Sociedade

Autores perdem identidade e obras na internet

A concessão errada de autorias de textos nas publicações da internet é responsável por conflitos e processos judiciais

Por Marina Castro (marina.castror@gmail.com)

“Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu”. Talvez você já tenha lido esse trecho em algum lugar. Possivelmente em alguma postagem das redes sociais, talvez até acompanhado de uma foto do “autor”, Luis Fernando Verissimo.

Na verdade, esse é o final de um texto chamado “Quase”, amplamente divulgado na internet como sendo de Verissimo. A verdadeira autora de “Quase” é Sarah Westphal Baptista da Silva, uma estudante catarinense. Tamanha aceitação do erro levou uma escritora francesa que organizava uma coletânea de prosa e versos brasileiros traduzidos para o francêsa colocá-lo no livro, entre Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Ela mesma ofereceu um exemplar a Luis Fernando quando a obra foi lançada, em 2005. O caso ficou famoso porque o próprio Verissimo publicou uma crônica no jornal Zero Hora, contando o ocorrido.

Casos de falsa autoria como esse são cada vez mais frequentes no meio das redes sociais. Falando só de Verissimo, diversos outros textos erroneamente atribuídos a ele circulam na internet, como um que se refere ao Big Brother Brasil como “pura e suprema banalização do sexo”. Quando participou do Altas Horas, programa da Rede Globo, o escritor esclareceu que o texto não era seu. Muitos sites agora citam como autor Marcelo Guido.

Falsas autorias são cada vez mais frequentes nas redes sociais (Imagem: literatortura.com)

Verissimo, apesar de ser considerado o autor a que mais atribuem textos erroneamente, não é o único escritor brasileiro a “ganhar” textos na internet. Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Arnaldo Jabor e Mario Quintana são outros constantemente citados como autores de frases e versos que não são seus. O nome de Clarice até foi incluído em um caso polêmico, levado à Justiça pelo poeta Edson Marques. Em 1999, ele escreveu o poema “Mude”, que dois anos depois seria utilizado pela Fiat em um comercial comemorativo de 25 anos da montadora. Marques descobriu que os direitos autorais tinham sido pagos ao filho de Clarice, Paulo Gurgel Valente, e processou tanto a Fiat quanto a Leo Burnett, agência de publicidade responsável pelo comercial. O caso ainda tramita na Justiça e Edson espera receber uma indenização.

O outro lado

Apesar da aparente despreocupação com o conteúdo das publicações. Diversos donos de páginas do Facebook, Tumblrs e blogs são cuidadosos quanto à autenticidade do que publicam e checam os autores antes de divulgar.

É o caso de Fernanda Myamoto, por exemplo. Dona de um Tumblr dedicado a Clarice Lispector, ela conta que escolheu homenagear a escritora porque uma das obras dela foi o primeiro livro preferido que teve. “Ela levava esse negócio de escrever tão a sério que conseguia te trazer o ápice de tudo quanto é sentimento em um livro só”, diz.

A respeito do problema das falsas autorias, ela diz que é o que mais acontece na internet, principalmente no Tumblr, a plataforma mais usada para publicar citações, chamadas de “quotes”. “Foi algo que perdeu muito o controle, tem Caio Fernando falando por Clarice, Carpinejar virando Paulo Coelho e por aí vai… Tem gente que não se dá nem o trabalho de confirmar, de ler o livro e dar certeza da fonte do texto”. Para que isso não aconteça com ela, Fernanda diz que geralmente passa direto do livro para o campo de postagem. Quando posta trechos de músicas, ela escreve cantando, devagar, para não errar. “E se tem alguma frase, trecho ou música que sei decorada, vou atrás de novo pra confirmar”, completa.

Administradores de sites optam por transcrever trechos diretamente para não cometer erros (Imagem: Wikimedia Commons)

Fabio Rocha, criador do site “A Magia da Poesia” é outro que leva a sério o compromisso com o leitor e com o autor na hora de postar na internet. . Inicialmente utilizando a plataforma digital para divulgar seus próprios poemas, com o tempo Fabio passou a publicar obras de poetas famosos e a permitir que visitantes divulgassem seus trabalhos. A ideia fez sucesso e hoje o site tem mais de 10 mil pessoas cadastradas para receber atualizações, além de cerca de 5 mil visitantes diários. Entretanto, a meta de Fabio agora é outra: “Em vez de expansão, estou focando na revisão mais rigorosa”, diz.

Sobre a mudança de planos, ele explica que foram “os despautérios que todos podemos ver em outros sites e espalhados em redes sociais” que o fizeram repensar o site e alterar seu foco. Se em 1999, quando ele iniciou o projeto, os problemas de falsa autoria na rede praticamente não existiam, porém hoje, pouco mais de dez anos depois, a situação é muito diferente. “Há péssimos sites bem colocados no Google, onde qualquer pessoa pode publicar qualquer texto e atribuir a qualquer autor. E o pior: não há nem um canal de comunicação com a maioria deles, para que se possa tentar alertar sobre os erros para corrigi-los”.

Fabio considera relevante seu trabalho no site, divulgando poesias e textos com a garantia de atribuí-los ao autor correto. “Acho importante para lutar contra a tendência da pressa e do desleixo contemporâneo”, diz. “Nessa ansiedade em que vivemos, as pessoas têm cada vez mais dificuldade para ler um livro inteiro, mas passam cada vez mais tempo em redes sociais. Ao mesmo tempo em que isso abre espaço para o compartilhamento de trechos menores das obras, também abre espaço pros textos errados”. Além disso, “A Magia da Poesia” incentiva outras pessoas a se interessarem por versos e “serviu como um alerta para pensar melhor antes de espalhar conteúdo errado pela internet”, conta.

Origens das publicações

Fabio diz que, depois de tanto tempo, é impossível saber a causa de tantos problemas de falsa autoria na internet. “Podem ser brincadeiras, acidentes ou má-fé mesmo. O poder da própria rede de espalhar de forma ‘viral’ qualquer conteúdo é enorme, esteja ele certo ou errado”. Mas isso não é motivo para se acostumar com a situação ou deixar de se indignar com a gravidade dos erros. “Imagine a quantidade de gente que se decepciona ao ter o primeiro contato com a poesia justamente num poema péssimo atribuído a um grande poeta”, lamenta.

Frase ironiza publicações equivocadas nas redes sociais (Imagem: Odhara Rodrigues - Jornalismo Júnior

Essa queixa vale também para as obras em prosa. Muitas pessoas podem ter uma ideia errada dos trabalhos de Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Mário Quintana e tantos outros se acreditarem que são deles todas as frases que lhes atribuem na rede. É uma “destruição do nosso patrimônio cultural”, diz Fabio.

A internet facilita o acesso ao acervo de grandes autores, mas com um custo: a incerteza da autenticidade de frases e textos. E, nesses casos, talvez seja melhor não arriscar. “É claro que dá pra optar pelo Google, jogar a frase lá e ver no que vai dar, mas é muito mais garantido usar a fonte original mesmo”, resume Fernanda Myamoto. Só assim para Caio continuar Caio, Mário continuar Mário e nenhum outro Edson virar Clarice.

J.Press
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