Cultura Sociedade

A importância das telenovelas na sociedade

Saiba como as novelas brasileiras influenciam a vida dos telespectadores e de que modo ela trata de temas essenciais do nosso cotidiano

Por Luís Viviani (luis.viviani89@gmail.com)

Quando o assunto é novela, surgem muitos pensamentos de senso comum, tratando-a apenas como um produto de entretenimento da nossa cultura, que tem por objetivo a alienação da população e a ilustração do Brasil como um lugar de estereótipos e de caricaturas. Além disso, há também o discurso de que ela provoca um distanciamento dos cidadãos para os reais problemas do país, como meio de deixar o povo alheio aos temas mais importantes da nossa sociedade. Esse pensamento é razoável, possui alguns pontos consideráveis, mas temos de ter em mente que a novela vai além desses conceitos e detém uma importância social bem mais relevante.

É necessária uma visão mais crítica e analítica sobre o tema. Há, também, todo um espaço aberto por esse gênero televisivo de enorme sucesso no país que se preocupa com questões de responsabilidade social. As telenovelas abordam temáticas essenciais da nossa sociedade, polêmicas e tabus, transmitindo uma mensagem que pode (e deve) se tornar tema de debate e de reflexão pelos telespectadores a partir de novas perspectivas.

O que outrora era visto desse modo apenas preconceituoso ganhou novos contornos e atualmente diversas pesquisas, inclusive em meios acadêmicos, são feitas tendo como objeto de estudo a importância e a influência das telenovelas em nossa sociedade. É possível se verificar uma evolução quantitativa em teses que tratam sobre o diálogo das telenovelas com o nosso meio. Além do Centro de Estudos de Telenovela (CETVN) da Universidade de São Paulo (USP), dedicado mais especificamente a esse tema, existem diversas outras pesquisas, teses, projetos e artigos que já fizeram algum estudo relacionado, como, por exemplo, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Núcleo de Estudos de Gênero Pagu.

História das telenovelas no Brasil

As telenovelas brasileiras são provenientes das radionovelas, gênero de grande sucesso entre os anos de 1940 e 1950. Adaptadas da dramaturgia que já fazia parte da cultura latino-americana, tendo Cuba como maior expoente, as radionovelas tiveram enorme êxito no imaginário da população brasileira daquela época. Porém, com o surgimento e o crescimento do novo meio de comunicação no país – a televisão -, elas entraram em decadência, diminuindo gradativamente de quantidade até acabarem em ostracismo e desaparecimento total (década de 1970).

A chegada da televisão no Brasil se deu em 1950, com a introdução da primeira emissora nacional, a TV Tupi, pelo empresário e jornalista Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, rede de jornais e rádios. Em 1951, pela própria TV Tupi, foi exibida a primeira telenovela brasileira, “Sua vida me pertence”, do autor, diretor e ator Walter Forster. Nessa época, elas eram feitas ao vivo, somente em dois dias na semana, além de não possuírem muitas verbas e não serem exibidas em horário nobre. Assim como as radionovelas, as primeiras telenovelas também possuíam forte presença do estilo melodramático latino-americano.

A novela "Beto Rockfeller". Imagem: divulgação.
"Beto Rockfeller". Imagem: divulgação.

Em 1963, com o florescimento da tecnologia do videotape, foi possível inicialmente a gravação para a posterior exibição e as novelas tornaram-se diárias. A TV Excelsior foi a pioneira com “2-5499 ocupado”, mais uma vez adaptada, por Dulce Santucci, de um roteiro estrangeiro, dessa vez argentino. A partir dessa mudança e com maiores recursos técnicos, as emissoras aumentaram vertiginosamente o número de suas telenovelas e o produto entrou de vez na cultura e na sociedade brasileira. Em 1968, “Beto Rockfeller”, de Bráulio Pedroso, da TV Tupi, provocou uma transformação significativa no estilo narrativo e uma inovação na sua linguagem. Longe das características que até então marcavam o padrão novelístico associado à dramaturgia latino-americana, ela trouxe uma atualizada no formato com uma estética moderna, história descontraída passada em São Paulo, diálogos coloquiais e sem dramaticidade e a presença de música pop, emergindo uma forma propriamente brasileira de se fazer novelas.

Com a década de 1970 e a consolidação da televisão na sociedade brasileira e da novela como seu carro-chefe, a Rede Globo (fundada em 1965) ascende como maior potencial na sua produção e comercialização. Com a já falida TV Excelsior (1970) e as crises financeiras da TV Tupi (fechada em 1980), a Globo assume o posto dominante no mercado, acompanhada de longe pela Rede Record, contratando profissionais de ponta, como Cassiano Gabus Mendes (da Tupi) e Janete Clair. A TV Tupi ainda manteve bons índices de audiência com a novela “A viagem” (1975), de Ivani Ribeiro, mas por fim não resistiu à concorrência da Rede Globo.

Segundo o professor de jornalismo no rádio e na TV da Escola de Comunicações e Artes da USP, Luiz Santoro, que trabalhou em algumas novelas da TV Tupi na década de 1970, a Rede Globo “investiu na sofisticação acompanhada de um padrão técnico”, e enquanto “a Tupi valorizava o ator e o texto, a Globo deu mais atenção ao cenário, à produção e ao conteúdo”. Com isso, emplacaram novelas como “Selva de Pedra” (1972), de Janete Clair, “O Bem Amado” (1973, primeira novela em cores), de Dias Gomes, e “Escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga (adaptada do romance homônimo de Bernardo Guimarães). Vale salientar que, a partir da década de 1970, as telenovelas brasileiras tornaram-se forte produto de exportação, sendo comercializadas em dezenas de países. A partir dessa época até o então presente, a Rede Globo foi hegemônica na audiência do gênero, com raras exceções, como “Pantanal” (1990), de Benedito Ruy Barbosa que obteve grande sucesso e repercussão pela Rede Manchete.

Importância Social

A despeito das narrativas de padrão comum, com a alta frequência de conflitos amorosos e familiares em seu núcleo principal, o drama sempre existente que se tornou clichê, traições, as reviravoltas previsíveis e a história de um herói contra um vilão, as novelas abrem espaço para problematizar questões essenciais do nosso cotidiano que estão invariavelmente em pauta. Isso pode ser considerado merchandising social ou simplesmente ações socioeducativas.

Abertura da novela "Explode Coração". Imagem: divulgação.
Abertura da novela "Explode Coração". Imagem: divulgação.

A partir disso, temos, por exemplo, a novela “Explode Coração”, escrita por Glória Perez em 1995, que tratou do drama das crianças desaparecidas. Na trama, a personagem Odaísa (Isadora Ribeiro) se junta às verdadeiras Mães da Cinelândia (grupo de mulheres que se uniram em torno desse problema), no Rio de Janeiro, para tentar encontrar seu filho Gugu (Luís Cláudio Jr.). A partir dessa problemática existente no enredo e a campanha para ajudar na busca das crianças, 64 desaparecidos foram encontrados ao fim da história, mostrando a influência dessa iniciativa de promover ações socioeducativas.

Porém, longe de ser um discurso que debate propriamente esses temas com grande profundidade, a novela se configura mais como um espaço de exposição. Na sua grande maioria, os problemas são apenas apresentados, de forma a não se discuti-los mais incisivamente. A professora Heloisa Buarque de Almeida, antropóloga e especialista no assunto,comenta que “a novela expõe esses temas, mas o debate é superficial, ou não há debate, é uma visão unidimensional. Por exemplo, o alcoolismo sempre possui a indicação do tratamento através dos Alcoólicos Anônimos (AA). A violência doméstica é tratada de um modo muito problemático, porque o agressor é sempre um louco, um personagem mau, quando sabemos que o problema da violência doméstica é muito mais complexo. Não se politiza o tema. E o aborto, então?! Aí quem faz aborto é sempre um monstro (ou uma mocinha que se arrepende e denuncia a clínica), NUNCA o tema é tratado com seriedade. Ou seja, é uma abordagem unidimensional, religiosa, e conservadora”.

Infográfico: Júlia Pellizon e Thaís Matos
Infográfico: Júlia Pellizon e Thaís Matos

Além disso, para Heloisa, os problemas devem estar presentes frequentemente, pois senão há o esquecimento deles por parte das pessoas. Ela explica “mas sim, expõe alguns temas. A questão da presença (modesta e discreta ainda) dos casais gays, ou de personagens homossexuais tratados de modo não caricato, por exemplo. Coloca o tema em pauta, dá alguma visibilidade e até certa respeitabilidade. Mas isso só funciona se continuar a ter sempre casais homossexuais. Se aparece numa novela e não voltar, não muda nada na sociedade”.

Abertua da novela "De Corpo e Alma". Imagem: divulgação.

Ou seja, o importante é justamente a presença contínua dos assuntos para o prosseguimento dessa visibilidade: “não é uma novela ou uma mensagem que influencia diretamente. É mais aquilo que é repetitivo, e está sempre na sua história. Por exemplo, durante uma que se chamava “De Corpo e Alma” (1992), promoveu-se a doação de órgãos através de um caso de transplante de coração.  Durante a novela, cresceu muito o número de pessoas que doavam órgãos. Quando ela acabou, esse número foi declinando novamente. Mas se uma mensagem é repetitiva e está sempre lá, aí ela funciona”.

Para exemplificar essa questão, basta lembrar que durante a novela “O Rei do Gado” (1996), de Benedito Ruy Barbosa, o problema da reforma agrária e o conflito do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) foram abordados durante toda a trama, o que trouxe enorme discussão na mídia em geral, levando os telespectadores a refletirem melhor sobre o tema. Já com o longo tempo sem levantar esse problema por outras novelas, a sociedade só percebe sua existência por meio de noticiários relâmpagos nos telejornais. Segundo Heloisa, “os telespectadores refletem sobre o que veem, discutem, discordam, não aceitam passivamente, mas refletem a partir de seu repertório cultural e de seus conhecimentos. Ou seja, quando a novela trata de um tema que eles conhecem mais, eles discutem/discordam mais da novela. Quando trata de um tema que eles não conhecem, se sentem ‘informados’ pelas novelas (especialmente aquelas pessoas com menor escolaridade sentem que aprendem muito pela TV, mas isso não ocorre com todos)”.

A novela "O Rei do Gado". Foto: divulgação.

Portanto, a telenovela brasileira, esse produto cultural de enorme influência na nossa sociedade, possui uma dimensão e um poder para abordar temas extremamente importantes presentes na vida das pessoas e fazê-las refletir de algum modo. E, apesar de se manter fiel ao padrão básico narrativo com características bem definidas e de expor os problemas de um modo bem superficial, ela ainda cria essa repercussão construtiva para os cidadãos.

Produto de consumo

Com o crescimento da televisão como maior meio de comunicação ao longo do século XX, as telenovelas brasileiras ganharam status de forte produto econômico na sociedade de consumo contemporânea. E o sucesso não foi apenas no Brasil, mas no mundo. Desde os anos de 1970, elas adquiriram potencial para serem vendidas no exterior. Segundo o “Guia Ilustrado TV Globo: Novelas e minisséries”, “Escrava Isaura” (1976), de Gilberto Braga, foi vendida para 79 países. O número aumenta se comparado ao “Clone” (2001), de Glória Perez, que chegou à marca de 91. Porém, a vencedora e novela brasileira mais reprisada de todos os tempos no exterior foi “Da cor do pecado” (2004), de José Emanuel Carneiro, que atingiu a marca de 100 países.

Os investimentos milionários na produção das novelas foram crescendo de acordo com a elevação desse produto na audiência das redes televisivas. Não por acaso, esse gênero de sucesso ocupa simplesmente três horários nobres na maior rede de televisão do país. O diálogo que ele mantém com os telespectadores torna-se, portanto, significativo a ponto das pessoas assistirem mais às novelas do que os telejornais.

O impacto que esse produto causa nas pessoas é enorme também nessa questão de consumo, de vez em quando imperceptível, mas frequentemente visível. Heloisa comenta que “há uma vasta bibliografia mostrando a correlação entre TV e formação de uma sociedade de consumo no país. A Rede Globo é uma mídia comercial, que se sustenta através dos anunciantes. E, assim, em qualquer parte do Brasil, assistindo às novelas, as pessoas veem um estilo de vida urbano e altamente consumista. Para além dos produtos promovidos em si – tanto na publicidade como naquele merchandising comercial dentro da novela -, quando a personagem faz anúncios de um determinado produto, ou usa um produto de modo evidente, a novela promove modas variadas (cada novela renova nesse ponto), como se pode notar no dia a dia, na rua, nas lojas, nos camelôs. E mesmo sem uma promoção específica, é notável como as pessoas veem nas novelas referências desses padrões de produtos, beleza, etc. Querem a cor do batom ou do esmalte de tal personagem, a roupa e o vestido que outra usa, e assim por diante. As casas são também referência de um padrão – como dizia um senhor operário com quem fiz pesquisa de campo: ‘novela é um luxo danado’, e até casa de pobre na novela é muito mais rica e arrumada do que as casas de verdade das pessoas.”

J.Press
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