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Criminosos de guerra nazistas que começaram uma nova vida

Deixar o passado para trás e perder-se no mundo foi o que aconteceu com muitos deles

Por Carolina Shimoda (carol.shimodab@gmail.com)

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, 22 líderes nazistas foram julgados no Tribunal de Nuremberg. As acusações variavam entre crimes de guerra, crimes contra a paz, conspiração e atos deliberados de agressão e crimes contra a humanidade.

Tribunal de Nuremberg em 1946. Foto: CORBIS / Latinstock

Apesar disso, sabe-se que muitos operadores dos campos de concentração fugiram para outros países, integrando-se em uma nova sociedade, já que, inicialmente, apenas os comandantes foram presos e julgados. Em diversas partes do mundo, então, surgiram espécies de caçadores de nazistas, que vasculham desde documentos de imigração até transferências bancárias.

Laszio Csatary saindo do tribunal em Budapeste em 2012. Foto: Reuters

Entre agosto e outubro de 2013, o assunto de criminosos de guerra nazistas voltou à tona. Isso deveu-se ao fato de duas dessas figuras terem morrido: Laszio Csatary, em agosto; e Erich Priebke, em outubro.

Csatary, húngaro de 98 anos, estava à espera de seu julgamento pela deportação de milhares de judeus, quando morreu por pneumonia. Com o fim da guerra, ele havia se refugiado no Canadá, vivendo com uma identidade falsa, trabalhando no mercado de arte. Em 1995, quando as autoridades canadenses descobriram quem ele realmente era, ele já havia voltado para a Hungria, onde ficou até ser detido em 2012 e condenado à prisão perpétua no início de 2013.

Erich Priebke foi condenado pelo massacre de 335 pessoas. Foto: Gerard Julien/AFP

Já Erich Priebke era um italiano, que foi um capitão da SS (em português, “Tropa de Proteção”) durante a Segunda Guerra. Ele chegou a ser prisioneiro de guerra por vinte meses, mas fugiu pelo “caminho de ratos” – uma rota europeia de fuga nazi. Assim, ele chegou à Argentina, onde viveu com seu nome e passaporte alemães, ministrando aulas em um colégio. Ele só foi localizado 50 anos após sua chegada no país, sendo condenado a prisão perpétua em 1996. Morreu aos 100 anos, em Roma, em prisão domiciliar.

Onde os foragidos viveram?

A Argentina foi um dos países para onde muitos fugiram após o Julgamento de Nuremberg, graças ao procedimentos de imigração facilitados e ao então governante Juan Perón. Segundo o livro “Crônicas de uma Guerra Secreta”, de Sergio Corrêa da Costa, milhares de nazistas, entre alemães e croatas, chegaram à Argentina entre 1947 e 1952, recebendo abrigo do Estado peronista e da Igreja católica. Ainda segundo o autor, Perón havia feito acordos com o governo alemão, que previam que os agentes nazistas não seriam presos na Argentina, e que poderiam usar identidades falsas. Em troca, haveria a apoio da Alemanha para formação de um bloco sul-americano liderado pela Argentina.

Foi nesse país, inclusive, que um dos líderes mais importantes do partido nazista, Adolf Eichmann, foi sequestrado pela inteligência israelense em 1960. Lá, ele havia vivido com um passaporte falso obtido junto à Cruz Vermelha Internacional durante 10 anos.

A justiça entendeu que não havia provas suficientes de que Kepiro tinha conhecimento dos massacres. Foto: Picture Alliance/Abaca

Também foi encontrado em terras argentinas o húngaro Sandor Kepiro, em 1996. Ele já havia sido condenado em 1944, mas a decisão fora anulada. Dois anos depois, o tribunal do regime comunista o condenou a prisão, mas ele conseguiu fugir. Em 2011, um tribunal de Budapeste o absolveu pelas acusações feitas em 1942 (cumplicidade nos crimes de guerra), alegando falta de provas. Ele veio a falecer dois meses depois.

Somados a esse país, Uruguai, Chile e Brasil também começaram a levantar suspeita de possíveis abrigos aos foragidos. Promotores de justiça alemães iniciaram em 2013 um rastreamento entre os nomes de imigrantes vindos para o Brasil da Alemanha após 1944, da mesma forma como começaram a fazer no Chile em 2003. Em território chileno, conseguiram identificar quatro nomes – mas as pessoas já estavam mortas quando as identidades foram reveladas.

Josef Mengele, conhecido como "Anjo da Morte". Foto: Reprodução/Toptenz.net

Foi no Brasil que morreu Josef Mengele, em 1979 – embora seu corpo só tenha sido reconhecido em 1985. Ele foi um médico nazista, chefe do campo de Auschwitz, responsável por decidir o destino de milhares de judeus: trabalho escravo, morte ou cobaias em testes. Mengele fugiu dos Aliados, desembarcando na Argentina, acolhido por Perón também (alguns historiadores acreditam que ele chegou a viver no Paraguai). Ao final dos anos 60, mudou-se para o Brasil, onde encontrou outro ex-membro do partido nazista, Wolfgang Gerhard. Foi com esse homem que Mengele teve sua identidade trocada, ou seja, o corpo encontrado morto no litoral paulista e dado como sendo Gerhard na época era, na verdade, Mengele.

A Bolívia também acabou abrigando um desses criminosos. Klaus Barbie, o “assassino de Lyon”, foi capturado em 1983.

Após a guerra, ele havia começado a trabalhar como agente secreto para os americanos, mas foi condenado à pena de morte no mesmo ano (1947). Fugiu para a Bolívia, onde prestou serviços para a ditadura do general Luis García Meza. Quando foi capturado, não mostrou arrependimento e, inclusive, declarou-se contente por ter salvado a França de um regime socialista. Foi condenado à prisão perpétua, e morreu de leucemia em Lyon quatro anos depois.

Barbie foi levado ao tribunal em 1987, na França. Foto: Roland Witschel

Apesar do quadro mais favorável estar longe da Europa para a maioria desses fugitivos, muitos deles ainda conseguiram estabelecer-se por lá. Como afirmam Rory Carrol e Uki Goni em um artigo do The Guardian, “com a Guerra Fria, a Grã-Bretanha e a União Soviética apoderaram-se de cientistas nazistas”.

Simon Wiesenthal Center

Fundada em 1977, é uma organização internacional de direitos humanos com foco nos crimes do holocausto – assassinato em massa de cerca de seis milhões de judeus. Ela tem o objetivo de combater o antissemitismo, o racismo, o terrorismo e o genocídio através da educação e esclarecimento sociais. Sediada em Los Angeles, leva o nome do maior “caçador de nazistas”, Simon Wiesenthal.

Wiesenthal foi um judeu ucraniano que passou boa parte da sua vida em campos de concentração. Com o fim da guerra, ele começou a se empenhar muito em caçar criminosos de guerra nazistas. Assim, ele encontrou Adolf Eichmann e muitos outros responsáveis pelas mortes em massa.

Fotos de Aribert Heim, que nunca foi encontrado. Fotos: DPA

Em 2010, o centro lançou a Operation Last Chance (Operação Última Chance), como uma tentativa de correr contra o tempo e conseguir achar os criminosos, uma vez que muitos deles estavam chegando ao fim de suas vidas. A maior expectativa da organização era descobrir um nazista em particular: Aribert Heim, apelidado “Doutor Morte”.

Heim foi um médico austríaco que fazia experimentos com as pessoas nos campos Sachsenhausen, Buchenwald e Mauthausen, tais como testar a velocidade de injeções letais no coração. Foi preso em 1945 e libertado dois anos mais tarde. Assim, chegou a praticar medicina na Alemanha por um tempo. Desapareceu em 1962, quando a polícia alemã estava prestes a prendê-lo e não foi encontrado, até ter sua morte oficialmente declarada pela justiça alemã em setembro de 2012.


Infográfico: Ana Carolina Leonardi/Jornalismo Júnior

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2 thoughts on “Criminosos de guerra nazistas que começaram uma nova vida”

  1. Minha cidade natal, Peabiru-Pr. abrigou alguns desses fugitivos de baixo escalão, há no cemitério da cidade, um túmulo de um casal, com o primeiro nome Klaus e Rosa, provavelmente falsos, lembro que o nome era sr. Carlos e dona Rosa, eles diziam se austríacos, muitos tinham documentos falsos dessa origem, moravam numa chácara na periferia da cidade sob a tutela de um antigo advogado, dr. Alceu Venâncio esse já falecido em 2012.

    1. Impressionante, como descobriu todas as informações ? Estou no embalo dessas notícias depois da reportagem de domingo no fantástico sobre o já morto Mengele.

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