Pátio da fábrica chinesa Sany. Foto: divulgação
Economia Sociedade

Será que vale a pena fazer um “negócio da China”?

País que vive entre sob estigmas econômicos, a China ganha cada vez mais espaço no Brasil – mas continua gerando receios até entre os que vivem de seus produtos

Por Beatriz Moura (bia.vlm@gmail.com) e Malú Damázio (damaziomalu@gmail.com)

O comércio da China vem ganhando destaque no cenário global: o país foi o maior exportador de produção em 2011, vendendo uma quantia de 1,899 trilhões de dólares e representando 10,4% das exportações mundiais, batendo recordes de campeões há anos nesse quesito, como os Estados Unidos.

Hoje, é muito comum os produtos terem a famosa etiqueta "Made in China". Foto: http://www.hitthefloor.co.uk
Hoje, é muito comum os produtos terem a famosa etiqueta “Made in China”. Foto: http://www.hitthefloor.co.uk

A “invasão chinesa” no Brasil começou há um tempo com produtos mais simples. No entanto, hoje ela já abrange uma fatia muito maior do mercado brasileiro. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostram que o país foi o segundo maior exportador para o Brasil, vendendo o correspondente a 16,059 bilhões de dólares, o que equivale a 14, 6% das importações brasileiras, no período de Janeiro a Junho de 2012. Em relação a 2011, as exportações da China para o Brasil tiveram uma variação positiva de 8,9%. Somente os EUA estão na sua frente, exportando o equivalente a 16,122 bilhões de dólares para o Brasil, no mesmo período de tempo, e sendo responsável também por uma porcentagem de aproximadamente 14,6% das importações brasileiras. Entretanto, o aumento das importações brasileiras de origem estadunidense, de 2010 para 2011, foi de somente 1,6%.

A produção em massa é um dos elementos responsáveis para que a China alcançasse esse resultado. A combinação entre abundante mão-de-obra e incentivos governamentais a tornou a principal dentre as eminentes potências econômicas. O sucesso da China advém, em boa parte, do preço de seus produtos, que são vendidos a baixíssimos custos. Como ela possui uma linha de produção massiva, o custo unitário torna-se mais barato. Além disso, os impostos chineses são baixos e o país investiu bastante em infraestrutura tecnológica nos últimos anos.

Dessa forma, os bens de consumo chineses também ganharam o mercado mundial. A cada dia, torna-se mais comum ver algum eletroeletrônico com a famosa inscrição “Made in China”. Isso ocorre, especialmente, porque o principal produto de exportação chinês são os artigos de telecomunicações. Utensílios de aparelhos receptores comunicacionais, de radiodifusores e de televisões representaram 4,93% das importações brasileiras advindas da China no ano de 2011, consistindo em um montante de aproximadamente 1,47 bilhão de dólares. Além disso, carros, fogões, tratores e telefones são outros itens que a China exporta em massa.

Comércio de “descartáveis”

Apesar de ainda figurar no ideário da maioria das pessoas como produtor de roupas e acessórios, o país já não comporta mais tantas fábricas com esse intuito: o salário chinês cresceu consideravelmente nos últimos anos – mesmo continuando em um patamar bastante inferior com relação ao recomendado. Com isso, outros países com mão-de-obra mais barata passaram a ser explorados por alguns setores que produzem intensivamente. Bangladesh, Vietnã, Índia e Bahamas são alguns dos novos destinos dessas fábricas, que se tornam mais lucrativas.

Contudo, por seu histórico de exportadora de “quinquilharias”, a China ainda enfrenta um considerável preconceito dos consumidores brasileiros com relação aos seus produtos com inserção de tecnologia. A maioria das pessoas ainda tem um certo receio de adquirir itens como computadores ou câmeras fotográficas chinesas. O motivo alegado é quase uma constante: o problema está na qualidade dos artigos.

Rita Gouveia é uma das pessoas que acredita que os produtos da China são bastante satisfatórios caso eles sejam para funções simples e de curto prazo. Bastante direta ao dizer o que a leva a comprá-los, ela afirma: “Eu compro porque é mais barato, com certeza! Mas não acho que a qualidade seja a mesma. O chinês estraga fácil. Pensando bem, o que não estraga fácil atualmente? Hoje em dia o permanente já acabou, está tudo descartável. Muda muito rápido e o dinheiro não acompanha essa velocidade, por isso temos que apelar para essa parte do descartável”. Ainda assim, ela conta que não teria coragem de comprar uma máquina fotográfica profissional da China, porque acredita que a qualidade das fotos seria pior, e isso interferiria no resultado final de seu trabalho.

Já o vendedor de produtos chineses, Theo, garante que a qualidade é a mesma dos outros. Segundo ele, a maioria dos produtos mundiais é chinesa. O que os diferencia é que eles são bem mais baratos do que os considerados de marca. Em sua banca, no Paulista Center – um complexo de mini lojas de artigos da China, que vão desde capinhas para celulares até fones de ouvido e outros eletrônicos -, ele afirma que as capinhas para Iphone que vende chegam a ser até R$80,00 mais baratas do que as da própria Apple, fabricante do celular. “A durabilidade é a mesma, a qualidade também. É só uma questão de marca”.

 

O Paulista Center é um complexo de mini lojas de artigos da China, que vão desde capinhas para celulares até fones de ouvido e outros eletrônicos. Foto: Paulista 900
O Paulista Center é um complexo de mini lojas de artigos da China, que vão desde capinhas para celulares até fones de ouvido e outros eletrônicos. Foto: Paulista 900

Ao ser perguntado se compraria um carro chinês, Theo hesitou. Ele disse que o problema de produtos como carros não é a qualidade, mas a disponibilidade de peças extras, caso haja necessidade de alguma manutenção. “O carro chinês é importado, então a assistência é mais cara, mesmo ele custando mais barato”.

Virgílio Pettri é um dos frequentadores do Paulista Center. O palestrante, que ensina sobre novas tecnologias do ensino pelo Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo, o SIEEESP, esteve na China há seis meses e assegura que a linha de produção de lá está tão forte quanto a dos Estados Unidos. Ao contrário de Theo, ele diz que compraria, sim, um carro chinês: “Eu conheço vários carros chineses que são muito bons, principalmente um híbrido elétrico que está vindo para o Brasil ano que vem”. Mesmo confirmando a falta de assistência técnica, ele argumentou que, em breve, esse serviço já estará disponível no Brasil; “é tudo uma questão de tempo, de nós nos acostumarmos”.

Apesar disso, ele diz que não compraria um computador da China, por exemplo. “O que eu mais compro aqui são coisas como mouse, cabo USB, que você vai usar no computador mesmo… os periféricos. O que a gente vai usar e vai quebrar. Daí a gente compra de novo!”. Mesmo assim, ele confessa não adquirir os chineses em qualquer local. Virgílio só compra esses produtos se já conhecer o fornecedor: “Eu compro onde já costumo ir a um tempo e o produto nunca deu trabalho”.

Com isso, é possível notar que até mesmo os consumidores fiéis dos produtos chineses ainda têm algumas ressalvas quanto ao que se deve ou não comprar. Esse é um dos principais problemas que a China enfrenta para consolidar sua exportação de artigos mais sofisticados.

Caso Imporcate

E não é só no mercado de “quinquilharias” e de tecnologias de telecomunicações que a China se destaca no Brasil. Máquinas, como tratores de construção civil, acessórios e peças para a manutenção desses equipamentos também são importadas. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, esse setor correspondeu a 0,24% do total das importações brasileiras que provêm da segunda maior economia do mundo em 2011. Isso equivale a aproximadamente 68,7 milhões de dólares gastos pelo Brasil.

A Imporcate, franquia sul-mato-grossense revendedora de peças e tratores, estava atenta ao crescimento da necessidade brasileira e do aumento da oferta e da qualidade chinesa nesse setor da economia. Com essa motivação em mente, resolveu abrir as portas para uma das gigantes empresas chinesas, a Sany.

 

Pátio da fábrica chinesa Sany. Foto: divulgação
Pátio da fábrica chinesa Sany. Foto: divulgação

Figurando no cenário mundial como uma das maiores fabricantes globais em máquinas de construção, sendo a primeira em bombas de concreto, a Sany destinou uma verba de 200 milhões de dólares para investimentos no Brasil. Dessa forma, a Imporcate firmou uma parceria com a empresa chinesa e passou a revender seus produtos.

Mesmo sendo uma marca amplamente reconhecida no mercado, a franquia do Mato Grosso do Sul – que também atende os estados de Roraima, Paraná e Mato Grosso, além do interior de São Paulo – teve dificuldade em fazer com que os clientes aceitassem bem as peças da Sany. Entre outros motivos, o principal era o desconhecimento, por parte dos compradores, com relação à empresa chinesa. Márcio Silva, diretor da Imporcate, conta que, no princípio, a procura por esses produtos foi consideravelmente alta, devido à curiosidade gerada por ser um nome novo no mercado brasileiro, com peças a um menor custo. Apesar disso, a maioria dos clientes acabou preferindo continuar comprando produtos da empresa alemã, Wacker Neuson, também representada pela Imporcate.

Segundo ele, isso ocorreu porque a marca alemã assegurava maior credibilidade por já ser conhecida pelos clientes, enquanto a Sany ainda era incipiente no Brasil. Contudo, o diretor afirma que, pouco a pouco, os compradores estão reconhecendo a qualidade dos produtos chineses: “Hoje temos clientes que já compraram o terceiro equipamento. Isso demonstra que, apesar do rótulo, o produto Sany tem aprovação”.

Ele ainda ressalta que a empresa passa por um período de adaptação no mercado brasileiro. “O principal impasse, sem dúvida, é que a cultura organizacional oriental tem dificuldades de adaptação”. Contudo, aposta nela como uma das mais promissoras no setor. “Toda empresa com origem chinesa tem de passar pela provação e aprovação do mercado, adaptação aos gostos e costumes locais, já que o nível de exigência no Brasil é alto. Isso leva tempo. Porém, no caso, a Sany veio para ficar. O problema é se nós estamos preparados para essa invasão”, conta Márcio.

Legislação protecionista

Além das dificuldades naturais que a China encontra na expansão de seu mercado, uma das principais barreiras foi imposta não pelo consumidor, mas pelo governo brasileiro. Para proteger a produção nacional, a legislação do Brasil impôs cotas e altos impostos aos artigos chineses. O fato de serem extremamente baratos poderia fazer com que o comércio interno não encontrasse mais mercado.

Simão Silber, professor da Faculdade de Economia e Administração Universidade de São Paulo (FEA-USP), especialista em economia internacional, afirma que “se o governo brasileiro não tivesse colocado cotas e restrições, hoje nós teríamos uma inundação de carros chineses aqui no Brasil. O brasileiro já está comprando, ele só não está comprando mais porque o governo não está deixando”.

As leis restritivas também são um problema para os negócios de Márcio Silva: “o governo brasileiro optou a ceder a pressão interna de outros fabricantes e aumentou o imposto de importação de 14% para 25%. Sem dúvida existe pressão de aumento”. Apesar disso, são necessárias para que o mercado brasileiro também consiga seu espaço, tanto no cenário interno quanto no externo.

O problema que o Estado encontra ao barrar a invasão de produtos chineses é justamente o escoamento das commodities produzidas no Brasil, principal item de exportação nacional. A China é uma das maiores compradoras desses bens brasileiros, sendo, portanto, uma grande parceira nas negociações externas. Virgílio Pettri acredita que o Brasil deve estar atento a isso: “Precisamos estar abertos a essa política de comercialização. Principalmente agora, com a quebra da Argentina. A quebra da Argentina está provocando problemas extremamente sérios, e, se nós não virarmos parceiros da China, não vamos ter para quem vender nossa soja e nosso açúcar”.

Crescimento gradativo

A linha de produção chinesa foi construída para atingir todo tipo de mercado; do mais simples ao mais complexo. Para isso, ela produz itens com a mais diversa qualidade. Os artigos chineses que são exportados para países desenvolvidos, como os Estados Unidos, ou para o continente europeu são de primeira linha. Enquanto os produtos destinados para a América Latina e a África já não possuem qualidade tão boa assim.

Sobre o produto em si, Simão comenta que não há grandes alterações; o que varia é o nível de sofisticação. “Dependendo da renda, da condição econômica, você vai vender um produto mais simples ou um mais sofisticado. A própria sandália de dedo brasileira, quando é vendida em Paris, faz uma versão mais sofisticada e vende por quarenta, cinquenta euros. Você não vai vender aqui por esse preço, mas é basicamente o mesmo produto. Tem de tudo”, afirmou.

O economista completa afirmando o mérito chinês ao ser o maior país exportador em 2011, e com promessas para se manter nesse posto em 2012: “O ponto que eu queria destacar é o seguinte: a China não está aí, como maior exportadora do mundo de graça. Ela tem bons produtos, ela tem bons preços, ela tem uma estratégia de mercado fantástica de penetração de mercado, e, se bobear, ela domina o mundo!”

J.Press
A Agência J.Press de Reportagens é um espaço destinado à publicação e divulgação de matérias com abordagens inovadoras. Vinculada à empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), a agência busca novas formas de explorar assuntos de interesse público por meio do jornalismo.