Rolezinho no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. Foto: reprodução/Flickr/midianinja
Especial Sociedade

Especial: rolezinhos e o uso de espaços

Encontros de jovens da periferia já se espalham por praças e parques de dezenas de cidades pelo país

Por André Spigariol (andre.spigariol@gmail.com) e Breno França (brenofranca11@gmail.com)

Rolezinho no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. Foto: reprodução/Flickr/midianinja
Manifestantes fazem gesto ofensivo no rolezinho no Shopping Leblon. Foto: reprodução/Flickr/Polarizada/midianinja

Os rolezinhos vêm sendo indiscutivelmente o assunto mais debatido nas últimas semanas. Os encontros de jovens da periferia de São Paulo eram inicialmente destinados a centros comerciais da cidade, mas hoje já se espalham por praças e parques da capital paulista e dezenas de outras cidades pelo país.

A ideia inicial era afirmar a condição de ostentação da qual os jovens que participam dos encontros fazem parte. Porém, após repressão da polícia e liminares concedidas pela justiça impedindo que as pessoas tivessem livre acesso a shoppings, o movimento ganhou outra proporção. Movimentos sociais e grupos políticos se envolveram no debate contra a discriminação e tornaram todo o contexto muito mais complexo.

Origem

Assim como as manifestações de junho do ano passado, o movimento parece ter surgido naturalmente e sem líderes aparentes. Os encontros sempre são marcados via rede social e já chegaram a levar cerca de três mil pessoas ao shopping Metrô Itaquera, no principal confronto com a polícia até agora.

A principal explicação apresentada sobre o surgimento dos eventos deve-se a encontros que eram marcados entre celebridades da internet e seus fãs. Ambos fazem parte de uma classe social que cresceu sem acesso a muitas formas de lazer, mas que atualmente entraram de vez para o processo de consumo da sociedade.

Segundo Dennis de Oliveira, professor da USP especialista em direitos de minorias, o crescimento dos encontros nos shoppings ocorreu por conta da inserção dos jovens na sociedade de consumo. “Com isto, surge a reivindicação do direito de usufruir todos os espaços urbanos, de poder demonstrar sua estética, suas preferências musicais, entre outros”, analisa. Para ele, a articulação por meio de redes sociais potencializou o que já acontecia na periferia antes da chegada da internet. “A população da periferia sempre se organizou em redes comunitárias. As plataformas digitais potencializaram estas redes de forma que elas tomaram uma dimensão muito maior. E, finalmente, não menos importante, é uma geração formada em um período de democracia, possibilitando novos protagonismos sociais” detalhou.

Os participantes desses encontros fazem questão de afirmar que nada é feito em forma de protesto. Apesar do contraste ficar evidente quando os tabus da sociedade são quebrados, os jovens contam que não estão tentando ocupar um espaço que lhes é tradicionalmente negado. No discurso deles é comum encontrar como objetivo palavras como “curtir, beber, ficar e zoar”. Neste discurso não se encontram palavras como autoafirmação ou mesmo manifestação.

Eles preferem ficar distantes da “playboyzada”, mas querem ter o direito de acesso aos lugares onde podem comprar as marcas e objetos de consumo que tanto lhes caracterizam. Entre eles: tênis Nike Shox, Mizuno ou Adidas; bermuda Cyclone ou calça jeans Saruel; camiseta da Hollister ou Abercrombie; óculos de sol Juliet; corrente de prata ou de ouro; boné da Oakley, Quicksilver ou John John. Entre elas: sandália de salto bem alto ou Melissa; calça legging apertada ou shorts curto; blusinha Bad Cat ou tomara que caia; óculos Juliet e maquiagem.

Posição das autoridades

A questão tornou-se assunto de Estado. A presidente Dilma Rousseff chegou a convocar reunião com sua equipe de trabalho que incluía os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Cultura, Marta Suplicy, para tentar entender o fenômeno. O temor dos governantes era que movimentos como o “Black Bloc” aderissem aos encontros e provocassem ainda mais conflitos.

Policiais no rolezinho no Shopping Center Norte, em São Paulo. Foto: reprodução/flickr/midianinja
Policiais no rolezinho no Shopping Center Norte, em São Paulo. Foto: reprodução/flickr/midianinja

Além do JK Iguatemi, o Shopping Leblon, no Rio, também conseguiu liminar. Foto: reprodução/Flickr/Polarizada
Além do JK Iguatemi, o Shopping Leblon também conseguiu liminar. Foto: reprodução/Flickr/Polarizada/midianinja

Em São Paulo, o Secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, pronunciou-se dizendo que a Polícia Militar usaria a força se fosse necessário. Assim aconteceu no encontro do dia 11 de janeiro, quando a polícia usou gás lacrimogêno para dispersar os integrantes do rolezinho no Shopping Metrô Itaquera, na Zona Leste da capital. No mesmo dia, o Shopping JK Iguatemi – localizado no Itaim Bibi, zona sul – obteve liminar na justiça que proibia a realização do chamado “Rolezaum no Shoppim”, prevendo multa de R$ 10 mil aos participantes que insistissem no evento. No Facebook, o encontro contava com mais de dois mil confirmados.

O discurso das autoridades ainda não é uníssono. O governador Geraldo Alckimin pronunciou-se de maneira diferente de seu Secretário de Segurança Pública, afirmando que o caso não era assunto de polícia. “O rolê, o passeio, a volta é uma atividade cultural. É problema de polícia se há depredação, se há roubo”, esclareceu.

Propriedade privada

A lógica que motivou os centros de compras a fecharem suas portas para os rolezinhos é que os espaços são propriedades privadas. Assim sendo, os donos teriam o direito de decidir quem pode entrar ou sair de seus estabelecimentos, da mesma forma como alguém decide quem pode ou não entrar em sua casa.

Defensor do raciocínio empregado pelos shoppings, o acadêmico Fabio Ostermann – formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e graduado em Política e Sociedade Civil pela International Academy for Leadership (Alemanha) – diz que a proibição dos eventos é legítima. “Os shoppings são propriedade privada e, portanto, cabe a seus próprios donos a escolha por permitir ou não a prática disso ou daquilo”, argumenta. “A maioria dos shoppings acredita que não seja bom permitir o ingresso sem camisa, de pés descalços ou em grandes grupos. Possivelmente porque existe a percepção de que o público consumidor que sustenta os shoppings não se sentiria à vontade para frequentá-los”, explica.

A propriedade privada é um direito – além de consagrado pela Constituição de 1988 – referendado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, formulada em 1948, onde se lê, no artigo XVII: “Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade”.

Para Ostermann, o mercado pode produzir resultados inesperados para reagir à proibição dos rolezinhos. “Shoppings são espaços criados com um propósito – intermediação de consumo entre lojistas e consumidores – e se aqueles que estão pagando as contas do local (proprietários e lojistas) optarem pela proibição de rolezinhos, essa opção deve ser respeitada. Se isso for uma má ideia, o mercado permite que surjam alternativas concorrendo com essa prática que possam trazer cenários aparentemente inesperados”, acrescenta.

Rolezinho no shopping Center Norte, em SP. Foto:
Rolezinho no shopping Center Norte, em SP. Foto: reprodução/Flickr/Polarizada/midianinja

Porém, segundo Dennis Oliveira, a proibição aos rolezinhos é fundamentada em discriminação. “É totalmente ilegítimo e descabido, pois não se pode controlar a entrada de determinadas pessoas a estabelecimentos comerciais pela sua aparência. Isto é preconceito e racismo, que é proibido por lei. A ação da Justiça é absurda e ilegal e só demonstra como este poder (o Judiciário) ainda está permeado por uma visão elitista e preconceituosa”, aponta.

Já Fabio Ostermann acredita que a proibição está baseada na forma em que os encontros aconteceram. Para ele, o acesso aos centros de compras tem sido historicamente livre, independente de cor, credo ou renda. Ele diz que as proibições recentes são decorrentes da forma como os rolezinhos têm acontecido. “A proibição não é contra grupos étnicos ou sociais, mas sim contra comportamentos específicos. Como afirmou um proprietário de shopping, estes ‘não são lugar pra baile funk’. Mas também não são obviamente lugar para baile sertanejo, show de metal, patinação, críquete, o que seja. Para que o objetivo do shopping seja atendido, é necessário que se tenha um ambiente tranquilo e confortável”, completa. Segundo a Associação Brasileira de Lojistas de Shopping (Alshop), o movimento nos centros de compras caiu em cerca de 25% nos dias e nos locais onde rolezinhos foram marcados.

A posição é a mesma da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), que se manifestou dizendo que tomaria as providências necessárias para garantir que os estabelecimentos comerciais mantivessem sua condição de “local seguro”. Assim, apoiou a iniciativa de diversos centros comerciais que entraram com liminar na justiça pedindo autorização para impedir o livre acesso a suas dependências. A entidade também convocou reuniões em diversas cidades para discutir os recentes acontecimentos e pediu uma reunião extraordinária com a presidente da república.

Policiais no rolezinho no Shopping Center Norte, em São Paulo. Foto: reprodução/flickr/midianinja
Policiais no rolezinho no Shopping Center Norte, em São Paulo. Foto: reprodução/flickr/midianinja

Por outro lado, os defensores de que os encontros sejam livres dizem que esse jovens também tem o intuito de consumir e a proibição seria então fundada apenas em discriminação. Para Marcela Carbone, jovem de 19 anos e militante do PSTU, os acontecimentos ganharam dimensão política. “Uma vez em que os shoppings colocaram a polícia para reprimir os jovens negros de periferia e conseguiram uma liminar na justiça para barrar os rolezinhos, escancarando o caráter racista dos shoppings”, critica. “Não vejo os rolezinhos como uma perturbação da ordem pública, mas sim da ordem dos ricos”, completa.

Carbone aponta, ainda, que as liminares concedidas pela justiça configuram o apoio do poder público à ordem segregacionista. “Admitir que só algumas pessoas podem circular, com liminares, policiais e oficiais de Justiça analisando quem pode ou não entrar, oficializa a discriminação, e estabelece a segregação social e um apartheid sustentado pelo Estado”, complementa.

O rolezinho da USP

Um encontro parecido com os rolezinhos, só que frequentado por estudantes da USP, acontece tradicionalmente no Shopping Eldorado, na Zona Oeste da capital, há sete anos. Organizado pelo Centro Acadêmico Visconde de Cairu (CAVC) da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, o evento reúne sempre cerca de 500 calouros que entoam gritos de guerra no saguão de entrada.

Alguns dos cânticos são ofensivos a faculdades consideradas rivais da FEA, como a Faculdade Getúlio Vargas (FGV), mas os estudantes que já fizeram parte do evento reiteram que nunca foram repreendidos pelos seguranças do local, ainda mais da maneira como os rolezinhos vêm sendo.

Diante da semelhança entre os encontros, o CAVC e a Atlética da FEA emitiram uma nota em que questionam “a diferenciação do tratamento baseado em critérios socioeconômicos e racistas”. A nota cita a triagem feita pelo Shopping JK Iguatemi e legitimada por uma liminar concedida pela justiça.

“Se há de fato uma preocupação com grandes aglomerações, a restrição deveria se dar para todos igualmente – o que não ocorreu. Se os eventos são similares, o tratamento deve ser o mesmo, independentemente de quem os frequente. Acreditamos que, enquanto nos embasarmos em preconceitos para definir quem pode ou não frequentar determinado local, privado ou público, continuaremos tendo ambientes, como os Shopping Centers, de profunda segregação social”, resumia a nota.

J.Press
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