UFO ficcional em Moonbeam, Ontario, Canada
Ciência e Tecnologia Cultura

ETs: a psicologia por trás dos contatos

Protagonistas de experiências ufológicas lidam de maneiras distintas com os eventos, tornando-os traumas ou aguçadores da curiosidade

Por Mariana de Arruda Miranda (marimiranda94@gmail.com)

O ser humano sempre mostrou a sua apreciação pelo universo, seja por antigos rituais que louvavam astros ou por modernos filmes de ficção científica. Filmes como “E.T” e “Homens de Preto” mostram o contato de humanos com alienígenas, tanto amistosos quanto violentos. Mas até onde a “ficção” é realmente fictícia? Certas pessoas relatam ter visto aparições que, para elas, não são terrestres.

UFO ficcional em Moonbeam, Ontario, Canada
Nave extraterrestre ficcional em Moonbeam, Ontario, Canada. Foto: Wikimedia Commons

“Em dezembro de 2008, em uma cidade do interior de São Paulo, dois jovens teriam visto estranhas luzes, que mudavam de cor entre vermelho e azul, se deslocando pelo céu por volta das 21 horas, indo em direção a um terreno baldio. As silenciosas luzes, em forma de uma elipse, teriam estacionado acima do terreno, que estava coberto por mato. Assustados, os dois rapazes correram para uma sorveteria próxima para chamarem dois outros amigos, para que todos retornassem juntos ao terreno. Ao se aproximarem cautelosamente do terreno para observar melhor, teriam distinguido três criaturas de baixa estatura (aproximadamente 1,20m), olhos grandes e escuros, cabeça grande, sem nariz ou orelhas visíveis, com boca pequena e arredondada, pele cinza escura. Os alegados seres os observavam de dentro do mato alto do terreno, a uma distância de aproximadamente 10 metros, o que os teria assustado bastante. As supostas criaturas pareciam se comunicar entre si em um idioma ininteligível. Os rapazes manifestaram desconfiança de que houvesse mais que três criaturas, considerando terem vislumbrado ao menos mais duas semi-ocultas na mata. Um dos rapazes tentou registrar as criaturas e luzes pelo celular, gerando uma filmagem trêmula e escura, com poucos detalhes visíveis, que tive oportunidade de examinar. A experiência teria durado aproximadamente 40 minutos, após o que os rapazes decidiram se afastar do local. Tal decisão teria se dado após os rapazes constatarem uma espécie de luz vermelha direcionada à camisa de um eles, à semelhança de um laser, levando-os a pensar que se tratasse de alguma arma dos alegados seres. Passados alguns dias do episódio, pude entrevistar os quatro rapazes e seus familiares, estes ultimos afirmando que os jovens se encontravam muito assustados desde então”. Esse é um relato contado por Leonardo Martins, doutorando e mestre em psicologia social pela USP e que tem como áreas de pesquisa as experiências anômalas, saúde mental, psicologia social e psicologia da religião.

A História e os alienígenas

Existem possíveis evidências de que visões de óvnis e alienígenas vem ocorrendo há milhares de anos. Teorias foram criadas a respeito, como a dos “Astronautas Antigos”, que diz que antigas comunidades interagiam com alienígenas, estes sendo vistos como deuses que desciam dos céus para ajudar as antigas civilizações. “Todas as culturas investigadas a respeito, atuais e passadas, possuem relatos de visões estranhas no céu, visões de criaturas incomuns, etc. Em cada época e lugar, as coisas vistas eram chamadas de modos diferentes. Ou seja, isso sempre aconteceu, com maior ou menor frequência. Com o advento da modernidade, aos poucos os extraterrestres passaram a ser evocados como explicação”, diz Leonardo Martins.

Contatos

A possível presença de alienígenas na Terra preocupa alguns e entusiasma outros. Contudo, não é possível saber se os relatos daqueles que asseguram ter visto óvnis ou aliens são verdadeiros ou não. Não existe também um perfil fixo de pessoas que participam de experiência ufólogicas, porém é possível ressaltar algumas características em comum: “É relativamente difícil traçar perfis de protagonistas de experiências ufológicas, pois variam conforme o contexto cultural. Contudo alguns padrões podem ser reconhecidos. Em resumo, relatos de abdução são mais comuns em mulheres. Assim como com abduzidos, os contatos amistosos também começariam tipicamente na infância dos protagonistas, de modo que essas pessoas têm comumente um histórico pessoal de experiências estranhas, visões de vultos incomuns, mudanças frequentes de religião (pois essas pessoas tendem a buscar incansavelmente explicações para suas estranhas experiências), incompreensão familiar por sempre terem contado histórias incomuns ou mesmo suspeitas precoces dos familiares sobre sua saúde mental.

Um UFO (objeto voador não identificado) em Roma. Foto: Wikimedia Commons
Um UFO (objeto voador não identificado) em Roma. Foto: Wikimedia Commons

Contudo, essas pessoas possuem desenvolvimento psicológico tipicamente saudável, o que afasta seus relatos do espectro do transtorno mental. Mas há, tipicamente, algumas características (não patológicas) de personalidade em comum entre essas pessoas. Entre elas, os protagonistas de experiências ufológicas tendem a ser mais criativos, possuir ‘mente mais aberta’ à novidade e ao questionamento das convenções sociais, ponderarem menos antes de tirarem uma conclusão ou de abraçarem uma crença e possuir um senso estético mais saliente. Alguns levantamentos simples, feitos sem o rigor científico necessário, sugerem que há padrões referentes a tipo sanguíneo e mesmo orientação sexual; mas tais hipóteses precisam ser investigadas em estudos propriamente científicos em ampla escala”, diz Leonardo Martins.

Se os perfis dos protagonistas não são iguais, os dos locais onde ocorrem esses possíveis avistamentos também não são. Os filmes de ficção retratam alienígenas tanto no campo quanto nas cidades, situação que não é tão fictícia assim: “Embora seja comum a crença de que avistamentos ufológicos ocorram mais no campo que nas cidades, seria mais exato dizer que tanto meios rurais quanto urbanos apresentam muitas experiências desse tipo. A diferença relativa entre os dois tipos de ambiente cultural parece estar nos tipos de experiências relatadas em cada um. Assim, enquanto as experiências no meio rural tipicamente descrevem visões de bolas de luz no céu, perseguições em estradas isoladas por focos de luz agressivos e visões de criaturas estranhas e de formas bastante variadas, o meio urbano costuma sediar narrativas de objetos luminosos no céu, contatos amistosos com alienígenas de aparência sobrenaturalmente bela (descritos como seres espiritualmente evoluídos, que disseminariam mensagens de cunho místico) e abduções (isto é, o ingresso involuntário do protagonista no pretenso óvni, ao que se seguiriam exames de aparência médica, reprodutiva e psicológica) pretensamente realizadas por alienígenas de baixa estatura, pele cinza, cabeça grande, corpo magro e olhos negros desproporcionais”, acrescenta Leonardo.

Os efeitos psicológicos de um contato

Após um suposto contato alienígena, o protagonista pode ter tanto reações negativas quanto positivas em relação ao fato. Enquanto o evento aguça a curiosidade de alguns, pode também provocar o pânico em outros: “Durante e imediatamente após a experiência (entendida aqui como uma vivência subjetiva, que pode ou não corresponder a uma “realidade objetiva”), as pessoas tendem fortemente a buscar uma explicação prosaica para o ocorrido, mesmo quando já possuem crenças ufológicas. Isso é o oposto do que a maioria das pessoas que nunca vivenciaram algo dessa natureza pensa sobre quem as protagonizou. Assim, os protagonistas consideram inicialmente a possibilidade de estarem vendo aviões, satélites, balões, ou estarem sonhando, tendo uma alucinação. Somente após considerarem tais possibilidades prosaicas, elas assumem explicações extraordinárias, como naves e seres extraterrestres. Em regiões rurais, as experiências ufológicas usualmente possuem conotações negativas, o que costuma motivar as pessoas a fugirem assim que constatam algo estranho. Entre os casos que pesquisei, há pessoas que se jogaram de pequenas pontes ou pularam em arbustos repletos de espinhos para tentarem se esconder de luzes no céu que as estariam perseguindo. De qualquer forma, as pessoas costumam passar por um período inicial de perplexidade,que varia conforme disposições psicológicas de cada um e do que o seu ambiente cultural fornece como explicação”, diz Leonardo.

Após um momento inicial, os protagonistas de experiencias ufólogicas passam por reflexões e realizam mudanças em suas vidas, como explica o pesquisador: “Independentemente da ‘realidade objetiva’ de tais experiências, seus protagonistas costumam ficar bastante convencidos sobre essas terem ocorrido tal qual se lembram. Isso tende a ocasionar uma série de mudanças tanto superficiais como profundas, o que comumente é proporcional à ‘intensidade’ da experiência. Assim, os protagonistas tendem a dar um novo sentido para sua vida e para a realidade, geralmente abraçando valores e comportamentos mais espiritualizados e altruístas. As experiências de conotação mais negativas, como as abduções, tendem a gerar ansiedade e mesmo alguma paranoia, que podem persistir por algum tempo”.

Visões brasileiras

Relatos de experiências ufólogicas no Brasil são mais comuns do que parecem. Contudo,  supostas abduções são mais raras no Brasil do que em países como o EUA. Os protagonistas destas experiências mais violentas tendem a desenvolver uma aversão ao tema ou a encontrar por meio da cultura um sentido para aquilo, confortando ansiedades.

“O Brasil é um país privilegiado, se é que se pode dizer assim a esse respeito, devido ao grande número, diversidade e exotismo de suas experiências ufológicas. Os locais com episódios mais frequentes são chamados às vezes de ‘hot spots’ em avistamentos, como o sul de Minas Gerais, a Chapada Diamantina (BA), a Serra da Beleza (RJ) e o litoral sul de São Paulo. Nesses locais de elevada casuística, a cultura costuma se apropriar dos episódios e das crenças associadas a eles, dando nomes peculiares (como ‘ET de Varginha’, ‘Mãe do Ouro’ e ‘Chupa-chupa’), aproveitando-se turisticamente (por exemplo, há um ‘discoporto’ construído pela prefeitura em Barra do Garças, MT), entre outras possibilidades. Portanto, as experiências ufológicas acabam alimentando e sendo alimentadas pela cultura de cada local”, finaliza Leonardo.

 

J.Press
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