Especial

O dia em que descobri que a luta é pelo coletivo

O depoimento de um estudante da USP sobre a ação da Polícia Militar durante manifestações

Por Fernando Magarian (fernandomagarian@gmail.com)

– Corre! Vai! Larga essa porra de cartaz! Vâmo entrar naquele canteiro!
[explosão]
-Caralho, eles tão ali atrás, corre!
– Não dá pra correr!
Porra, eles devem tá lá na frente também!
[explosão]
– Abaixa pra fugir da fumaça!
Meu deus, caiu uma bomba aqui muito perto!
– LEVANTEM, SAIAM DAÍ! CORRE DAÍ, FOGE!
– DEITA, CARALHO! DEITA, CAMBADA DE FILHO DA PUTA!
– A GENTE TÁ DEITADO! NÃO JOGA BOMBA, PELO AMOR DE DEUS!
– NÃO JOGA!
– CALA A BOCA, VAGABUNDA!
*click*
Meu deus, ele jogou.

Estudante é detido em protesto. Foto: terra.com.br

15 de outubro de 2013, terça-feira nublada. Vários estudantes da USP (Universidade de São Paulo), então em greve, planejaram uma manifestação pelas ruas do centro de São Paulo, para chamar atenção para a mobilização deles e pressionar a reitoria da universidade a negociar as reivindicações – até então, a Universidade se recusara a sequer conversar sobre a greve, ainda que esta tivesse recebido uma adesão bastante expressiva. O reitor ignorava os alunos e fingia que as atividades acadêmicas não estavam sendo prejudicadas.

Nos reunimos no fim da tarde no Largo da Batata, ao lado da estação Faria Lima do metrô. Queríamos democracia na Universidade, queríamos escolher nosso reitor e queríamos uma universidade autônoma para ensinar e pesquisar. Uma universidade não submetida aos interesses políticos do governo estadual. Por isso, por volta das 18 horas iniciamos a caminhada rumo ao Palácio dos Bandeirantes, residência do governador Geraldo Alckmin, o homem no topo da pirâmide de poder da USP, no fim das contas. No caminho, interromperíamos o tráfego em diversas vias importantes da cidade. Mas nós nunca chegamos lá.

Ação da Polícia Militar em protesto. Foto: terra.com.br

Caralho. Fodeu! Eles tão chegando, não dá pra correr! E agora, pra onde eu corro? O que eu faço?
– NÃO BATE NOS MENINOS! ELES NÃO FIZERAM NADA!
– SAI DAQUI, CARALHO!
– E AGORA, PLAYBOY FILHO DA PUTA? E AGORA, VIADO DO CARALHO!
– FILHO DA PUTA!
Câmeras. Muitas câmeras. Mas que porra é essa?
– Calma, a imprensa tem esse direito! Eles tão fazendo o trabalho deles. Sem agressões. Vamos garantir a integridade dos detidos. A ordem é somente imobilizar e conduzir para a delegacia. Tragam as algemas!
Porra, eu vou ser algemado! Não dá pra fugir mesmo. Eu vou ser preso. Meu deus, eu não posso ser preso! Eu não acredito que eu vou realmente ser preso, eu não posso! Minha mãe, o que eu vou fazer agora?

A manifestação foi duramente reprimida. Desde a saída do Largo da Batata fomos acompanhados por um contingente de policiais militares talvez até maior que o número de manifestantes (400 segundo a PM, 2000 segundo o Diretório Central de Estudantes da USP). Eu estava com um grupo de bateria, fazendo barulho e gritando palavras de ordem contra a intransigência do reitor, a política elitista de ingresso nas universidades públicas, o militarismo da polícia que não condiz com uma sociedade civil. Para a guerra, eu fui armado com um tamborim.

– Deita de costas e põe as mãos pra trás! Você fica parado aí!
Merda, to sendo algemado, eu vou ser preso. Pelo menos tão filmando tudo, podia ser pior. E aquela bomba que jogaram aqui agora há pouco? Eu não ouvi explodir…
– Gente, falem seus nomes olhando para a câmera!
– Viviane de Melo Souza*!
Mas que porra é essa? Tem muita câmera! Devem ser organizações de direitos humanos, advogados ativistas, sei lá, são amigos…
– Fernando Magarian! Fernando… Ma-ga-ri-an!
– Alexandre Borges*!
– Põe a mão pra trás!
– Falta alguém falar o nome? A gente vai filmar todas as revistas, não deixa eles revistarem sem câmera!
Meu Deus, eles vão levar a gente pra delegacia. Não vai ter ninguém filmando dentro da viatura, e se eles espancarem a gente? E se eles mandarem a gente pra cadeia e ninguém nem ficar sabendo? Será que vai ter advogado???
– VAI TER ADVOGADO NA DELEGACIA?!?
– Sempre vai ter advogado. A luta é pelo coletivo.

A bateria estava na parte de trás da multidão, no “fundo” da manifestação. Bons metros atrás de nós estava a intimidadora tropa de choque da PM. Isso me preocupava um pouco, porque a lógica me levava a pensar que a frente e o fundo da manifestação eram os lugares mais perigosos de se estar – é claro que “perigosos”, aqui, era usado em um sentido muito brando e hipotético, e eu não imaginava que minutos depois eu enfrentaria uma sensação de perigo físico instintivo, real.

– Todos algemados, tenente.
– Vamos levantar os detidos, cada um é responsável por um. Levanta um de cada vez.
Acho que nós somos uns quinze, vinte… e tem dois rostos conhecidos, são ecanas¹. Menos mal, não tô sozinho. Outro rosto familiar. É do movimento estudantil. Ah, aquele cara de terno deve ser advogado!
– A algema ta machucando?
Nem tô sentindo, na verdade. Eu vou tá preocupado com algema agora?? E por que esse PM tá sendo simpático comigo??
– Só um pouco.
– Não fica mexendo. Ela é auto-ajustável, quanto mais você mexe mais ela aperta.
– Hum, ok.
O governo ta com bastante dinheiro pra investir em repressão, hein? Por que o advogado não vem logo falar comigo? Ele ta indo pro outro lado, eu preciso falar com ele também, pelo amor de Deus!

– Oi. Meu nome é Breno, eu sou advogado. Eu vou pra delegacia. Quando vocês chegarem já vai ter advogado lá. Eu posso pegar seu celular para anotar meu número?
– Pode! Tá no bolso!
– Quando você chegar na delegacia você me liga.Você não fala nada sem advogado! Nem aqui nem lá. Você tá entendendo? Isso é muito sério.

Quando nós andávamos sobre a ponte Eusébio Matoso – fechando completamente a via, como fizemos em todas pelas quais passamos, quando a PM já não havia fechado – o clima estava um pouco tenso. Eu não via nada de anormal acontecendo (é impossível ver muito longe no meio de uma multidão), mas tinha a inabalável certeza de que ia acontecer. O céu já ficara escuro, os carros e as pessoas já estavam muito para trás, o Choque passou a se aproximar desconfortavelmente, sem razão aparente, colegas faziam sinais combinados de “ainda não fodeu, mas está muito quase!”.

Eu acredito que os estudantes da USP eram a grande maioria da multidão, mas também participavam da manifestação, simpáticos às causas, coletivos sociais, partidos de esquerda, estudantes de outras faculdades e os mitificados (e crucificados) pela mídia black blocs – que, ao contrário do que se divulga, não são um grupo organizado mas tão somente adeptos de uma mesma tática de defesa e ação direta. Eu já fora avisado que provavelmente haveriam black blocs na manifestação, e disso se depreende automaticamente que haverá repressão. É claro que eu não deixaria de participar por causa disso. A repressão precisa ser combatida de frente. Eu não tinha medo de polícia.

– Vamos pra lá pra eu te revistar.
Ufa, uma câmera gigantesca tá vindo filmar.Quem é esse outro cara? Deve ser sargento ou alguma coisa assim.
– Você é estudante?
– Sou.
Acho que eu não devia falar nada com ele. O advogado avisou.
– De que?
– Jornalismo.
– Hum. Profissão bonita, eu admiro muito. Você tem irmã, mãe…?
– Tenho.
– Imagina se uma irmã, mãe, ou vó sua passa mal e tem que ser socorrida, levada pro hospital por essa avenida aqui. Como é que faz? Você acha legal uma coisa dessas? Fechar o trânsito, quebrar banco…
Calma, eu to levando lição de moral de um PM enquanto eu tô sendo preso?!? Ele é o que, meu tio conservador?
– A questão não é essa. A questão é que vocês encurralam e saem prendendo manifestante a torto e a direito, sem nem saber se eles fizeram alguma coisa pra ser preso. Eu tava na bateria fazendo barulho!
Chega, não é pra eu conversar com esses caras. E eu não vou nem falar o que eu realmente penso sobre quebrar banco.
– Vem, entra aqui. Deixa eu tirar a algema antes.
Eu tô sentado num camburão de viatura, haha… Eu tô sendo preso mesmo…Bom, tô muito mais tranqüilo agora. Esses caras não são escrotos como eu esperava. São conservadores e adestrados e tal, mas eles não são maus… Outra câmera gigantesca.
– Se você não quiser que ele te filme você pode abaixar a cabeça.
Hum, deve ser imprensa, então. Eu não tenho porque abaixar a cabeça. Não tô fazendo nada de errado. Vocês estão.

Repressão estudantil feita pela PM em protesto. Foto: reprodução/Facebook/Black Bloc BR

Foi na descida da ponte Eusébio Matoso para a Marginal que o tumulto começou. Nós precisávamos passar por um pequeno gramado íngreme que obviamente dispersou o bloco de pessoas. Para tentar não ficar tão distante dos que estavam à frente, nós descemos e corremos para reagrupar – o que não é tarefa fácil em um grupo tão numeroso. A bateria conseguiu se reagrupar e corremos para ficarmos juntos com o resto da multidão, já de passos apressados.

Em uma sequência de eventos que aconteceram muito rápido, nós chegamos à marginal e avançamos mais e mais no enorme conglomerado de pessoas. Todas muito agitadas, todas muito tensas. Cantar em coro palavras de ordem já se mostrava uma atividade bastante complicada. De repente estávamos no meio da multidão – e com isso eu quero dizer que não conseguia ver absolutamente nada do que acontecia na parte da frente nem na parte de trás do ato.

Não andamos muito antes de parar completamente: alguma coisa que eu tentava mas não conseguia ver acontecia lá na frente, e nós não podíamos mais avançar, tampouco recuar. Estávamos empacados, provavelmente encurralados, e a massa de pessoas, acuadas, era tão comprimida que não se podia andar muitos passos para nenhum dos lados. Eu já estava extremamente tenso neste momento. Olhar ao redor me deixava tenso. Olhar o rosto das pessoas, conhecidas e desconhecidas, me deixava tenso. As palavras “rota de fuga” passaram vagamente pela minha cabeça em acelerada atividade. Não tinha para onde fugir. Tarde demais para arrependimentos. Nós estávamos cercados.

E tudo isso aconteceu em coisa de dois minutos.

Tô trancado nessa porra de camburão faz tempo já. Cadê os outros presos? Hum, do outro lado da rua. Tem viatura saindo já. Eles tão sendo levados de quatro, cinco na mesma viatura. Será que vão colocar mais gente aqui? Será que eu vou sozinho? Tomara que não. Esses PMs que tão nessa viatura não parecem que vão esculachar, mas é melhor não arriscar. Tomara que coloquem mais gente aqui.

Tem mais PM vindo. Vão abrir o camburão.
– Desce, filha da puta, vai!
– Desce, seu cu de jegue, que eu vou te arrebentar! Viado filho da puta!
– Cu de jegue! Filha da puta!
Caralho! Caralho, e agora? Fodeu. Fodeu. É o Choque.
– Entra aí com a perna esticada, vai!
– Entra aí, filha da puta!
– Segura os escudos, vai caralho!
– Cê é da USP, é? Vai se foder agora, viado!
Fechou. Meu Deus, e agora? Tomara que eles não voltem pra cá. AH, não, os PMs que tavam aqui tão saindo! Esses caras do Choque tão entrando! Puta que pariu, eu vou sozinho na viatura com eles. E agora?
– Vai levar pro 14 DP, capitão?
– É, mas antes a gente vai dar um role aqui.
Fodeu. Eles vão me espancar. Caralho, e se eles me levarem pra um beco? E se eles me matarem? Meu Deus, eu não tenho como fugir. Não tenho o que fazer. Eles podem me matar. Será que eles vão me matar?
Caralho, como eu queria acreditar em Deus agora.
-Ôu, levei uma pedrada na canela, tá doendo pra porra!

Tudo aconteceu realmente muito rápido. O clima chegou no ápice da tensão, e eu, no meio da multidão, completamente imóvel, não conseguia ver absolutamente nada do que acontecia nas extremidades. Em um momento, vi colegas com garrafas de vinagre na mão, encharcando as camisetas de tantas pessoas quanto possível ao redor. No momento seguinte ouvi os primeiros barulhos de explosão, meio abafados. Empurra-empurra: e a próxima bomba, de gás lacrimogêneo, caiu a alguns metros de onde eu estava. O gás intoxicante chegou rápido, e logo cuidou de atordoar os sentidos, de entorpecer a razão.

Nos olhos, na garganta, na pele, a ardência insuportável da pimenta – que vinagre nenhum é capaz de conter. No corpo adrenalina, na cabeça medo, pânico, terror. As bombas continuavam a vir – logo percebi que tanto da frente quanto de trás – e por mais que as pessoas se empurrassem, tentassem fugir e correr, continuavam inertes. O paradoxo instalado na minha mente foi provavelmente a sensação mais angustiante que eu já senti: eu estou sendo agredido, eu continuo sendo agredido por um inimigo mais forte, e não consigo fugir. Mas eu PRECISO fugir. Mas eu não consigo. Está além do meu poder.

Impotência, desespero. Fui submetido ao estado mais animalesco. Não existia dignidade, direitos, racionalidade. Só existia o instinto de autopreservação. Só existia um animal muito mais forte submetendo outro, muito mais fraco, pela força física, pela agressão – que é a única verdadeira lei de convivência da natureza. Eu não tinha livre-arbítrio, eu não tinha vontade nem consciência: eu estava completamente à mercê do meu inimigo.

Em retrospecto, eu não posso deixar de comparar esta condição com a do inseto preso na teia da aranha; seu instinto é sobreviver, é lutar para se libertar do perigo, mas ele simplesmente não consegue. O predador é apenas muito mais poderoso. E naquele momento eu era a presa indefesa, lutando em vão para escapar. E as bombas continuavam caindo, bem ao lado do meu pé, e eu continuava a inalar o ardente ar da repressão.

Ufa, a delegacia!
– Desce!
– Vou te conduzir aqui pelo fundo que é pra você não ser esculachado.
– Ok.

Caralho, quanta gente. Ali, pessoas conhecidas.
– E aí, tudo bem?
– Tudo. Vim sozinho na viatura com o Choque, fiquei com o cu na mão, mas agora tá tudo bem. E agora, que que a gente faz? Tem advogado aí?
– Não sei, eles trouxeram a gente direto pra essa garagem, ninguém entrou ainda.
– Licença, eu sou estudante de Direito da Sanfran². Agora a gente vai ter que dar depoimento, mas eles não podem deixar ninguém preso porque não tem prova de nada contra ninguém. É só depor e eles vão ter que liberar. Mas não fala nada sem advogado!

– Os doze que foram detidos no gramadinho! Vem!

Debaixo da chuva de bombas, e desesperados para fugir daquela tortura, alguns manifestantes começaram a escalar as grades do estacionamento da loja Tok Stok, que logo vieram abaixo. Todos os que estávamos próximos à nova e salvadora rota de fuga nos apressamos a correr para dentro do estacionamento e, pouco à frente, da própria loja. Lá dentro, encontrei um ambiente grande, iluminado, fresco – era uma loja, afinal de contas. Nos cantos, homens e mulheres estendidos no chão eram socorridos por colegas. Vomitavam, desmaiavam, sangravam. Mas parecia perfeitamente seguro. O inferno tinha acabado.

Eu parecia ser o único aliviado, no entanto, imaginando que a polícia não entraria em uma propriedade privada para nos caçar. Ao meu redor todos buscavam alguma saída da loja urgentemente – o que se mostrou acertado, porque eu viria a saber que minutos depois a PM entrou e bombardeou também a loja, com funcionários e tudo. Encontraram a tal da saída e eu, acompanhando a multidão, corri pra fora, uma rua livre de fardados. Me reuni rapidamente com meus colegas, aliviado e imaginando como nós chegaríamos ao Palácio dos Bandeirantes agora.

– Pega o RG e espera que eu vou recolher os dados de vocês.
– A gente pode falar com o advogado?
– Eu não vou falar nada sem o advogado.
– Os advogados estão lá dentro, já, antes de falar com eles vocês vão me passar os dados pessoais.
– Fizeram a gente ficar aqui até tarde, agora vocês também vão ter que ficar. Nome e RG!

– Agora eu vou fazer a ficha completa de vocês no sistema, vai demorar um pouco. Você primeiro, menina, senta aí por favor.
Olha, um gato!
– Bichano! Olha que fofo!
– Né! Coitado, tão inocente, não sabe o ambiente podre em que ele vive.

Nos reunimos (agora em grupos menores e dispersos), dobramos uma esquina, andamos uns cinqüenta metros. Não demorou muito pros barulhos de explosão recomeçarem, desta vez vindos de trás. Nós corremos, naturalmente – agora havia espaço para correr. Mas eles estavam empenhados em levar seus habituais bodes expiatórios de manifestações para o tapete do governador: os que ficam para trás, os que não conseguem escapar e, em geral, não cometeram qualquer crime. Não importa. Eles precisavam prender alguém. O conservadorismo político do governo, a espetacularização midiática da imprensa e a sanha violenta dos cadetes militares precisavam de prisões.

Em outra progressão muito rápida de acontecimentos, as bombas nos obrigaram a buscar refúgio em um canteiro na calçada de um luxuoso edifício, onde nós ocasionalmente ficamos encurralados, sem que as bombas cessassem um instante. De repente, os policiais apareceram correndo, gritando e se aproximando. Desta vez na forma de homens, há poucos minutos na de uma intangível entidade e na presença de infinitas bombas.

Alguns conseguiram correr e fugir, outros ergueram os braços em rendição. Na chegada do grupo fardado, já todos inofensivos e apesar dos suplícios contrários, um policial jogou uma bomba no meio do grupo rendido, a um palmo de distância do rosto de uma menina deitada no chão. Me contaram mais tarde que alguém rapidamente chutou a bomba para longe,evitando uma tragédia que me assombra até mesmo imaginar.

– Bom, você foi detido para averiguação. Essa era uma prática corriqueira na ditadura, a polícia simplesmente te prendia sem justificativa nenhuma, pra ver, lá na delegacia, se você tinha cometido algum crime, era parte de algum grupo subversivo, etc. Era estado de exceção. Hoje isso é ilegal, mas a PM parou no tempo da ditadura e continua fazendo. Agora você vai prestar depoimento pra polícia civil, eles vão te perguntar por que você tava na manifestação, se você cometeu algum crime, essas coisas. Como você não fez nada pra ser preso mesmo, eles vão ter que liberar depois. Eu vou acompanhar o depoimento, é tudo tranqüilo. E só responde o que eles perguntarem, não fala nada a mais porque eles podem tentar usar pra te incriminar.

– Nome.
– Fernando Magarian.
– Você é líder dos Black Blocs?
Ah, isso não pode ser sério.

– Lê e se estiver tudo correto assina o depoimento.
– Deixa eu ler junto.

– Pra mim tá perfeito. Você quer mudar alguma coisa que você disse?
– Não, é isso mesmo.
– Então é só assinar.

Eles nos xingaram, nos ameaçaram, nos algemaram e nos levaram para a delegacia. Eu fui preso com mais três estudantes da minha faculdade, e muitos outros de outras faculdades da USP. Fui conduzido para a delegacia sozinho no camburão de uma viatura que transportava mais quatro policiais do batalhão de choque – uma viagem na qual eu tive certeza que ia apanhar e cheguei a temer pela minha vida; parece completamente estúpido agora, parecia absolutamente plausível no momento.

Na delegacia nós trocamos de mãos: os policiais militares saíram do cenário e em seus lugares entraram os inúmeros funcionários da Polícia Civil, chefiados pelo “doutor delegado”. Ali, fui tratado com muito menos hostilidade e fui surpreendido por uma espécie de consenso anti-governador, anti-ações repressivas da polícia militar e a favor dos protestos e da livre manifestação nas ruas (com uma boa dose de conservadorismo, é verdade, mas ainda uma posição muito diferente da que eu esperava encontrar no seio da polícia civil).

Depusemos para dizer o óbvio: não havíamos cometido crimes, éramos apenas o produto da perseguição política do governador aos manifestantes de rua, através de seus fiéis cães de guarda, os policiais militares. Depois de um rancoroso chá de cadeira, fomos liberados por falta de provas contra nós – constando acusações de depredar patrimônio privado e agredir agentes do estado, se bem me lembro. A nossa própria detenção fora irregular, sem qualquer evidência de crime.

Quando eu saí da delegacia, depois das duas horas da madrugada, cansado e com fome, me deparei, sinceramente surpreso, com uma dezena de pessoas da minha faculdade me esperando na rua. Grandes amigos, colegas simplesmente, diretores do centro acadêmico. Alguns deles nem sequer estavam na manifestação, e saíram de suas casas tarde da noite para garantir que nós seríamos libertos. Pessoas que não tinham qualquer obrigação de estar ali, mas estavam, fosse por afeição pessoal, fosse por solidariedade, e pelas quais eu só posso ter imensa gratidão.

Ali, após o pesadelo que fora aquela noite, encontrar aqueles amigos me fez lembrar de uma frase que um rapaz me havia dito mais cedo, quando eu estava jogado aos pés da polícia, algemado e desesperado: “a luta é pelo coletivo”. E isso me remeteu imediatamente aos jovens advogados que madrugaram na delegacia sem qualquer remuneração para nos proteger da perseguição do estado, das pessoas que tentavam freneticamente fazer máscaras de vinagre para todos ao redor, dos que em vez de correr da polícia se detinham socorrendo completos estranhos encontrados no caminho.

E eu percebi que de tudo o que passou pela minha cabeça naquelas poucas horas – sobre repressão, sobre medo, sobre perigo, sobre falsa democracia, sobre (desafiar o) poder – o que mais fortemente ficou guardado foi a frase citada. Foi ali que eu percebi que eu sempre encontraria união, solidariedade e companheirismo na luta contra a opressão, a injustiça e a desigualdade.

J.Press
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