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Empreendedorismo: a vez dos universitários

Apesar de não ser uma novidade, a iniciativa de abrir o próprio negócio vem conquistando cada vez mais jovens

Por Gabriela Malta (g.maltafelix@gmail.com)

O termo empreendedor surgiu na França, por volta do século XVII, referindo-se àqueles que aqueciam a economia, por meio do desenvolvimento de uma nova tecnologia ou do aprimoramento de uma antiga. Diferente da do capitalista, que apenas fornecia capital, a atividade do empreendedor está intimamente ligada com o ato de assumir riscos. Segundo dados de agosto de 2010 – extraídos da pesquisa de Mortalidade das Empresas elaborada pelo Sebrae-SP –, cerca de 27% das empresas paulistas fecham em seu primeiro ano de atividade. Por que, então, o empreendedorismo continua atraindo tantas pessoas?

“Porque ousar e inovar é uma vontade natural do ser humano”, responde Bruno Andretto, membro da equipe organizadora do nono Ser Empreendedor, evento de empreendedorismo organizado pela Poli Jr (Empresa Júnior da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo). Nem todas as pessoas conseguem se encaixar no perfil clássico das empresas, e, quando a vontade de aprimorar e de fazer melhor encontra esse público, temos o perfil do empreendedor.

O que vemos surgir no Brasil são as chamadas startups: empresas que procuram um modelo de negócios que pode crescer rapidamente e gerar grandes lucros, apesar de seus baixos custos de manutenção. Por outro lado, operam em cenário de grande incerteza, ou seja, não é possível garantir que para elas determinado modelo de negócios vai realmente dar certo.

Processo de montagem do canvas (formato em tela de apresentação de modelo de negócio) do NEU. (Imagem retirada do vídeo produzido por Eduardo Marcondes, Fernando Tabone e Felipe Maruyama)

Apesar de frequentemente associadas à Web, nem toda startup é uma empresa de internet. Elas realmente se disseminaram mais no meio cibernético, mas, segundo Felipe Maruyama, membro no Núcleo de Empreendedorismo da USP (NEU), isso só acontece porque essa ferramenta possibilitou a aproximação de pessoas com interesse comum em empreender, além de facilitar a comunicação entre elas e a expansão do negócio.

Segundo dados da revista Exame, as equipes são pequenas, sendo que apenas 4% das empresas pesquisadas possuem grupos com mais de 15 pessoas. Metade delas (49%) têm de um a três membros na equipe. Empresas intermediárias, com quatro a sete membros, representam 39% do total pesquisado.

Outro dado supreendente da pesquisa é que a maioria (71%) das startups brasileiras já está formalizada. Como nem todos os jovens empreendedores têm familiaridade com a área jurídica, a etapa de formalizar a empresa pode ser uma das maiores dificuldades. “As etapas de abertura de empresa, contrato social, certificados para emissão de nota fiscal e contratos com outras empresas, em geral, são muito mais exaustivas, demoradas e complexas mais do que deveriam ser”, opina Carlos Mansur, um dos fundadores do site Rabixo, lançado no início de 2012.

Carlos é um retrato dos novos empreendedores brasileiros. Tem curso superior e decidiu investir o conhecimento adquirido na faculdade em uma ideia. Já no mercado de trabalho há quatro anos, planejando e desenvolvendo sistemas de informática, reparou, junto com Diogo Vernier, que existia uma oportunidade no ramo de comércio online: homens deixam para comprar itens essenciais como meias e lâminas de barbear na última hora, quando o produto já está fazendo falta. Lançaram o Rabixo, site por meio do qual o cliente pode comprar seu “kit de sobrevivência” pela internet.

Além dos negócios

Assim como Carlos, muitos empreendedores começam a pensar em abrir seu próprio negócio ainda na faculdade. As universidades vêm mostrando-se verdadeiros berçários de empreendedores. De olho nesse movimento, os estudantes estão organizando-se e fundando grupos que apoiam os jovens empreendedores. Mais do que isso, o objetivo de alguns desses grupos é implementar a mentalidade de empreender e inovar. É o caso do Núcleo de Empreendedorismo da USP, fundado em 2010. “Não temos a restrição de apenas auxiliar as pessoas na hora de abrirem um negócio. Queremos implementar a proatividade e incentivar o protagonismo”, diz Felipe Maruyama, membro do NEU. O Núcleo tem membros de quase todas unidades da USP, reunidos pela mesma mentalidade empreendedora.

 

Proatividade e protagonismo são essenciais ao empreendedor. (Foto: Felipe Maruyama)

 

Diferente das empresas juniores, que têm um projeto que já existe e já está consolidado e, por isso, focam no ensino e aprendizagem de gestão, o NEU procura estimular as pessoas a terem ideias e colocá-las em prática. Para isso, são promovidos pelo Núcleo os Startupapos: uma vez por mês, empreendedores de sucesso vêm até a USP conversar com os estudantes, em um evento de inspiração. Além dos Starupapos, o NEU organiza o Programa de Embaixadores, em que são realizadas atividades e cursos de imersão e os participantes começam a se envolver em pequenos projetos.

Os planos futuros do NEU envolvem realizar um mapeamento, no qual seria reunido um banco de dados sobre empreendedores uspianos e uma análise sobre como cada faculdade pensa o empreendedorismo. Os membros da entidade também pretendem implantar o Staruplab, um programa de capacitação de pessoas que têm apenas as ideias. “O objetivo do Staruplab é fornecer conhecimento para as pessoas cujos projetos ainda estão no início”, completa Maruyama.

Incentivo e capacitação

A nona edição do Ser Empreendedor. (Foto: Nicolas Irigoyen)

Ainda dentro da universidade, a Poli Júnior realiza o Ser Empreendedor, evento que abriga uma competição de modelos de negócio e que já está, em 2012, na sua nona edição. Além da competição, que vai premiar o vencedor com R$ 10 mil, o Ser Empreendedor também organiza oficinas que ensinam os competidores a montarem seu plano de negócios. Durante uma semana, grandes empresas como Danone, Engeform e o site Vagas.com irão apresentar cases que tenham relação com o empreendedorismo. “Nosso objetivo é capacitar e estimular a vontade de abrir seu próprio negócio”, diz Bruno Andretto, membro da equipe organizadora.

Na opinião de Bruno, “o empreendedorismo é movido a parcerias, então nós também precisamos delas no nosso evento. Além do suporte financeiro e da reunião das informações, vencemos o preconceito das empresas em patrocinar um evento desse tipo, já que eles não querem empreendedores competindo com eles. Mas existe o intraempreendedorismo, que pode fazer a empresa crescer”, completa. Não é apenas a premiação que atrai os competidores. Conseguir atenção dos empresários é uma das principais dificuldades dos jovens empreendedores, então aqueles que já têm um negócio fazem do Ser Empreendedor um painel de divulgação.

Ajuda das alturas

Qualificação e competência do time empreendedor são as principais características que cativam investidores, segundo Cassio Spina, presidente da Anjos do Brasil, uma organização sem fins lucrativos criada para fomentar o crescimento do investimento-anjo no Brasil.

Os investidores-anjo são aqueles que dão aporte financeiro e estratégico para o empreendedor e sua empresa, acelerando seu crescimento. No Brasil, apesar de já existirem iniciativas individuais há muito tempo, o conceito e atuação ativa como investidor-anjo são relativamente recentes. Cenário que, no entanto, está crescendo rapidamente em função das condições econômicas do país e consequentemente do aumento do número de empreendedores de oportunidade, isto é, daqueles que buscam realizar um negócio a partir de um projeto e não por necessidade apenas. Segundo Spina, “o investidor-anjo busca retorno financeiro e também a realização pessoal de participar do lançamento de negócios inovadores”.

Existem muitos caminhos para buscar um investidor-anjo. Carlos, do Rabixo, e Cassio, do Anjos do Brasil, aconselham a buscar na rede de relacionamentos do empreendedor alguma indicação. A participação em eventos que deem visibilidade ao projeto também é bastante relevante, sugere Cassio. Mas o mais importante é não desistir. Não há só uma receita de sucesso, mas acreditar na sua ideia e se capacitar para realizá-la parece ser o caminho.

J.Press
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