Marcha das Vadias
Sociedade

O debate sobre as “cantadas” – e por que ele não pode parar

Depois de o tabu ter “saído do armário”, ele não pode, de maneira alguma, voltar para lá

Por Giovana Feix (gih.feix@gmail.com) e Nina Turin (ninaturin48@gmail.com)

A confusão começa na palavra: “cantada”. É ela a escolhida, na maioria das vezes, para se referir ao que acontece com grande parte das mulheres nas ruas do Brasil. O lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira a define primeiramente como “canto (esp. dos pássaros)”. No entanto, para um início de reflexão no contexto das ruas, o melhor é ater-se à segunda noção presente em seu dicionário: a de uma “conversa cheia de lábia com que se tenta convencer, ou seduzir, alguém”.

Essa “conversa” pode ser agradável. Cantadas funcionam bem em contextos e ambientes apropriados, e costumam não ferir ninguém quando não passam, de verdade, da tentativa de se seduzir alguém. Mas a confusão aparece quando se percebe o uso da palavra que o dicionário Aurélio não consegue abranger: aquele que faz de “cantada” um sinônimo de “desrespeito”. Utilizadas em um tom de voz vulgar e grosseiro, são palavras que se tornam uma agressão verbal.

Marcha das Vadias
As cantadas de rua, inicialmente com propósito de seduzir, podem se tornar ofensivas e grosseiras. Foto: Divulgação Marcha das Vadias/RS

É justamente esta última definição de “cantada” que vem causando polêmica há algum tempo na mídia mundial: o “fiu-fiu” que as mulheres têm de ouvir todo dia ao botar o pé para fora de casa, seja para ir a uma festa ou à padaria da esquina.

Femme de la Rue

Sofie Peeters
A belga Sofie Peeters, criadora do documentário "Femme de La Rue"

O começo da repercussão dessa pauta se deu na Europa, com o uso do termo francês “harcèlement de rue” – “assédio de rua” em português, mais pesado e mais preciso do que a mera “cantada”. Tudo começou quando Sofie Peeters, uma estudante de cinema, resolveu registrar com uma câmera escondida os percursos que fazia a pé na cidade de Bruxelas. As reações masculinas diante da jovem transeunte vão de gritos como “cachorra” e convites a um quarto de hotel a insultos sobre seu corpo.

O documentário resultante dessas filmagens, intitulado Femme de la Rue – “Mulher da Rua” – foi a tese de mestrado da belga, mas a discussão gerada por ele quebrou as barreiras do meio acadêmico e foi parar em manchetes dos principais jornais ao redor do mundo. A quebra desse tabu e a ascensão do debate sobre a segurança e a liberdade de circulação da mulher como algo de extrema relevância para a sociedade foi a principal consequência apresentada pelo filme.

Stop Telling Women to Smile

Assim como a reação artística de Sofie Peeters diante do assédio, outras campanhas interessantes têm surgido ao redor do mundo. Um ótimo exemplo é a Stop Telling Women to Smile – “Pare de dizer para as mulheres sorrirem”, criada pela artista norte-americana Tatyana Fazlalideh no mesmo ano em que Femme de la Rue foi produzido – 2012. O trabalho feito pela artista consiste em desenhar retratos de mulheres que contaram para ela histórias pelas quais passaram, em que sofreram o que é, em inglês, denominado “street harassment” – isto é, assédio de rua.

O texto de cada cartaz é baseado na história da mulher desenhada. As obras são colocadas em espaços públicos, com o intuito de atingir diretamente os homens que têm essa agressão como costume.

O projeto teve início em Nova York, onde a artista mora atualmente. Entretanto, o objetivo é que ele seja expandido para outras cidades tanto dos Estados Unidos como de outros países, como Alemanha e Holanda. A intenção da artista é criar retratos particulares de cada região que for visitada, considerando diferenças culturais que variam de lugar para lugar. Tatyana pretende financiar essa expansão da campanha através de doações.

Stop telling women to smile
O texto de cada cartaz da campanha é baseado em relatos de mulheres reais. Foto: divulgação

Em seu site oficial, a artista ainda explica: “muitas pessoas, homens e mulheres, não vão entender a campanha. Esse projeto não está pedindo para que não haja nenhuma interação entre homens e mulheres em espaços públicos – está pedindo para que essa interação seja respeitosa e segura”.

Organizando a confusão

A explicação sobre o intuito do Stop Telling Women to Smile, que Tatyana faz questão de deixar por escrito no site do projeto, não é à toa. Juliana de Faria, dona do blog feminista Olga e co-autora da campanha Chega de Fiu-Fiu, já recebeu críticas ferozes de homens e mulheres que interpretaram erroneamente suas intenções.

É algo que aconteceu também com Sofie Peeters, mesmo que indiretamente: ao procurar por Femme de la Rue no YouTube brasileiro, o segundo vídeo a aparecer classifica o filme belga como “o ridículo documentário da ditadura feminista”, e argumenta ser absurda a luta pelo respeito às mulheres que circulam pela cidade. Segundo o autor dessa crítica, a cantada de rua é algo natural e inevitável, e, sem ela, não se formariam mais nem casais, nem famílias.

Quem sabe essa confusão se origine daquela primeira, daquela confusão de conceitos. É com isso em mente que surge a questão: qual é a diferença entre a cantada e o assédio?

Por conta da repercussão que sua pesquisa virtual teve na mídia brasileira, Juliana de Faria já teve de responder a essa pergunta muitas vezes. Repórteres e mais repórteres já lhe apresentaram essa dúvida, que, para ela, não parece ter maneira exata de ser respondida. “Deveria ser mais simples, parece ridículo ter que explicar isso. A mulher pode estar andando na rua com pressa, carregando uma pasta de trabalho: por que o homem vai fazer isso?”, questiona. Mas continua: “acho que a diferença entre uma coisa e outra, ou o que eu acho que é aceitável e o que não é, é o respeito. É você entender que você pode entrar no espaço de alguém ou não.”

O que acontece é que, por esse assunto ter se mantido escondido por tanto tempo, muitos homens têm completa ignorância da situação. Juliana conta que, das respostas que recebeu diante da pesquisa, muitas foram de homens surpresos: “recebi e-mails de homens que me disseram que não sabiam que era tão grave, e que ficaram chocados com os depoimentos das mulheres”.

A verdade é que, por parte dos homens, é possível observar muitas diferentes reações. Conversando com transeuntes na Av. Paulista, em São Paulo, e observando reações nas redes sociais e diante de campanhas como a Chega de Fiu-Fiu, percebe-se que não se pode generalizar o comportamento masculino.

Cartazes Stop Telling Women to Smile
Pesquisas indicam que grande parte dos homens sequer tem noção de que o comportamento é ofensivo. Foto: divulgação

Muitos concordam com essas campanhas feitas pelas mulheres, afirmando que a situação em foco deve ser, de fato, constrangedora. O transeunte Antônio* respondeu a algumas perguntas sobre o assunto, na Av. Paulista, e afirmou ser totalmente a favor da discussão que as mulheres estão recentemente trazendo à tona. “Primeiro que não deve ser muito elegante para a mulher… Acho que, se esse tipo de coisa acontecesse comigo com a frequência que acontece com vocês, eu ficaria muito incomodado”.

Alguns homens, contudo, não conseguem entender a real dimensão desse problema, nem o porquê de as cantadas poderem desagradar às mulheres. É o caso do repórter d’O Globo André Miranda, que escreveu o artigo Você é muito bonita: “Acontece, meninas, que as pessoas têm dificuldade em se comunicar em nosso país, e muitos homens têm mais dificuldade ainda em se portar frente a uma moça desconhecida. Às vezes, um ‘gostosa’ é simplesmente um elogio bruto, é aquilo que muitos de nós pensamos, mas que poucos falam”.

Anti Street Harassment UK
"Flertar. Assédio. Homens de verdade entendem a diferença" - campanha do ASH UK. Foto: divulgação

No artigo, Miranda ainda pede: “Meninas, por favor, deixem as cantadas masculinas em paz”. Junto com ele, estão homens que, assim como aqueles que não veem o limite entre a cantada e o assédio, não veem o limite entre opinião divergente e agressão. Esses homens não só não entendem o ponto de vista das mulheres que se sentem agredidas diante das “cantadas”, mas também fazem (mais uma vez) comentários violentos direcionados a elas, por acreditarem que a cantada é um direito de expressão que lhes está sendo retirado. É o caso daquela crítica no YouTube, que trata o incômodo constante expressado por Sofie Peeters em seu filme como mera expressão da suposta “ditadura feminista”.

Considerado digno ou não, o Femme de la Rue teve outras consequências, além de pôr o debate em voga. Seu efeito mais pontual e imediato foi a criação de uma lei, pela prefeitura de Bruxelas, prevendo multas para o assédio na rua. Essas multas poderão variar entre 75 e 250 euros, e serão aplicadas ou depois de investigação policial, ou em casos de flagrante. A medida, que foi tomada de maneira semelhante na França, não é defendida pela campanha brasileira Chega de Fiu-Fiu. “O que a gente está pedindo é uma reflexão para tentar mudar de dentro para fora, não de fora para dentro. Muitas pessoas criticaram isso. E a minha resposta é: como a gente teria fiscalização de cantada?”, conta Juliana. A psicanalista Paula Salomão tem ainda menos esperança na efetividade da legislação contra o assédio: “Somos a cultura do esperto e do jeitinho… Temos sempre uma forma de criar próprias regras em cima da regra”, argumenta. “Mas acredito que a educação pode, sim, modificar esses comportamentos mais selvagens. O próprio Freud coloca que, quanto mais intelecto, menos selvagem”.

Chega de Fiu Fiu
A campanha "Chega de fiu fiu" pede que a mudança contra as cantadas ocorra dentro da sociedade, na maneira de pensar. Imagem: divulgação

Vicky Simister, fundadora do Anti-Street Harassment UK (uma organização britânica contra o assédio de rua), chama atenção para o fato de que as mulheres não devem ficar caladas. “As mulheres são aconselhadas a ignorar, e não costumamos falar a respeito. Em consequência, esses homens continuam a fazer isso e a cada vez mais passar dos limites”, diz ela em entrevista à BBC News.

E é isso que argumentam também todas as campanhas, todos os projetos e todos os que defendem a luta pelo respeito à mulher: o debate sobre o assédio não pode parar.

O assunto, como qualquer um que tenha recém saído do campo do tabu, é polêmico, e pode render, além de longas e acaloradas discussões, novas polêmicas. Opiniões divergentes, masculinas ou femininas, devem ser ouvidas para que se consiga assimilar a situação da melhor maneira possível.

O diálogo, como portal mais fácil e direto para a conscientização e educação, deve ser tido como a melhor arma em um momento como esse, em que a pauta já foi trazida à tona. É somente através dele que se consegue estabelecer a linha tênue que separa o assédio da cantada. E é a partir desse estabelecimento que chega outra linha – nada tênue – na discussão: a que separa a mulher-objeto da mulher-sujeito. A linha que separa a mulher que estabelece suas próprias linhas e limites daquela que permanece calada e inativa diante do que a machuca.

*O nome foi omitido para preservar a identidade do entrevistado.

J.Press
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