Esporte e Lazer Sociedade

Viagem para o exterior – entre dados e sugestões

Com planejamento, é possível aproveitar o bom momento do turismo para conhecer o exterior

Por Fernando Souza e Camila Berto (berto.camila@gmail.com)

Cresce o número de viagens para o exterior (Imagem: Wikimedia Commons)

De acordo com os dados da Organização Mundial de Turismo (OMT), o movimento do turismo mundial não para de crescer. No último ano foi registrado um aumento de 4,4% se comparado a 2010, atingindo a expressiva marca de 980 milhões de chegadas internacionais. O Brasil contribuiu muito para esse cenário: ao lado dos outros países emergentes, o país aumentou em 32% seus gastos com o turismo internacional. Isso significa que cada vez mais brasileiros têm optado por fazer suas viagens para o exterior.

A proprietária da filial da agência de viagens Via Lazer Turismo e Eventos, Liamara Chrispim, confirma a pesquisa e indica que essa tem sido uma tendência do consumidor brasileiro. “Hoje está mais fácil ir para o exterior do que viajar por aqui, porque o Brasil é um pais onde tudo é muito caro”, ressalta.

As agências têm se beneficiado desse cenário e vendido um número cada vez maior de pacotes para o exterior. Entre as facilidades que elas oferecem, estão o grande parcelamento do valor da viagem ou grandes descontos caso os pacotes sejam comprados à vista.

Além da questão do preço e do pagamento flexível, os recentes acordos do Brasil com os Estados Unidos têm eliminado entraves para a retirada do visto americano pelos brasileiros, o que funciona como um fator de incentivo para que o brasileiro busque viajar para fora. Liamara reforça: “Mesmo com a alta do dólar, compensa ir para os Estados Unidos para fazer compras, e é o que muita gente tem feito”.

Agências de turismo registraram grande aumento de vendas (Foto: Wikimedia Commons)

Cuidado com o imediatismo

Apesar do panorama favorável, é preciso ter cuidado para não se empolgar e gastar além do que o orçamento permite. Charles Ikeda, administrador e professor de finanças pessoais, alerta que o brasileiro tem um perfil bastante imediatista e consumista. Isso significa que o consumidor toma suas decisões financeiras pensando sempre a curto prazo. “Primeiro temos o hábito de consumir, para depois ver como iremos pagar, e isso pode trazer consequências ruins”, lembra Charles.

Para Ikeda, isso está longe de ser um hábito de consumo saudável, pois o ideal é sempre se planejar antes de efetivar qualquer gasto, e a mesma regra vale para as viagens. Ele explica: “Um bom planejamento demanda pelo menos um ano, ainda mais porque não conseguimos juntar tanto dinheiro em pouco tempo para uma viagem”.

Montando um planejamento

Dessa forma, a melhor maneira para aproveitar as vantagens do cenário do turismo e viajar para o exterior é montando um planejamento. O primeiro passo é ter em mente um objetivo claro sobre o porquê de estar economizando, ou a pessoa vai chegar na metade do caminho e vai começar a gastar dinheiro, alerta Charles. Ainda para o professor, o ideal seria guardar 10% da renda mensal para a viagem. Quando se tem uma meta clara, o consumidor por si só tem o desejo de poupar mais.

Para decidir quais gastos devem ser cortados, o professor recomenda montar um orçamento doméstico, ou seja, elencar tudo o que é consumido no mês de forma bem detalhada e discriminada, para perceber que setor doméstico demanda maior parte do dinheiro. Charles ainda ressalta que não se deve montar grandes categorias de gastos, como supermercado ou transporte, mas sim separar as despesas em subgrupos. No caso das compras, por exemplo, deve-se dividir entre alimentação, produto de limpeza e higiene pessoal.

Dicas para uma viagem tranquila e sem imprevistos (Infográfico: Camila Berto – Jornalismo Júnior)

A partir dessa tabela, é possível perceber o que são vontades e o que são necessidades no orçamento. Segundo Ikeda, grande parte dos gastos são com vontades, e são elas que o consumidor deve cortar. Ele explica melhor: “Você não pode parar de comer, mas você pode parar de comer em restaurantes”.

Comprando a viagem

Fazer uma viagem planejada pode, inicialmente, trazer algumas frustrações, pois economizar significa deixar de consumir alguns itens no dia-a-dia. No entanto, as vantagens a longo prazo compensam o sacrifício inicial.

Durante a compra da viagem, pagar numa parcela única pode render bons descontos. Charles explica que o desconto que se ganha pagando à vista jamais seria obtido caso esse dinheiro fosse aplicado numa poupança, por exemplo. Além disso, o professor desmitifica a ideia da compra em prestações sem juros, “toda operação de crédito parcelado tem juros embutidos”.

Charles também recomenda que alguns gastos adicionais sejam incluídos durante a compra da viagem. O seguro saúde é muito importante, pois o atendimento médico funciona de maneira bastante diferente em outros países, e podem representar um gasto alto e inesperado em caso de acidentes. É importante fazê-lo, nem que seja o mais básico, especialmente quando o destino é um país cuja culinária é mais exótica ou quando se vai esquiar pela primeira vez.

Por fim, Charles recomenda que se tome muito cuidado com os cartões de crédito internacionais, pois todo o pagamento deles é feito depois da viagem, com uma variação cambial diferente do dia em que o consumidor gastou. A saída para esse problema seria a utilização do cartão de débito internacional, uma vez que todo o dinheiro ali gasto já é descontado naquele momento, o que evita surpresas posteriores. Além disso, a limitação de saldo no cartão pode ser uma aliada na luta contra as compras por impulso.

O jovem viajante

Montar um planejamento, discriminar gastos e fazer um orçamento doméstico podem parecer coisas muito distantes da realidade dos jovens, especialmente os universitários que têm recursos um pouco mais limitados. No entanto, é possível, mesmo com o orçamento reduzido, fazer uma viagem para o exterior, muitas vezes de forma mais independente.

Planejamento é fundamental para os jovens turistas (Foto: Wikimedia Commons)

E é justamente esse tipo de turista que também tem aquecido o mercado de viagens. Um exemplo de que viajar está cada vez mais acessível a diversos perfis é algo que se pode notar na própria trajetória de experiências do economista Rafael Ribeiro, que hoje faz doutorado na Universidade de Cambridge, na Inglaterra.

Formado em Ciências Econômicas pela UFMG, Rafael já esteve em Israel e Portugal antes de ir morar na Inglaterra. Segundo ele, a partir do momento em que sabe-se que vai viajar, um bom planejamento financeiro é peça-chave. Fazer uma poupança também é essencial para quem pretende ir para fora do país. “A minha filosofia é muito simples: guardar o máximo que puder”, destaca Rafael, observando que essa prática ajuda a evitar surpresas não só no pagamento, mas também durante a própria viagem.

Cuidados a serem tomados

Assim como Charles, Rafael salienta que discriminar as despesas é uma boa maneira de observar em quais ocasiões é necessário cortar gastos. “Quando preciso juntar dinheiro, eu simplesmente anoto todos os meus gastos, absolutamente tudo. Se for à mercearia, se comprar uma bala, eu anoto e coloco em uma planilha”. Com essa regra, o doutorando acredita que é possível observar onde se gasta mais e onde se gasta menos, ajudando na redução de despesas desnecessárias.

Rafael aconselha comprar o dólar em parcelas, pois “se você deixar para comprar tudo em cima hora, você pode perder com a conversão monetária”. Ao comprar o dinheiro aos poucos, diminui-se o risco de choques cambiais e a variação fica diluída durante o tempo. Como é uma previsão, o câmbio também pode diminuir, mas o economista acredita que essa compra parcelada ainda é a melhor saída para economizar. Outra recomendação é levar o máximo de dinheiro possível, uma vez que as tarifas bancárias para transações internacionais, como compras no cartão de crédito e transferências, são muito altas.

Antes de viajar, é sempre bom estar bem informado sobre todas as taxas e tarifas que serão cobradas em território estrangeiro. Assim, o contato com as agências de viagens é fundamental para que situações indesejáveis se tornem gastos inesperados. Segundo Rafael, “a menos que seja alguma coisa muito urgente, não compre no primeiro impulso”. Conversar com quem já viajou para o mesmo lugar ou com os próprios moradores também são maneiras de evitar despesas extras.

Viagens mais longas

Para quem vai passar uma temporada no exterior, fechar um contrato de aluguel a longa distância pode se tornar um problema. De acordo com Rafael, muitas pessoas procuram na internet locais para morar e, dada a urgência, acabam por fazer reserva sem a devida cautela. “Muitas vezes compensa ir a um lugar, arrumar uma moradia provisória, como um hostel ou um hotel, e lá começar a procurar por uma moradia”, diz ele, reforçando que as fotos postadas nos sites podem não condizer com a realidade do local. Antes de finalizar algum compromisso, ele ficou hospedado em um albergue e, depois de verificar os lugares que lhe interessavam, fechou contrato. Como o prazo de permanência é longo, minimizar as possibilidades de imprevistos é crucial e contar com uma agência especializada facilita o contato.

Por mais que se possa fazer um planejamento anterior, o economista reconhece que há gastos aos quais quem vai morar fora também deve ficar atento. Alimentação, moradia e vestuário podem pesar muito mais no orçamento se o turista de longa temporada não souber aonde comprar o que necessita. “Uma coisa importante, que é preciso fazer, é conversar com quem já está na cidade há mais tempo e perguntar”, ressalta Rafael, aconselhando também que pesquisar preços é a melhor forma de economizar.

Mesmo quem viaja para estudar precisa arranjar tempo para passeios e entretenimento, lembra o economista. De acordo com sua experiência, gastos com lazer geralmente estão entre os primeiros a serem cortados do orçamento do turista. Ainda sim, planejar os gastos e reservar uma parte do dinheiro para gastar com turismo é importante, pois “é parte da vida social”. Rafael completa dizendo que há coisas que não podem ser evitadas para reduzir gastos, como visitar lugares turísticos e passeios. Apesar do preço de muitos produtos e serviços serem mais caros, ele brinca: “Quem converte não se diverte”.

Buscar informações seguras evita maiores problemas no dia-a-dia da viagem (Foto: Wikimedia Commons)

As dicas para os jovens

Além de ajudar a reduzir gastos, manter-se bem informado é uma maneira fundamental de evitar imprevistos e cair em armadilhas. Rafael conta de sua experiência em Israel, na qual um taxista insistia em oferecer uma corrida do aeroporto até o centro da cidade. Após recusar a oferta, Rafael foi até uma farmácia perguntar onde ficava a região central. Descobriu, então, que o centro ficava a menos de 5 minutos de onde estava, e hoje acredita que o preço oferecido pelo taxista era maior do que o normal para o trajeto. Assim, procurar postos de informação e estabelecimentos básicos podem salvar tempo e dinheiro.

Esse contato não vale só com os nativos. Rafael diz que é importante interagir com os outros turistas, especialmente nos hostels porque, como lá a maioria das pessoas está praticamente na mesma situação financeira, os programas não têm preços tão exorbitantes. Mesmo assim, o economista conta que às vezes os gastos podem sair um pouco do planejado e o viajante pode acabar indo a lugares onde não imaginava ir. Apesar dessa ressalva, ele considera que essa é uma experiência muito rica. “Se você não interage com as pessoas, você perde muito”.

J.Press
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