É proibido fumar

Entenda o desenvolvimento do cigarro na sociedade e as mudanças de mentalidade das pessoas ao longo do tempo sobre o produto

Por Luís Viviani (luis.viviani89@gmail.com)

Placa de "É probido fumar neste local"

Placa de "É probido fumar neste local"

“O Ministério da Saúde adverte: fumar é prejudicial à saúde”. Se essa frase soa familiar aos seus ouvidos, é porque o Governo conseguiu o seu objetivo de alertar a população acerca dos males do cigarro. Presente em toda a esfera da sociedade, o discurso sobre os prejuízos advindos do consumo desse produto engendrou o senso comum de maneira que um fumante, atualmente, é mal visto aos olhos dos outros. Porém, nem sempre esse foi o contexto predominante com relação ao ato de fumar.

Se atualmente as pessoas associam o cigarro aos danos de saúde consequentes de seu uso, outrora fumar era símbolo de glamour e status para a opinião geral. O que aconteceu nas últimas décadas foi uma mudança radical na mentalidade das pessoas sobre esse assunto. Desse modo, é crescente o número de leis antifumo que existem no nosso país e também no resto do mundo.

Breve história do cigarro

O cigarro é definido basicamente como o produto agrícola não alimentício tabaco (planta cujo nome científico é Nicotiana tabacum) envolvido por papel fino e destinado ao fumo, podendo ser industrializado ou manufaturado. Essa planta contém a nicotina, que é um estimulante do sistema nervoso central e a principal causa para a existência do vício nos fumantes. Sua origem remonta à região dos Andes, onde essa planta fazia parte de determinados rituais indígenas. Seu uso era feito através de cachimbos de bambu.

Brasão de Armas Nacionais, com ramo de café e um de tabaco e a constelação do Cruzeiro do Sul.

Brasão de Armas Nacionais, com ramo de café e de tabaco. Imagem: Reprodução/Blog do Ricardo Novaes

Com a chegada dos europeus na América, o tabaco foi levado à Europa no século XVI, onde se tornou popular entre os habitantes do “velho mundo”. Jean Nicot (nome do qual a nicotina é derivada), diplomata francês, foi um dos primeiros europeus a trazer a planta e, inclusive, utilizá-la com finalidades terapêuticas.

A partir desse momento, o uso do tabaco cresceu vertiginosamente ao longo do tempo, elevado a produto de mercado e ganhando força até mesmo no Brasil, onde as lavouras deram grande impulso na economia no período Imperial, com a presença de um ramo de fumo florido inclusive no Brasão de Armas da República.

Por meio do aumento da industrialização, no século XIX, o cigarro de papel tomou forma e ultrapassou em quantidade os modos de consumo já existentes de charutos e rapé (tabaco em pó). O hábito se tornou cada vez mais frequente e as pessoas já fumavam por simples prazer.

Porém, foi no século XX que o consumo do cigarro se expandiu de forma perceptível. Com o desenvolvimento da propaganda e do marketing, foram abertas diversas empresas de tabacaria e criadas inúmeras marcas de cigarro.

O cinema de Hollywood e sua influência

James Dean com cigarro

James Dean com cigarro. Foto: Wikimedia Commons

Um dos motivos do alto índice de consumidores de cigarros no século XX foi exatamente o comportamento adquirido pelos indivíduos após sucessivas campanhas que mostravam o produto como sinônimo de status e poder.

Para isso, o cinema clássico norte americano foi de fundamental importância, pois ele se destacava como forte divulgador de valores que moldavam os hábitos das pessoas.

Assim, ao ver os seus ídolos – pessoas famosas e respeitadas, que viraram ícones da cultura pop norte-americana – do cinema como Humphrey Bogart (Casablanca, 1942), Rita Hayworth (no próprio cartaz do filme Gilda, de 1946, ela aparece segurando um cigarro), Marlon Brando (O selvagem, 1953) e James Dean (Juventude transviada, 1955) passando essa ideia do bon vivant ou de rebeldes ansiosos por liberdade, como no caso dos dois últimos, as pessoas absorviam essa ideia de que fumar era um hábito agradável e ao mesmo tempo trazia consigo uma imagem de elegância e charme, tanto para homens quanto para mulheres.

Como exemplo dessa influência, é interessante ler a tese do historiador Miguel Angel Schmitt Rodriguez, sobre o “Cinema clássico americano e produção de subjetividades: o cigarro em cena”.

Papai Noel fumante em propaganda da Lucky Strike, em 1935

Papai Noel fumante em propaganda da Lucky Strike, em 1935. Foto: divulgação.

Segundo Aloyzio Achutti, médico, professor aposentado da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e membro do comitê de saúde da OMS (Organização Mundial de Saúde) nas décadas de 1980 e 90, nessa época “havia menos consciência dos malefícios do cigarro para a saúde”. Além disso, ele explica o fato do poder que as mídias detinham para o maior consumo e a consequente mentalidade das pessoas: “Essa ‘consciência’ faz parte de um processo que começa com informação, à qual se segue uma atitude (primeira reação que pode ser positiva, indiferente ou negativa), que depois pode levar a uma mudança de comportamento (adotando ou rejeitando, inicialmente com grande esforço), e por fim a uma incorporação cultural onde o comportamento passa a ser estereotipado e sem esforço porque é só seguir o que os outros fazem. O cinema, bem como toda a mídia propagandística, teve muita influência em todas estas etapas na medida em que criaram um mundo virtual muito sedutor”.

Portanto, o contexto da metade do século passado trazia essa marca indelével de que o cigarro fazia parte da essência do charmoso, do glamour e do sensual. Além disso, outros meios também provocavam esse pensamento, como as próprias novelas brasileiras. Não era raro ver o ator Tarcísio Meira fumando um cigarro nas suas atuações. As propagandas também detinham forte presença nessa época, na qual até mesmo o Papai Noel (com a marca Lucky Strike) e o ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan (Chesterfield) foram utilizados como símbolos de publicidade. Não há duvidas de que o cigarro e sua força eram intrínsecos à cultura desses anos.

Mudanças e estudos médicos

Se os anos 40, 50 e 60 foram considerados como o auge do cigarro e de sua importância simbólica, as recentes décadas foram caracterizadas como a transformação desse produto de algo bom, charmoso e agradável em um hábito repugnante, com os fumantes sendo tachados, muitas vezes, de indivíduos estressados, perdidos ou ignorantes. A visão sobre os fumantes, atualmente, possui um aspecto negativo elevado, e para se entender esse fato é necessário compreender o aumento de estudos relacionados à ciência médica.

As pesquisas que procuravam demonstrar as associações entre o tabagismo e as doenças clínicas, como o enfisema e os diferentes tipos de câncer, já existiam desde os anos 50 e 60. Porém, a transformação do comportamento e a maior preocupação dos governos e das pessoas se deram através de um longo período. Apenas nos anos 80 é que o assunto mergulha de forma relevante na sociedade ocidental e o conceito de substância prejudicial à saúde ganha novos contornos.

Achutti comenta que “no início, as fontes de educação para a saúde não se preocupavam com o tema ou eram muito inexpressivas, sem efeito determinante no comportamento da população; [A Mudança] levou provavelmente mais de cinquenta anos. Há dois pontos que são habitualmente referidos como importantes na virada, mas que provavelmente aconteceram porque socialmente já havia clima para tanto. Um deles é o trabalho de um pesquisador Inglês que fez uma pesquisa sobre a incidência de câncer nos médicos ingleses e o uso do cigarro (Dr. Doyle na década de 50); o outro é a publicação do Surgeon General (Ministro da Saúde) dos EUA Dr. Luther Terry em 1964, publicação que tem se repetido anualmente desde então examinando os mais variados aspectos dos efeitos do tabagismo”.

Com o aumento desses estudos e da preocupação dos governantes, diversos países foram criando leis que buscavam diminuir essa imagem do cigarro associado ao simples prazer, procurando mostrar à população os efeitos negativos do consumo. Achutti conta que “A OMS teve um papel extremamente importante ao promover o primeiro convênio econômico-industrial internacional para discutir e criar uma convenção sobre controle do tabagismo desde a produção do tabaco até sua industrialização e comercialização e educação popular.” Além disso, as propagandas, principal meio de inserir o cigarro na sociedade, foram aos poucos proibidas. O novo contexto era, então, o de uma batalha contra o tabaco, fato que mostra as mudanças de atitude e de pensamento das pessoas ao longo do século XX.

Anúncio em embalagem da cigarro informando seus malefícios.

Anúncio em embalagem da cigarro informando seus malefícios. Foto: divulgação

Em 1986, o Ministério da Saúde criou o Dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto), e em 1987, a OMS criou o Dia Mundial Sem Tabaco (31 de maio). O desenvolvimento das restrições ao cigarro teve, como exemplos, em 1988 a obrigatoriedade da frase “O Ministério da Saúde adverte: fumar é prejudicial à saúde” nas embalagens dos produtos derivados do tabaco; em 2000 foi proibida a propaganda de produtos derivados de tabaco em revistas, jornais, outdoors, televisão e rádio; em 2003 passou a ser obrigatório o uso das frases “Venda proibida a menores de 18 anos” e “Este produto contém mais de 4.700 substâncias tóxicas, e nicotina, que causa dependência física ou psíquica. Não existem níveis seguros para consumo destas substâncias” e em 2011 houve a Lei Federal que proíbe fumar em locais fechados.

No Estado de São Paulo, a Lei Antifumo que também proíbe o uso de cigarros em lugares fechados entrou em vigor em 2009. Porém, seu maior objetivo foi o de proteger a saúde dos fumantes passivos, como se pode ver no portal da Lei. Com isso, fica evidente que a visão sobre o fumante é cada vez mais negativa, porque, além de prejudicá-lo a si mesmo, também causa danos àqueles que estão ao seu lado. O interessante é perceber toda essa mudança de pensamento e de consciência decorrente dos seguidos estudos contra o produto e da transformação da propaganda sobre ele. O que antigamente era um ato “saudável” e prazeroso, recheado de charme e elegância, tornou-se um hábito feio, prejudicial e lamentável.

Sobre o futuro do tabaco, Achutti completa que a mudança “faz parte de um lento e progressivo desenvolvimento cultural da humanidade. Provavelmente o cigarro como produtor de fumaça pela queima de tabaco irá desaparecer. Tentam-se alternativas. Hoje, há o ‘e-cigarette’, que libera nicotina por meio eletroeletrônico, contudo a nicotina também é nociva por si só. Mas que não nos iludamos. Enquanto houver distorções sociais, tensões, desigualdades, explorações, violência, abuso de poder, guerras, e problemas psiquiátricos haverá espaço para alternativas pseudocompensatórias como a do tabagismo e outras drogas-adições. O mecanismo da recompensa faz parte de nossa natureza e nossa fisiologia, e é responsável por tudo de bom que a evolução tem nos propiciado, mas é sempre uma brecha para saídas infelizes.”

Comentários