Sociedade

Como é o treinamento de um cão-guia?

Entenda como funciona o treinamento dos cães-guia, seus custos e a seleção dos cães

Por João Henrique Silva (joaoh505@gmail.com)

Braille, um golden retriever. Foto: Márcia S. de Souza

Braille tem cinco meses e é um golden retriever. Ele, após dois anos de treinamento, irá tornar-se o maior parceiro na vida de uma pessoa. A homenagem ao francês Louis Braille, criador do sistema de leitura para cegos, não é ao acaso. Junto com outros 47 cães do Centro de Treinamento de Cães-Guia do Instituto Federal Catarinense, Braille será doado a um deficiente visual para auxiliá-lo num direito básico de qualquer cidadão, a mobilidade. Os cães, treinados minuciosamente, “vão aprender desde a descer  e subir escadas, andar de elevador, não puxar a guia, até localizar destinos que a pessoa cega pode vir a utilizar”, como afirma a coordenadora do centro do Instituto Federal Catarinense (IFC), Márcia Souza. “As atividades são diversas e atendem ao que se deseja: que se tornem cães que guiem pessoas com deficiência visual”, conclui.

Porém, para iniciar esse processo, há especificidades quanto à raça do cachorro. Segundo a coordenadora, não é toda espécia que atende às demandas da função: “Os cães são selecionados pelo perfil  físico e comportamental. Um profissional treinador de cães-guia tem conhecimento para fazer esta seleção. As raças que se definiram para trabalhar são o Golden Retriever e o Retriever do Labrador. São raças que têm um grande aproveitamento, são dóceis e bem aceitos na sociedade – são cães simpáticos! A seleção tem que ser bem feita para que não se tenha um cão muito agitado,  muito distraído, enfim, não adequado a um cão-guia”.

Com cinco meses de idade, Braille ainda está em fase de socialização, na qual é submetido a tarefas simples, como sentar, deitar, frequentar locais públicos, não avançar nas outras pessoas e andar em meios de transporte, a fim de que ele não se distraia com eventos básicos do cotidiano. Após a etapa da socialização, o cachorro retorna ao centro de treinamento, onde será novamente avaliada a possibilidade de se tornar um cão-guia, atendendo a determinadas características, tais como inteligência, vontade de aprender, concentração, atenção a toques e sons, boa memória e excelente saúde. Animais que apresentarem traços indesejados, como tendências agressivas, temperamento nervoso e estranhamento com outros animais, serão considerados inapropriados para dar seguimento ao treinamento.

Já no centro de treinamento, o primeiro passo é ensinar ao cachorro a caminhar como um cão-guia, corrigindo qualquer curso imprevisto pelos treinadores. As principais metas dessa etapa são manter o cão à esquerda do acompanhante e fazer com que ele atenda a determinados comandos verbais e físicos, por meio da coleira. É nesse momento que, gradativamente, o cachorro é submetido a distrações cada vez maiores, para que ele nunca perca o foco enquanto estiver guiando um deficiente visual.

Outro ponto importante no aprendizado é chamado de “desobediência seletiva”. Isto consiste na percepção de perigo do cão e sua consequente desordem em relação à ordem dada pelo acompanhante. Um exemplo bem recorrente é o das faixas de pedestres. Quando ele está próximo ao meio-fio, o cachorro para, sinalizando onde está. Como os cães não podem reconhecer as cores do semáforo, cabe ao acompanhante analisar o melhor momento para atravessar a rua. Após dada a ordem para seguir, se houver carros se aproximando, o cão aguarda e só avança quando não houver perigo.

A partir do momento da doação do cão-guia, inicia-se o processo de treinamento do seu futuro acompanhante. A pessoa deve aprender a ler os movimentos do animal, identificando se o cão está desviando de um obstáculo ou parado no meio-fio. Além disso, é importante que o deficiente visual sinta-se confortável e seguro na caminhada com o seu guia, aprendendo todos os comandos necessários para tal feito.

Cão guia acompanha seu dono em uma estação de Londres. Foto: Wikimedia Commons

Custos e infraestrutura

Questionada sobre as necessidades de um centro de treinamento, a professora do Instituto Federal Catarinense (IFC), Márcia Souza, relata que “um Centro de Treinamento deve ter uma estrutura que atenda aos padrões exigidos pela lei, que o INMETRO determinou, assim como aos objetivos do centro, ou seja, quantos animais desejamos treinar, como será a dinâmica do espaço, etc”. Outro ponto interessante na questão é o alto custo na formação do cão-guia. Segundo a professsora, o valor médio de um animal chega a 30 mil reais, que é financiado pelo governo federal. É por isso que o beneficiário do programa recebe o cão sem nenhum custo, como explica Márcia Souza de acordo com o projeto do IFC. “Para uma pessoa com deficiência adquirir um cão, é necessário se inscrever no site do  projeto, na página do IFC Campus Camboriú, e aguardar. É uma pré-inscrição. Depois os interessados serão contactados para enviarem outros dados, mais complexos, e tem que aguardar até que se tenha um cão com o seu perfil. Formar uma dupla perfeita: o cão-guia e a pessoa com deficiência visual”.

A maior dificuldade, para a professora, ainda é a captação de profissionais especializados no treinamento. “Os profissionais que temos no país ou fizeram curso no exterior, ou aprenderam com estes profissionais, ou aprenderam por conta própria, são autodidatas! Para melhorar o treinamento dos cães, se for o caso, temos primeiro que ter pessoas trabalhando e fazendo pesquisa na área”.

Infográfico: João Henrique Silva/Jornalismo Júnior

É importante ressaltar que são todas essas etapas que garantem a segurança do acompanhante e do próprio cão-guia. O alto custo, a falta de profissionais capacitados no país e a seleção rígida de animais fazem com que o número de animais seja mínimo, chegando a menos de 100, conforme dados do Instituto Federal Catarinense. Analisando o futuro dos centros de treinamento, a professora ainda diz que “o importante é que o Brasil está dando  o primeiro passo. Hoje é muito difícil e caro conseguir um cão-guia. Quando tivermos os outros centros de treinamento funcionado no país, a realidade vai melhorar muito. Ainda vai demorar um pouco porque o trabalho é demorado e exige grande responsabilidade, mas já é uma realidade! Temos a expectativa de contribuir com a melhoraria da condição de mobilidade, liberdade e dignidade da pessoa com deficiência visual no país através da  oferta desta tecnologia assistiva”.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

One thought on “Como é o treinamento de um cão-guia?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *