Cultura Sociedade

O legado hippie através das gerações

Conhecidos como propulsores de “paz e amor”, eles sobreviveram aos valores capitalistas e ainda podem ser encontrados em muitas partes do mundo

Por Carolina Shimoda (carol.shimodab@gmail.com)

No Brasil, o movimento hippie ganhou força na década de 1970 e ainda hoje é possível encontrar aspectos dessa época vivos pelo país. Além de festivais como o Psicodália, realizado em Santa Catarina, algumas comunidades estão espalhadas por praias e vilarejos, como Trindade em Parati (RJ), e cidades como São Tomé das Letras (MG), Pirenópolis (GO), Trancoso e Arembepe na Bahia.

Os hippies de hoje em dia podem se dividir em: micróbios, os que moram nas ruas, desligados de qualquer preocupação com a aparência; artesãos que vivem da sua arte, mas possuem família e moradia fixa; a mistura das duas coisas, que vivem da arte e têm casa, mas às vezes não aguentam isso; e finalmente os que ficam nas estradas, pedindo carona e viajando pelo país, chamados “malucos de estrada” ou “malucos de BR”.

Um estilo pouco convencional

Para Gabriel Vitor Ferreira, que atualmente vive em São José do Rio Preto, os hippies são muito rotulados, mas sua essência está na liberdade. Frequentador desses festivais, amante da natureza e adepto de dreadlocks, enfatiza que o hippie só visa à liberdade e não quer “depender do sistema”.

Chapada Diamantina - BA. Uma viagem bem especial para Marcela, devido à energia fortíssima e às pessoas que conheceu lá. Foto: Marcela Coutinho
Chapada Diamantina - BA. Uma viagem bem especial para Marcela, devido à energia fortíssima e às pessoas que conheceu. Foto: Marcela Coutinho

“Um estilo de vida de simplicidade e amor, num grau de desapego altíssimo”. É assim que Marcela Coutinho começa a descrever sua vida. Aos 22 anos, ela largou a rotina convencional e vive viajando pelo Brasil, carregando poucas coisas em sua mochila, parando para conversar com todos em vilarejos e cidades de pescadores. “Quando nos encontramos pelas praias, somos uma grande família curtindo aquela etapa da viagem juntos”.

Há um ano na estrada, ela diz que é um processo de reciprocidade: ela ajuda a quem precisa e eles a ajudam, fazendo com que ela se liberte de tudo que é “normal”. “Acho que se continuasse na cidade, com rotina de trabalho fixo e/ou estudo, eu enlouqueceria”, afirma Marcela enquanto conta sobre suas visitas comunidades alternativas, e encontros que discutem temas de sustentabilidade.

Perguntada se voltaria à vida que levava há um ano, ela não hesita em dizer não.  “Só penso em desenvolver meus dons para viajar cada vez melhor”. Hoje, ela viaja com o artesanato, mas pretende viajar tocando saxofone e, para isso, ela tem estudado música.

Arembepe, o mais famoso reduto hippie do Brasil

Vila hippie em Arembepe /créditos: Janir Júnior
Vila hippie em Arembepe. Foto: Janir Júnior

Na praia de Arembepe (BA), foi criado o que creem ser a primeira aldeia hippie do país. Por lá, passaram famosos como Caetano Veloso, Mick Jagger, Janis Joplin e Gilberto Gil. A principal atividade da comunidade, desde sua criação, ainda permanece sendo o artesanato, mas a atividade turística alterou um pouco o dia a dia de quem mora lá. Entretanto, ainda permanecem o clima de paz e amor e as praias limpas, fato que talvez se deva à não entrada de carros ali.

Os moradores, inclusive, disponibilizam suas casas para quem não quer ficar em resorts tradicionais e aceita acampar em seus quintais, em uma experiência rústica: banheiro no mato, banhos no rio, ausência de energia elétrica e água encanada. Cerca de 30 pessoas vivem ali, mas o número varia um pouco porque as pessoas viajam muito, vendendo artesanato e voltando para lá para descansar, por exemplo.

A comunidade ainda realiza o Fertival Internacional de Cultura Alternativa de Arembepe (FICA), que acontece todos os anos em janeiro durante a lua cheia. Ele conta com espetáculos de dança, apresentação de peças, monólogos e outras coisas, organizadas por movimentos alternativos do mundo todo.

O legado hippie pelo mundo

Em outros países também é possível situar-se no mundo hippie através de festivais, shows e encontros. Na Alemanha, mais especificamente na cidade de Essen, acontece o Festival Burg Hezberg, realizado desde 1968 em clima de woodstock durante três dias. Da mesma forma, a cidade de Nimbin, na Austrália, também sedia um festival com esse caráter. Ele acontece durante um fim de semana em maio e se chama “MardiGrass”, fazendo uma apologia ao fim da proibição na maconha no país. A cidade, situada cerca de um vulcão extinto, tornou-se famosa em 1973, com o Festival de Aquário, que atraiu hippies do mundo inteiro.

Outros lugares, entretanto, mantêm esse estilo de vida no dia a dia, não só nos festivais. A cidade de San Marco Sierras, na Argentina, com pouco mais de três mil habitantes, foi formada por artesãos e integrantes de comunidades hippies que foram para lá na década de 1970. Hoje, a cidade mantém o clima “paz e amor” e, inclusive, tem a produção agrícola orgânica como uma de suas características.

Na Dinamarca acontece um caso semelhante. O bairro Freetown Christiania, localizado em Copenhague, abriga cerca de 850 pessoas que se declararam uma comunidade autônoma. O lugar, entretanto, já foi ameaçado algumas vezes pelo governo, que cogitou seu fim, resultando em uma grande mobilização dos moradores.

Ibiza é outro desses paraísos hippies. Com o livre pensamento de artistas, escritores e músicos, atraiu muitos hippies a partir da década de 1960. Hoje, tem a feira hippie mais famosa do mundo, Las Dalias. Lá, os hippies mais antigos ainda conseguem sentir como eram suas vidas há décadas atrás, antes de muitos dos seus valores terem sumido com a exploração do turismo na ilha. Além desse lugar, as praias Benirras e Aguas Blancas ainda são pontos que encantam a geração hippie que se instalou primeiramente ali.

“Rainbow Family” e “Rainbow Gatherings”

Mãe e filho nas comunidades hippies. Foto: Benoit Paillé
Mãe e filho nas comunidades hippies. Foto: Benoit Paillé

“Rainbow Family” é um grupo de pessoas inspirado nos conceitos hippies dos anos 1960. Existem muitas dessas famílias espalhadas pelo mundo todo. Nômades, juntam-se com outros grupos e passam dias praticando os ideais em que acreditam, no que chamam de “Rainbow Gathering”.

Nesses encontros autogestionados, são utilizadas técnicas para manter o sistema de escala humana, com captação de água da chuva, compostagem da matéria orgânica acumulada e uso do sanitário seco (que permite que os dejetos virem húmus e não causem impacto ambiental). Durante os dias que passam juntos, são realizadas oficinas de arte, técnicas terapêuticas e, ao mesmo tempo, discussões sobre temas atuais como sustentabilidade e humanidade, além da troca de experiências. São encontros abertos, gratuitos, para que qualquer pessoa que queria possa participar.

O fotógrafo Benoit Paillé, frequentador dos gatherings por 7 anos, conseguiu autorização para fotografar seus “familiares”. As fotos foram arduamente reproduzidas em sites pelo mundo todo.

“World Annual Gatherings” já aconteceram duas vezes no Brasil: a primeira vez, na Chapada da Diamantina (BA), em 2003; e a mais recente no Espírito Santo, em 2012.

Origens

O movimento hippie cresceu nos EUA, na década de 1960, apesar de seus ideais já terem sido notados logo após a II Guerra. Foi um fluxo de contracultura da época, negando a sociedade consumista e capitalista. Logo de início, contestavam as injustiças sociais (racismo, inferioridade da mulher etc), indo de encontro a valores americanos tradicionais, além de serem contrários a qualquer tipo de violência. Eles utilizavam o rock psicodélico e o teatro de rua para expressar seus valores e ideias contra a política tradicional, pregando ideias não doutrinárias e libertárias em favor da paz, do amor e da vida em comunidade. Com certa desilusão em relação ao egoísmo da sociedade no geral, esse movimento passou a se isolar em comunidades que procuravam ser autossuficientes.

O termo “hippie” foi empregado pela primeira vez em 1965, tendo origem na palavra “hipster”, que designava pessoas envolvidas com a cultura negra.

No Brasil, o movimento chegou mais tarde e foi incorporado na Tropicália, ruptura na música popular e na cultura brasileira entre 1967 e 1968. Reprimida pelo governo militar, assimilava os moldes do movimento hippie no que se refere ao questionamento moral e ao visual adotado. Nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil foram muito importantes para essa perpetuação do choque cultural.

J.Press
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