Saúde

Trabalho voluntário: a felicidade levada a sério

Detalhes da atividade e vida de quem tenta animar o dia a dia dentro dos hospitais

Por Fernanda Maranha (fernanda.maranha@gmail.com)

Hospitais não costumam ser ambientes tão descontraídos ou agradáveis, mas muitos dizem que a felicidade é o melhor remédio para a saúde. A fim de trazer um pouco de alegria para pacientes de todas as idades, em diversas situações nos hospitais, existem os palhaços.

Com objetivo de tornar o ambiente melhor e estimular todas as pessoas que convivem nesse lugar, os voluntários não desejam apenas “fazer palhaçadas”, e acreditam que seu trabalho é, acima de tudo, um exercício de cidadania.

Como surgem os projetos?

A Operação Arco Íris (OAI) é uma instituição sem fins lucrativos. Fundada em 1994, a ONG realiza trabalho voluntário em quatro hospitais da rede pública – GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer), Hospital Infantil Menino Jesus, Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Hospital Infantil Darcy Vargas –, utilizando a técnica do palhaço com crianças e adolescentes. Hoje ela possui 48 integrantes e sobrevive de doações e vendas de produtos.

Soul Alegria realizando atendimento em Águas de Lindoia (Foto: Lis Ventura)

Outra instituição, a Soul Alegria, foi idealizada por Clerson Pacheco. Ele trabalhou em uma ONG como voluntário por cinco anos, e também como analista de treinamento em uma multinacional, por sete. Decidiu então profissionalizar o que fazia na ONG: agregou toda a experiência de dinâmica e treinamentos, de um ambiente sério como a multinacional, ao palhaço, criando esse projeto e o personagem Doutor Miojo.

Clerson oferece visitas gratuitas para a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) e para a Santa Casa, mensalmente, e tem um contrato de trabalho voluntário com a Secretaria Municipal da Saúde (SMS). Para que essa atividade possa acontecer, ele realiza palestras e visitas pagas a hospitais particulares. Clerson também dá aulas de relacionamento interpessoal na saúde, o que o ajuda não só na sua profissão, mas também a criar especialistas da saúde mais cidadãos.

Ser um voluntário

Hoje em dia, a vida está cada vez mais corrida, e tempo realmente vale dinheiro. Mas mesmo com toda a pressa intrínseca à vida de todos, estes voluntários encontram tempo para fazer o outro mais feliz. Ana Carolina Beleza, integrante da OAI, diz que com força de vontade e disposição, é possível conseguir tempo para se dedicar ao voluntariado. Já Daniela, que também faz parte desse projeto, alega que a falta de tempo é uma desculpa para tudo: “Descobri que tempo virou desculpa pra tudo, inclusive para dizer bom dia. Tempo nós conseguimos sempre que queremos fazer algo de verdade. A palavra é: ‘querer’, tempo a gente arruma”.

Dr. Miojo e Dra. Vivi Farfale no Hospital do Servidor Público Municipal (Foto: Arquivo pessoal)

É notório que ter vontade real de ajudar o próximo é imprescindível para atuar nessa área, afinal, trata-se de uma doação em prol da alegria de alguém desconhecido. Mas existem outras razões que motivam as pessoas a fazer tal atividade: “Sempre admirei o trabalho voluntário com crianças, e sempre tive comigo a ideia de levar carinho a quem precisa”, esse foi o impulsionador de Ana Carolina. Outros fatores muito estimulantes são o amor por criança e por ser palhaço.

Para participar da maioria desses projetos é necessário ter vontade, disponibilidade e comprometimento. A regularidade e tempo de visitas variam bastante: de uma vez por semana a duas vezes por mês. Uma exigência frequente é a de que o voluntário seja maior de 18 ou 21 anos. Algumas instituições oferecem também oficinas de capacitação e submetem os candidatos a um processo seletivo.

A profissão e a vida pessoal

É difícil evitar que a profissão influencie na vida pessoal, isso acontece tanto positiva quanto negativamente. “De proveitoso, o personagem faz o homem mais cidadão”, afirma Clerson Pacheco. Mas o envolvimento com casos graves perturba muitas vezes o psicológico do palhaço. Uma criança que não esboçava sorriso algum durante a visita do Doutor Miojo, o fez questionar a validade da sua profissão. Uma semana depois, quando essa mesma menina disse que o amava, ele percebeu que podia fazer mais que palhaçadas, fazer a diferença: “não importa o que você faz, mas importa você estar lá, como cidadão”.

Outros voluntários, membros do projeto Operação Arco Íris – Ana Carolina Beleza, Daniela Mansur, Mauro Fantini e Rodrigo Zanatta – também destacam a importância de estar agindo como cidadão: “eu vou para o hospital e a única coisa que levo comigo é a minha inteira necessidade de me relacionar com as pessoas, e desta relação pode surgir de tudo: choro, susto, riso e até alegria”, conta Daniela Mansur.

Para Ana Carolina, a experiência do palhaço é uma terapia, “sem contar que fico feliz e satisfeita em saber que levei um sorriso para quem precisa”. Rodrigo Zanatta acha que tal prática “interfere de todas as maneiras [na vida pessoal], sempre positivamente”. E ainda acrescenta que o voluntariado o tornou mais tolerante.

Porém, o sentimento de tristeza muitas vezes é inevitável. Rodrigo procura escondê-lo com a máscara do palhaço e, apenas quando sai desse esconderijo, se deixa abalar. Os meios de contornar os impactos negativos desse trabalho são diversos: alguns preferem conversar, dividir as experiências, enquanto outros usam essas sensações para fazer reflexões. Segundo Daniela Mansur, “diante de uma doença percebemos o quão incontrolável é o nosso futuro”.

Muitas pessoas têm suas expectativas quebradas e desistem de exercer esse trabalho. Não só pelo impacto psicológico e emocional que essa atividade propicia, mas também porque outras prioridades surgem: “muitas vezes trabalho, filhos, viagens e saúde acabam falando mais alto”, afirma Mauro Fantini.

O sorriso que desperta a vontade de ajudar (Foto: Arquivo pessoal)

Fazer a diferença

O avanço no tratamento é percebido por quem atua nessa área. Clerson conta que atendeu uma menina, que passou 10 anos em uma cama de hospital. Antes de ser visitada pelo Doutor Miojo, ela não mexia nenhuma parte de seu corpo, depois a garota fazia sons com a boca e realizava pequenos movimentos. “Só não podemos evitar a morte”, disse Doutor Miojo, que fez o que pôde para tornar mais agradável o tempo que restava a ela.

O trabalho de Clerson não é destinado a um tipo específico de pacientes, mas abrange desde UTI neonatal (Unidade de Tratamento Intensivo para recém-nascidos) até idosos. Em alguns hospitais ele até mesmo acompanha as equipes em cirurgias, quando o ambiente está muito tenso. Um exemplo do trabalho alternativo de Clerson é a sua presença no Teleton – um programa exibido pelo SBT que tem como objetivo arrecadar dinheiro para a assistência de pessoas com problemas de saúde – a fim de preparar e acalmar as crianças, e suas famílias, antes de expor uma deficiência em rede nacional.

J.Press
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