirar uma dúvida.

Isso parece funcionar, afinal são anos e anos dessa mesma prática e veja quantas pessoas já se formaram e se tornaram profissionais bem sucedidos. E se for parar para pensar, a escola era muito pior antigamente, os professores batiam nos alunos e os humilhavam. No entanto, não é bem essa a realidade educacional brasileira.

No Circo do Projeto Âncora as crianças não só estudam como também dançam e brincam. Foto: Sara Baptista
No Circo do Projeto Âncora as crianças não só estudam como também dançam e brincam. Foto: Sara Baptista

A escola no Brasil ainda apresenta muitos defeitos. Milhões de crianças passam de ano sem saber ao menos ler e escrever e tantas outras não conseguem aproveitar o conteúdo.Fora isso, ao longo do tempo também se descobriram transtornos como a dislexia e o déficit de atenção, para os quais a escola – como ela é estruturada hoje – não está preparada. Os professores não têm a formação necessária para lidar com esses casos e a dinâmica da sala de aula prejudica os alunos que necessitam de atenção especial.

Hoje em dia há 16 milhões de analfabetos no país e outros 33 milhões que não chegaram a concluir a 4ª série, segundo dados do Ministério da Educação. Os modelos de educação que vigoram no país são antiquados e contribuem para o desinteresse pela escola, uma vez que cerceiam o desenvolvimento criativo.

Porém, na contramão de tudo isso, surgem algumas pedagogias alternativas à tradicional. Há sim meios de se compreender a sala de aula sem que os seus componentes estejam amarrados a um sistema clássico. O educador, pedagogo e filósofo Paulo Freire, por exemplo, defendia um ambiente construído sobre os princípios da igualdade entre educadores e educandos, para que se promovesse uma troca de conhecimentos.

Nessa mesma linha surgem algumas novidades como o a Escola da Ponte, idealizada e coordenada pelo educador português José Pacheco, e a educomunicação.

Projeto Âncora

O Projeto Âncora, localizado em Cotia – SP, começou há 18 anos como um lugar que recebia as crianças no contra-turno escolar onde eram realizados trabalhos sociais de convivência e fortalecimento de vínculos. Em 2012 o projeto foi autorizado a funcionar como uma escola regular.

A escola de Cotia é baseada na filosofia da Escola da Ponte, uma instituição pública de ensino na qual não se vê nada do que é costumeiro em uma escola tradicional. Localizada em Vila das Aves, em Portugal, a Escola da Ponte utiliza práticas educativas alternativas desde 1976.

A Escola da Ponte é referência no mundo todo e tem excelência comprovada por todas as inspeções e estudos, apesar de seu método ter demorado para ser reconhecido pelo Ministério da Educação português. O Projeto Âncora é um dos muitos centros educacionais que adotam essa filosofia e conta com José Pacheco como um grande colaborador.

O método de ensino baseado nas chamadas escolas democráticas consiste, a princípio, na ausência de salas de aula. As crianças são divididas em núcleos heterogêneos chamados de iniciação, desenvolvimento ou aprofundamento, de acordo com a evolução no aprendizado e independente da idade. Dessa forma, são levados a participar e interagir.

Segundo Edilene Morikawa, educadora do Projeto Âncora, as coisas nunca são feitas para a criança, mas sempre com ela. A intenção é que a criança adquira autonomia e consciência coletiva.

A grande diferença do projeto para as escolar tradicionais é que essas se organizam a partir do currículo oficial estabelecido pelo MEC. “Aqui isso é o final”, diz Edilene. Os educandos aprendem através de projetos escolhidos por eles mesmos e orientados por um tutor. O currículo escolar é cumprido em torno desses projetos que partem de sonhos, necessidades e desejos dos alunos e envolvem alguma mobilização social.

As crianças – que praticam atividades como circo, música, artes e skate – aprovam totalmente o método de ensino. Inicialmente alguns pais buscavam os aspectos das escolas tradicionais no Projeto Âncora, mas de acordo com Edilene Morikawa: “hoje a aceitação é muito grande, temos listas de espera.”

Os resultados são muito satisfatórios e comprovam a eficácia do método. O desempenho dos educandos tanto nos simulados semestrais quanto nas provas de controle do governo, como a Prova Brasil, é muito acima da média.

Educomunicação

Como o próprio nome já diz, educomunicação é a junção da educação com a comunicação. É uma metodologia pedagógica que propõe a utilização de recursos tecnológicos e técnicas da comunicação na aprendizagem. Tem como objetivo uma educação mais democrática e igualitária.

O termo educomunicação surgiu na Europa para designar algumas iniciativas de educação para os meios de comunicação. Mas a identificação como um novo campo de estudo ocorreu em 1999 a partir da apuração de resultados de uma pesquisa realizada pelo Núcleo de Comunicação e Educação (NCE), da Escola de Comunicações e Artes da USP, sob coordenação do professor Dr. Ismar de Oliveira Soares.

Segundo a professora e pesquisadora da ECA-USP Luci Ferraz, “para os membros do NCE- ECA/USP não se trata de uma proposta de práticas, mas de um novo paradigma.”

A presença da tecnologia nas salas de aula é cada vez maior. Imagem: Reprodução/Blog UniversoCNSR
A presença da tecnologia nas salas de aula é cada vez maior. Imagem: Reprodução/Blog Universo CNSR

O professor doutor Ismar de Oliveira Soares, coordenador do Núcleo de Comunicação e Educação da USP, escreveu em seu texto “Mas, afinal, o que é educomunicação?” que a educomunicação se define como um conjunto de práticas voltadas para, entre outras coisas, criar e rever as relações de comunicação na escola, entre direção, professores e alunos, bem como da escola para com a comunidade, criando sempre ambientes abertos e democráticos.

A educomunicação pode também ser usada de forma complementar, “mas precisamos verificar todo o processo educativo para fazermos esse planejamento. Tudo depende dos objetivos de aprendizagem que se almeja atingir”, diz Luci Ferraz.

Esse método propõe a construção de competências diversas ligados ao conteúdo em estudo, a partir do planejamento de aulas com dinâmicas que fomentem a construção e o fortalecimento de ecossistemas comunicativos e que trabalhem basicamente o diálogo e a reflexão intensa entre os alunos.

Frente a uma escola tradicional repleta de falhas, a educomunicação visa usar o ambiente escolar para construir a cidadania, tendo em vista o direito de todos à expressão e à comunicação para a formação de cidadãos ativos, conscientes de seu papel junto à sociedade, dialógicos, colaborativos e comunicativos.

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