Especial

Especial: Conflitos na Síria

A luta que já dura mais de dois anos foi se transformando em um conflito armado muito violento, até chegar ao agravante quadro de hoje

Por Carolina Shimoda (carol.shimodab@gmail.com) e William Luz (willnunes94@gmail.com)

A guerra civil que assola a Síria atualmente começou em março de 2011, influenciada pela Primavera Árabe, e com os protestos populares contra o regime de Bashar Al-Assad intensificados a partir de abril desse mesmo ano. A guerra, assim como enfatiza o Professor André Roberto Martin, doutor em Geografia pela USP, não é uma guerra civil clássica, já que “o ‘levante’ foi preparado com muita antecedência pelos ‘rebeldes’, com milicianos estrangeiros, de diversos países muçulmanos”.

Desde 1962, a Síria vive sob estado de emergência, sendo suspensas as garantias constitucionais que protegiam seu povo. Durante esses anos, as revoltas contra o governo têm sido duramente reprimidas, e a população tem estado descontente em relação ao regime. Mesmo eleito com 97% dos votos, Assad seguia a linha política alauíta, apoiando a minoria muçulmana. A sua forma de governo entrou em conflito com as necessidades sunitas, maioria da população síria. Para evitar um golpe, o presidente buscou apoio militar através de serviços secretos e controle da população.

Além disso, assim como boa parte dos países do Oriente Médio, a economia síria também vinha sofrendo retrações e os índices de desemprego eram altos (chegavam a 25% da população). Essa situação, somada a más condições de direitos humanos, foi causando o descontentamento entre a população que explodiu nas revoltas de 2011.
Ademais, segundo Martin, “quem tem muito interesse na derrubada de Assad são precisamente países dominados por monarquias fundamentalistas que estão apavoradas com a Primavera Árabe. Como muito provavelmente a onda democratizadora iria alcançar as petromonarquias, estas resolveram ‘virar o jogo’ e atacaram a Líbia, a partir do Egito, com o apoio da Irmandade Muçulmana e Exército egípcios. E depois voltaram-se contra a Síria”.

Manifestantes passeata contra Bashar Al-Assad em 9 de dezembro de 2011 -Foto: Agência Reuters)

Em resposta aos primeiros atos, o governo sírio reagiu de forma intensa, resultando em centenas de mortos, em sua maioria civis. Parte dos soldados sírios se recusaram a agir da forma como o governo havia determinado, desertando do Exército. O número de desertores foi aumentando ao longo do conflito, no que eles chamaram inicialmente de Exército Livre Sírio. Até hoje, o número é incerto, mas em abril de 2013, estima-se que os guerrilheiros livres eram em torno de 140 mil.

Intensificação do conflito

A partir da consolidação de uma oposição, o conflito armado foi se intensificando até a Cruz Vermelha classificá-lo como guerra civil (“conflito armado não-internacional”) em 15 de julho de 2012. Nessa época, os combates começaram a se espalhar pelo país, de forma bem mais violenta, principalmente na capital Damasco, palco de uma ofensiva rebelde que pretendia dominar a cidade.

Com esse aumento da violência, no dia 19 de julho de 2012, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) votou uma resolução contra o regime de Assad. Entretanto, Rússia e China vetaram a resolução, não chegando a um consenso internacional sobre a situação. Nesse dia, a Síria viveu cenas ainda mais preocupantes, com ocupações de fronteiras e mais mortes.

A primeira intervenção estrangeira direta no conflito aconteceu em 3 de outubro de 2012, quando a Turquia bombardeou o território sírio. Esse ataque foi uma resposta aos tiros de artilharia pesada que partiram da Síria e atingiram a cidade turca de Akçakale, matando cinco pessoas. A Turquia recorreu à OTAN, que condenou as mortes dos civis, pedindo também que o governo sírio parasse suas operações militares contra sua população e a população vizinha. O regime sírio apenas prestou condolências às vítimas e disse estar investigando o caso.

Em 25 de outubro, a pedido da ONU, o governo da Síria propôs colocar um fim nas operações militares entre os dias 26 e 29 daquele mês, por causa do festival muçulmano Eid al-Adha. Mesmo assim, grupos rebeldes não respeitaram a proposta e, durante as comemorações, combates foram travados no país. As Nações Unidas consideraram que ambos os lados não respeitaram o cessar-fogo.

Últimos acontecimentos

De novembro de 2012 até o início de 2013, as forças opositoras foram tomando força e avançando em vários pontos do país, mesmo com o aumento dos ataques por parte do governo. A liderança da oposição descartava qualquer proposta de paz que ainda mantivesse Assad no poder. No dia 3 de março de 2013, a Síria enfrentou um dos dias mais sangrentos dessa guerra. Mais de 200 pessoas (pelo menos 120 das forças do governo) foram mortas em combates no complexo de Khan al-Assal. O governo respondeu, tomando controle de vários pontos importantes da cidade, como estradas que se ligam ao aeroporto de Alepo. Ainda assim, no dia 6, a cidade de Raqqa foi inteiramente tomada pela oposição – sendo a primeira capital de província a cair oficialmente.

Quando a revolta armada completou dois anos (em 15 de março de 2013), a população foi às ruas dando apoio à oposição. Enquanto isso, ao redor do país, os combates aumentavam e se intensificavam. Nesse mesmo dia, o governo sírio divulgou em nota um possível ataque ao Líbano, devido ao grande número de refugiados que foram para lá. Três dias depois, a aviação síria bombardeou a fronteira libanesa, mas o governo não assumiu a autoria do ataque.

Em maio, militares sírios tomaram cidades estrategicamente importantes, reabrindo rotas de suprimentos para municípios, e iniciando uma grande ofensiva contra os rebeldes. A situação humanitária foi piorando, e a ONU chegou a descrevê-la como “deplorável”. Já em junho, o exército sírio assumia controle de boa parte da capital do país, comprometendo a ofensiva armada que vinha se estruturando desde 2011. Mesmo assim, desde o final de julho de, os rebeldes tem conseguido conquistar áreas importantes, apesar das vitórias do governo (que conseguiu reconquistar a região onde se encontra o principal porto sírio e que é a única de maioria alauíta).

Ataque de gás tóxico

No dia 21 de agosto, ataques de gás tóxico foram feitos perto da capital do país. Segundo ativistas, o governo teria sido o autor das ofensivas, já que as áreas estavam controladas por simpatizantes da oposição. Entretanto, as autoridades negaram o uso de armas químicas no conflito. O OSDH (Obsevatório Sírio de Direitos Humanos), sediado em Londres, informou que cerca de 635 civis haviam sido mortos, número que aumentou para mais de 1700 mais tarde. A oposição e governos ocidentais pediram para que o Conselho de Segurança da ONU investigasse o caso, e alguns países como EUA, França e Reino Unido, ainda ameaçaram usar sua força militar contra o regime de Assad. Contudo, Rússia, China e Irã (aliados da Síria) descartaram a possibilidade de atacar o país. Esse apoio russo ao regime de Assad, segundo o professor André Martin, é uma das consequências geopolíticas, “com a Rússia ressurgindo no cenário como principal ator diplomático”. Para ele, “o suposto ataque com armas químicas por parte de Assad não passou de um ardil, cujo objetivo era justificar uma retaliação ocidental que enfraqueceria enormemente o exército sírio”. Entretanto, o ardil não obteve sucesso, devido principalmente a firmeza da posição russa.

 

Vítima do gás tóxico no ataque em Damasco (Foto: BBC UK/Divulgação)

Com a pressão internacional, Assad cedeu e autorizou o acesso da ONU ao arsenal de armas químicas para novembro de 2013, mas afirmou que alguns lugares podiam estar bloqueados por rebeldes. A destruição das “armas químicas”, como acrescenta Martin, é um “prêmio de consolação” especialmente ao presidente Obama, que se mostrou flexível a uma negociação. Os ataques em Damasco não cessaram e áreas do subúrbio da cidade continuaram sendo bombardeadas, mesmo após a trégua dos países ocidentais. O líder sírio também não descartou a possibilidade de atacar militarmente os EUA, pois sempre haveria uma ameaça de intervenção do país na guerra civil.

Situação Humanitária

Desde o início dos conflitos, o governo tem sido criticado e denunciado por cometer crimes de guerra e contra a humanidade. Com o passar do tempo, as forças opositoras também foram sendo acusadas de tais hostilidades por organizações de direitos humanos. Só no começo de 2012, mais de 11 mil pessoas já haviam morrido na Síria e, segundo ativistas de direitos humanos, hoje o número de mortos passa de 100 mil. Enquanto isso, mais de 2 milhões de sírios já teriam se refugiado em outras nações (no Líbano, em sua maioria).

O grande fluxo de pessoas pelas fronteiras tem facilitado a transmissão de doenças. A Organização Mundial da Saúde (OMS) está monitorando as condições sanitárias básicas para a população. Somada a esse fator, a guerra também tem danificado hospitais. Segundo o observatório da ONU, 57% dos centros públicos de saúde foram destruídos ou danificados. Dos que ainda se encontram em funcionamento, a infraestrutura não consegue suportar o número de pacientes e vítimas.

 

Cidade de Homs, Síria, março de 2012 (Foto: Reuters/Yazan Homsy)

Outro setor afetado pelos conflitos é a agricultura. O alto número de mortes tem prejudicado a produção agrícola e, consequentemente, a distribuição de alimentos na Síria. A Organização da ONU para Alimentos e Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) têm incentivado projetos para subsidiar agricultores, pecuaristas e a questão da fome na Síria.

A população tem sofrido com os ataques, inclusive os mais jovens. A UNICEF está propondo atividades e apoio psicológico a mais de 85 mil crianças, pois um terço da população infantil nas regiões de conflito já sofre traumas por causa da guerra. Para custear os gastos dados pelo socorro às milhares de vítimas do conflito na Síria, agências especiais atuam no país e no mundo. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) fazem campanhas de doação. Para maiores informações de como fazer sua contribuição, acesse os links abaixo.

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