Saúde

Estudos sobre paraplegia exigem conjunto de intervenções

A complexidade da paraplegia é o principal motivo da dificuldade de aplicação prática dos tratamentos

Por Carolina Shimoda (carol.shimodab@gmail.com)

As pesquisas de tratamento da paraplegia estão em constante andamento. A elas são somados esforços dos mais variados campos da ciência. Em agosto de 2013, o professor César Prado, da Faculdade de Medicina Veterinária (FMV) da USP, iniciou um tratamento de três meses para cães paraplégicos baseado na aplicação de células-tronco, seguida de eletroacupuntura.

Esse tipo de pesquisa, segundo ele mesmo enfatiza, tem pontos em comum com o tratamento para humanos, mostrando um possível caminho para avanços nessa área. “Pode-se, sim, fazer um paralelo com a paraplegia em humanos, pois ambos são acometidos pela mesma doença, a hérnia de disco”.

A pesquisa feita em cães paraplégicos tem pontos em comum com o tratamento para humanos. Foto: Mundo Animal

Mesmo assim, o professor ressalta o cuidado que se deve ter ao analisar os resultados nos cães para criar as expectativas de aplicação em humanos. “Há algumas diferenças em como o processo ocorre nos cães e nos humanos. Além disso, uma diferença importante é que os cães são quadrúpedes, e a forma como a gravidade atua é diferente em nós, bípedes”.

A professora Michele Schultz, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, também conta sobre a necessidade de cautela ao se tentar transpor resultados alcançados em animais de laboratórios para a prática clínica. “Apesar de haver muitas similaridades entre os sistemas biológicos, muitos tratamentos testados em roedores foram parcialmente ou não eficazes em primatas não humanos e humanos”, exemplifica ela.

No geral, as paraplegias reversíveis podem ser curadas completa ou parcialmente, com a recuperação de funções. A dificuldade de se estabelecer tratamentos mais efetivos até hoje vem da complexidade do funcionamento do sistema nervoso central, já que a maioria dos casos de paraplegia vêm em decorrência de lesões na medula espinhal. Como enfatiza Schultz, esse sistema é formado por células que funcionam de forma integrada e intrincada, tornando a execução das funções mais complexa. Além disso, em uma situação de lesão, há várias respostas celulares, fazendo com que o avanço de propostas terapêuticas não seja mais ágil.

A dificuldade para tratamentos mais efetivos na paraplegia vem da complexidade do sistema nervoso. Foto: Techinsider

“Particularmente, acredito que haverá necessidade de um conjunto de intervenções para que se consiga chegar a algum grau de recuperação funcional”, analisa Schultz. Segundo ela, os avanços tecnológicos permitem que se entenda o funcionamento do sistema nervoso e, consequentemente, faz com que se pense em tratamentos mais eficazes, desde intervenções não farmacológicas até transplantes celulares. Paralelamente, a tecnologia também viabiliza os tratamentos assistivos, que usam próteses robóticas, por exemplo. Entretanto, tais aparatos não tratam a causa da paralisia, apenas recuperam as funções motoras da pessoa. Já que não recuperam o dano ao sistema nervoso, déficits como falta de sensibilidade, por exemplo, não seriam abrangidos pelos dispositivos.

A reversibilidade das plegias depende de muitos fatores, tais como as condições do indivíduo no momento da lesão, o tempo de início do tratamento e o tipo de tratamento, além do fator causal. Para a determinação do prognóstico se serão reversíveis ou não, é necessária uma análise muito complexa.

Nos casos de paralisia reversível, o tratamento é da doença que a provocou. Ele deve ser feito o quanto antes, porque, muitas vezes, uma paraplegia reversível pode acabar transformando-se em outra, irreversível. Alguns casos provocados por tumores, hérnias de disco, deslocamentos ou fraturas vertebrais, por exemplo, podem exigir que a pessoa faça uma cirurgia.

O que é paraplegia?

A paraplegia ocorre quando as vias motoras e sensitivas da medula espinhal são interrompidas. As causas mais comuns dessas interrupções são acidentes automobilísticos e mergulhos em águas não muito profundas, mas existe também uma forma de paraplegia espástica infantil. Essa doença congênita surge devido a lesões do córtex cerebral que acontecem durante o parto, hemorragias cerebrais ou por causa de alterações no desenvolvimento cerebral.

A paraplegia ocorre quando as vias motoras e sensitivas da medula espinhal são interrompidas. Foto: D&P Injury Lawyers

Classifica-se a paralisia em completa ou incompleta. No primeiro caso, a pessoa perde todo movimento dos membros inferiores e não há função ou sensação muscular. Os membros deixam de receber e enviar qualquer tipo de estímulo nervoso e é comum que seja perdido também o controle das funções fisiológicas nas áreas afetadas. Já no segundo tipo, a pessoa ainda mantém alguns movimentos dos membros inferiores, mas perde a força necessária para que ela ande.

A área corporal afetada varia de acordo com a lesão. Quanto mais elevada for a contusão na coluna (na região dorsal ou lombar), maior a área corporal afetada.

Diferenças entre paraplegia, tetraplegia e quadriplegia

As situações que levam à lesão da medula espinhal, tais como acidentes automobilísticos, podem causar tanto a paraplegia quanto a tetraplegia. A diferença básica entre as duas paralisias é que a paraplegia afeta apenas os membros inferiores, enquanto a tetraplegia atinge tanto os membros superiores quanto os inferiores. O que justifica essa diferença é a altura da vértebra lesionada. A tetraplegia é causada pelo dano na região superior da medula, normalmente entre a primeira e a sétima vértebras cervicais (região do pescoço), enquanto a paraplegia é ocasionada por lesões na região do tronco.

Infográfico: Jornalismo Júnior

Assim como a tetraplegia, a quadriplegia também afeta os quatro membros. O que diferencia ambas é o fator que causa as paralisias, bem como a intensidade delas. Enquanto a tetraplegia é resultado de uma lesão medular, a quadriplegia é produto de uma lesão no encéfalo, sendo sintoma de distúrbios neurológicos sérios, envolvendo danos cerebrais ou na medula. Pode ocorrer em hemorragias cerebrais, no caso de traumas, e em desordens da coagulação, mutações vasculares inatas, quando o sangramento atinge o tronco encefálico e rompe-se um vaso cerebral. Também pode ser ocasionada por intervenções cirúrgicas mal sucedidas.

A outra diferença é que a intensidade da paralisia na quadriplegia é maior, reduzindo-se drasticamente a mobilidade da pessoa ou paralisando-a completamente, o que pode tornar até mesmo o ato de respirar muito mais difícil.

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