Cultura

Histórias em Quadrinhos nacionais

Entenda o desenvolvimento do gênero no país e as possibilidades para o futuro das HQs brasileiras

Por Luís Viviani (luis.viviani89@gmail.com)

Por muito tempo as histórias em quadrinhos eram consideradas como simples narrativas e desenhos para crianças. Havia certo desdém quando o assunto eram os “gibis”, apresentadas como inferiores a outros tipos de arte. Eram consideradas apenas como simples forma de entretenimento e para um público pequeno. Porém, cada vez mais o gênero das HQs é visto com positividade, ganhando status de “a nona arte” e com a sua produção aumentando. Atualmente, o mercado de quadrinhos se expande e há um reconhecimento cada vez maior dos trabalhos feitos. O Brasil se encontra nessa fase de crescimento, mas ainda é muito inferior comparado a outros países.

As novas perspectivas no mercado brasileiro de HQs podem tirar o foco das produções estrangeiras. Foto: blog Rindo Águas

Foi-se o tempo em que a Turma da Mônica e os quadrinhos das duas maiores editoras de super-heróis, a Marvel Comics e a DC Comics eram os únicos a serem conhecidos pelo público no Brasil. E apesar de serem esses ainda os mais valorizados, há um número maior de trabalhos, com maior diversificação e maior público. Nesse sentido, é possível fazer uma análise sobre as mudanças existentes acerca das HQs no nosso país.

A evolução dos quadrinhos no Brasil

"O Tico-Tico": A primeira revista a publicar HQs brasileiras, em 1905. Foto: divulgação

O começo das histórias em quadrinhos nacionais foi no século XIX, em publicações jornalísticas, em formas de tiras. O mais famoso artistas dessa época foi Angelo Agostini, com seu humor gráfico e as caricaturas. Famoso por criar os personagens “Nhô Quim” (1869) e “Zé Caipora” (1883). Já a primeira grande revista que publicou HQs foi “O Tico-Tico”, lançada em 1905, que apresentava como personagem mais famoso o “Chiquinho” – uma cópia do norte-americano “Buster Brown”.

É interessante notar como a influência estrangeira sempre foi grande no Brasil. Além disso, as publicações de quadrinhos americanos, europeus e japoneses também foram bem presentes, como nos Suplementos Juvenis do jornal “A Nação”, que trazia o modelo norte-americano com seus heróis (Tarzan, Flash Gordon, etc).

Outro fato importante no desenvolvimento dos quadrinhos no Brasil foi o surgimento das editoras nacionais nas décadas de 40 e 50, como a Editora Brasil América LTDA – EBAL (RJ), a Rio Gráfica e Editora (RJ), a Editora O Cruzeiro (RJ) e a Editora Abril (SP). Assim, além das publicações do exterior (como os quadrinhos da Disney pela Editora Abril), foi possível a criação de personagens brasileiros. Destaque para o artista Ziraldo, que lançou a revista “Pererê” (pela editora O Cruzeiro) em 1960.

Contudo, o maior nome dos quadrinhos nacionais é Maurício de Sousa, famoso pela criação da Turma da Mônica, nos anos 60 e 70, e que até hoje possui um reconhecimento inigualável dentro e fora do Brasil. Outros nomes famosos e que fizeram suas obras a partir de quadrinhos de contestação em tirinhas de grandes jornais foram os cartunistas Henfil, Laerte, Angeli e Glauco.

O sucesso de brasileiros no exterior e os quadrinhos no século XXI

Porém, as revistas em quadrinhos mais presentes nos anos 80 e 90 foram mesmo as de origem norte-americana, com a exceção da Turma da Mônica. Os super-heróis da Marvel e da DC Comics sempre possuíram um grande número de fãs e seus títulos se mantiveram vivos ao longo do tempo.

O Pererê, de Ziraldo, é o símbolo da criação de personagens brasileiros a partir de 1960. Foto: Wikicommons

Segundo Leonardo Freitas, Mestre em Comunicação Social pela PUC/RS e criador do blog “SubmundoHQ”, existem algumas dificuldades para artistas brasileiros ganharem reconhecimento no país, o que os levam a trabalhar no exterior. Ele comenta que “apesar do mercado brasileiro estar em expansão (na área de quadrinhos) com a publicação de centenas de títulos mensais e álbuns de luxo nas livrarias, a produção de material feita aqui no Brasil ainda encontra inúmeras dificuldades: O alto custo das gráficas e do processo editorial torna muito difícil pra um artista independente produzir e publicar uma HQ”.

Para Freitas, isso justifica a evasão dos artistas para o exterior. “Muitos buscam patrocínio e reconhecimento no exterior, trabalhando para as grandes editoras dos EUA (Marvel e DC). Os custos gráficos e editoriais elevados seriam a principal barreira pra produção nacional, mas o preconceito com que o quadrinho brasileiro é visto por muitos leitores também é um fator prejudicial (uma grande parcela de leitores só valoriza mesmo o que vem de fora).”

Assim, alguns desenhistas brasileiros são reconhecidos mundialmente por trabalhar no exterior, como Ed Benes (José Edilbenes Bezerra), que trabalhou em títulos como “Super-Homem” e “Liga da Justiça”; Ivan Reis, que trabalha em “Lanterna Verde” e já ganhou o prêmio de melhor desenhista pela Revista Wizard; Rafael Albuquerque, famoso pelos traços de “Vampiro Americano” e Mike Deodato Jr. (Deodato Borges Filho), que já desenhou pela DC, Image e Marvel Comics.

O que se torna mais complicado, entretanto, é a criação própria de obras independentes. Com as barreiras impostas pelo mercado nacional, muitos artistas preferem lançar suas HQs primeiramente no exterior, onde encontram maior valorização. É o caso, por exemplo, do quadrinhista Murilo Martins, que lançou “I´m a German Shepherd”, em 2012, de forma independente direto em inglês e conseguiu vender 200 unidades em feiras nos EUA e no Canadá. O autor diz que infelizmente é mais fácil viver de quadrinhos independentes “lá fora”.

Artistas brasileiros tendem a ir para o exterior em busca de patrocínio nas grandes editoras, como a DC Comics. Foto: Blog Quadro a Quadro

Outro caso importante é o dos gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá, que se tornaram nomes de relevância após o lançamento de “daytripper”, em 2010, no exterior. A obra chegou a ganhar diversos prêmios, como o Eisner Award (considerado o Oscar dos quadrinhos) e o Eagle e ficou duas semanas na lista de coletâneas em quadrinhos mais vendidas do The New York Times.  A história trata de temas universais, como os conflitos entre o protagonista, Brás Domingos, e seu pai, sua mulher, seu melhor amigo, além de questões acerca da nossa própria vida e existência, sucesso profissional e temas cotidianos. É curioso notar que somente após esse sucesso todo no exterior é que “daytripper” foi lançado nas livrarias brasileiras e em português.

Com isso, torna-se claro que os artistas brasileiros ainda encontram diversas dificuldades para serem reconhecidos, e que o mercado de quadrinhos ainda está longe de adquirir toda a valorização que possui em potencial. Mesmo assim, o cenário futuro pode ser um pouco otimista. Que os quadrinhos já são considerados verdadeiras obras de arte, não há dúvida. O que falta mesmo é o Brasil mergulhar de vez nesse gênero e crescer sua produção, além de valorizar os artistas nacionais com o devido mérito.

Para Waldomiro Vergueiro, professor de Editoração em HQs pela ECA-USP, fundador e coordenador do Observatório de Histórias em Quadrinhos, já há um maior reconhecimento e amadurecimento dos quadrinhos no âmbito acadêmico: “Há um evidente crescimento do interesse acadêmico pelos quadrinhos, seja como objeto de pesquisa em cursos de pós-graduação, seja como trabalhos apresentados em eventos das mais variadas áreas científicas. Houve, também, um evidente amadurecimento dos quadrinhos nos últimos anos. O Brasil, nesse sentido, segue a tendência mundial. Acredito que o futuro dos quadrinhos é a diversificação de mercados, de gêneros e de público”.

A HQ brasileira "Daytripper" se tornou referência após ganhar o Eisner Award no exterior. Foto: UOL

Leonardo Freitas também acredita em um futuro mais positivo: “Sobre o futuro do mercado editorial brasileiro é difícil (e até improvável) imaginar um cenário onde a Marvel e DC não estejam no centro das atenções entre os leitores (o sucesso cada vez maior dos filmes das 2 editoras é uma amostra de que elas ainda serão por muito tempo o “foco” do mercado de quadrinhos também – já que é comprovado que o sucesso dos filmes se reflete diretamente no de quadrinhos: aumentando as vendas de revistas com os personagens que estiverem em evidência nas telas). Prioridade, a Marvel e DC eu acho que sempre terão no nosso mercado nacional, mas mesmo assim, podemos ser mais otimistas no sentido de que um aquecimento geral do mercado brasileiro também poderá trazer bons frutos pro artista independente que oferecer algo de novo e que possa competir (em qualidade e interesse) com HQs estrangeiras. Podemos usar como exemplo o sucesso (inesperado) dos quadrinhos ingleses do “Juíz Dredd” no Brasil: são HQs que fogem completamente do estilo e padrão da Marvel/DC e que conquistaram o leitor brasileiro. Isso prova que mesmo um nicho diferente de quadrinhos pode se destacar num mercado já tão competitivo e surpreender a todos: Quem sabe o quadrinho brasileiro também não se redescobre no nosso mercado futuramente? Tudo é possível num mercado em expansão”.

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

6 thoughts on “Histórias em Quadrinhos nacionais”

  1. oi sou diogo eu presiso publicar milhas historia em quadrilhos gradis voces podia publicar pra min eu solhei com isso a vida toda o nome e os titanias historas em quadrilhos eu cha escrever agora e so publicar

  2. CONCORDO DE QUE O QUADRINHOS BRASILEIRO PRECISA CONTINUAR A ABRIR NOVOS ESPAÇOS NO MERCADO, E NÃO PARAR DE FORMA ALGUMA PARA NÃO DESANIMAR OS QUADRINISTAS BRASILEIROS!
    ALÉM DISSO É CADA DIA, CADA MÊS, CADA ANO, E CADA MOMENTO URGENTE QUE ALGUÉM LIGADO A ARTE; TALVEZ O “MINISTRO DA CULTURA”, OU ALGUMA EDITORA OU EDITORAS DE NOME JUNTO COM OUTRAS EMPRESAS, ESTEJAM INTERESSADAS EM FINANCIAR OU DAR ALGUM TIPO DE APOIO AOS QUADRINISTAS BRASILEIROS, ATÉ QUE SURJA AQUELES QUADRINHOS QUE O LEITOR TANTO ESPERA COMO A ” TURMA DA MÔNICA”; SEJA LINHA DE FICÇÃO, INFANTIL OU SUPERHERÓIS.
    O IMPORTANTE É NOS BRASILEIROS NÃO FICARMOS PRESOS DURANTE TANTOS ANOS EM UM ÚNICO TÍTULO ( TURMA DA MÔNICA ) , E DEIXAR ORESTO DO MUNDO PENSAR QUE NÃO SABEMOS CRIAR MAIS QUADRINHOS DE QUALIDADE!

  3. CONCORDO DE QUE O QUADRINHOS BRASILEIRO PRECISA CONTINUAR A ABRIR NOVOS ESPAÇOS NO MERCADO, E NÃO PARAR DE FORMA ALGUMA PARA NÃO DESANIMAR OS QUADRINISTAS BRASILEIROS!
    ALÉM DISSO É CADA DIA, CADA MÊS, CADA ANO, E CADA MOMENTO URGENTE QUE ALGUÉM LIGADO A ARTE; TALVEZ O “MINISTRO DA CULTURA”, OU ALGUMA EDITORA OU EDITORAS DE NOME JUNTO COM OUTRAS EMPRESAS, ESTEJAM INTERESSADAS EM FINANCIAR OU DAR ALGUM TIPO DE APOIO AOS QUADRINISTAS BRASILEIROS, ATÉ QUE SURJA AQUELES QUADRINHOS QUE O LEITOR TANTO ESPERA COMO A ” TURMA DA MÔNICA”; SEJA LINHA DE FICÇÃO, INFANTIL OU SUPER HERÓIS.
    O IMPORTANTE É NOS BRASILEIROS NÃO FICARMOS PRESOS DURANTE TANTOS ANOS EM UM ÚNICO TÍTULO ( TURMA DA MÔNICA ) , E DEIXAR O RESTO DO MUNDO PENSAR QUE NÃO SABEMOS CRIAR MAIS QUADRINHOS DE QUALIDADE!

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