Sociedade

Tabus da vaidade masculina

Apesar do preconceito, homens têm se dedicado mais a cuidados pessoais e a se vestirem com estilo

Por William Nunes (willnunes94@gmail.com)

Modos não-convencionais de se vestir chamam atenção. Nas pessoas em geral, isso leva à construção de estereótipos e, além das mulheres, os homens também não escapam dessa. É muito comum observarmos homens sendo rotuladas por usarem uma calça mais apertada, uma camiseta mais colada com gola aberta ou com a unha feita e o peito depilado.

Leonardo Leal, desenvolvedor de marketing e dono do blog Macho Moda. Foto: Divulgação

 

Para Leonardo Leal, desenvolvedor de marketing e dono do blog Macho Moda, “tem muita gente que ainda carrega paradigmas e possui a cabeça um pouco fechada em relação a essas coisas, mas é preciso respeitar novos costumes e hábitos”.

O que vai na contramão disso tudo é o fato de que, apesar das fortes evidências de preconceitos que rondam a moda masculina, os homens têm sido cada vez mais fiéis ao seu próprio modo de se apresentar, muitas vezes ignorando a pressão social.

 

Eles estão se cuidando mais

Em meio a tantos julgamentos pré-concebidos pela sociedade, os homens dão indícios de que passaram a dar mais atenção à aparência. “Cada vez mais os homens estamos se preocupando, não em ‘ficar na moda’, mas em nos vestirmos de uma maneira melhor, mais agradável para nós mesmos. Estamos cuidando mais do nosso cabelo, pele, barba”, aponta Leonardo, quando questionado sobre os tabus que cercam a estética masculina.

Homens tem aderido à moda da barba por fazer. Foto: Divulgação/adaptada

A afirmação do blogger se comprova de vários modos. Um deles diz respeito à grande procura pelos variados sites de moda masculina. Leonardo é dono de um deles, o Macho Moda. “Muita gente sempre me perguntava onde eu comprava minhas roupas e tudo mais. Depois de tanto responder a essas coisas, resolvi criar um espaço em que eu pudesse indicar produtos, serviços para eles. Essa foi a minha maior motivação pra criar o Macho Moda”.

O blog tem recebido, em média, 80 mil visitas por mês, sendo que as postagens mais visualizadas são aquelas que tratam de dicas para cabelo, barba e composição dos visuais. Em agosto de 2013, com praticamente 1 ano online, atingiram a marca de 1 milhão de visitas.

Relatório de visitas do blog Macho Moda no mês de agosto de 2013. Imagem: Blogger/Leonardo Leal

Dados mostram que a grande busca por conteúdos como os do blog Macho Moda teve seu início há mais de três décadas atrás, e logo foi captada pela mídia. Em 1987, a primeira edição da revista Men’s Health foi publicada nos Estados Unidos. Atualmente, a publicação é campeã de vendas no setor, com tiragem de 1,85 milhões de revistas e 12 milhões de leitores mensais. No Brasil, apenas em 2006 a Mens’s Health ganhou espaço para publicação, através da Editora Abril, e ainda aparece como uma das poucas representantes do assunto no país. O veículo aborda temas como fitness, estilo de vida, nutrição e sexualidade.

 

Produto de beleza voltado para a pele masculina. Foto: Divulgação

A moda masculina também tem tido sua representatividade na economia brasileira. De acordo com uma pesquisa da ABIHPEC – Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos – os cosméticos masculinos foram responsáveis por 10% do mercado de produtos de beleza. Além disso, a busca por procedimentos cirúrgicos da parte dos homens também aumentou consideravelmente. No âmbito dos tratamentos estéticos, segundo o site Moda Para Homens, os mais procurados são os para a calvície, pele oleosa e irritação na barba.

Extrapolando a questão da vaidade e chegando ao fitness e saúde, segundo a ACAD – Associação de Academias do Brasil – o mercado das academias movimenta mais de R$ 2 bilhões da economia, sendo predominante o público masculino que buscam a prática da musculação. Hoje também cresce o número de homens que praticam pilates, atitude saudável antes tida como “coisa de mulher”.

Por que eles estão mais vaidosos?

Muitos motivos, tanto internos quanto externos, podem estar por trás deste novo modo de vida que deixou de ser exclusivamente feminino. Dentre os externos, o principal é o mercado de trabalho. Não apenas em situações de entrevistas, mas em algumas profissões, sobretudo aquelas que lidam com o público, a atenção com a aparência se faz necessária na busca por uma boa imagem para o cliente ou para os chefes.

Em 2002, a Revista Época já apontava outras razões para esse novo tipo de comportamento. Segundo a revista, a inserção da mulher no mercado de trabalho, abriu espaço para que os homens tivessem tempo para cuidar mais de si mesmos.

 

Imagem: Photoxpress

Apesar de fatores externos influenciarem de forma direta no modo masculino de ver a vaidade, é importante ressaltar que nem sempre essa condição é verdadeira. Como narra Leonardo Leal, alguns homens passaram a se vestir e a se cuidar de um modo com o qual se sintam confortáveis com eles mesmos. Portanto, não se pode reduzir o tema à pressão da sociedade, mas também deve-se expandi-lo a questões de personalidade e autenticidade que, no caso, passam a ser mais subjetivas e variam de indivíduo para indivíduo.

O preconceito

Desde que o termo “metrossexual” entrou na lista dos adjetivos que designam os homens que se dedicam a cuidar da sua estética, o preconceito contra esse público ganhou força. A palavra é, muitas vezes, relacionada de forma incorreta com a sexualidade do indivíduo. Sua grafia, que conta com a terminação “sexual”, é um dos fatores responsáveis por essa falsa lógica e pelo pré-julgamento de que todo metrossexual é, necessariamente, gay.

Vitor Pereira, estudante de Têxtil e Moda na USP, sabe bem o que é fugir dos padrões sociais. No ano de 2013, o garoto de 20 anos foi vítima de represálias através do Facebook por ter ido à faculdade vestindo uma saia xadrez. O ocorrido repercutiu na Universidade e, em protesto, os alunos da instituição fizeram um saiaço. Na ocasião, os meninos foram vestidos de saia e as meninas trajaram roupas “masculinizadas”, como camisa e gravata. O caso chegou a ganhar voz em grandes veículos jornalísticos e abriu uma grande discussão acerca de gênero.

Pouco tempo depois, algo parecido aconteceu no Colégio Bandeirantes, escola de alto padrão da cidade de São Paulo. Um garoto foi impedido pelo diretor de entrar na aula por estar usando uma saia. A justificativa? Não queriam expor o aluno às chances de sofrer preconceitos. Leonardo Leal mostra o outro lado da moeda: “Vira e mexe falam do jeito que eu me visto, mas não encaro isso com um tom preconceituoso. Às vezes o preconceito está em nossas próprias mentes. Acho normal as pessoas olharem pra outras que possuem estilo diferenciado e comentarem, falarem, cutucarem outros. Tudo que foge um pouquinho dos padrões chama atenção, é natural!”

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.

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