Cultura

Eu só quero é ser feliz, ouvir tranquilamente o funk que escolhi

A história do estilo muito criticado que arrasta multidões aos bailes e à internet

Por Aldrin Jonathan (aldrinjss@gmail.com) e Bruna Rodrigues (bru.rodrigues.silva@gmail.com)

Muitas vezes reativo, outras proibido, alguns eróticos ou ostensivos, mas todos com um ritmo muito marcante que chama o ouvinte para dançar. O funk possui uma longa trajetória de vida, tanto no Brasil como no exterior, e para entender como esse fenômeno atinge os jovens da periferia e os que estão fora dela é necessário voltar às suas origens e remontar a sua história.

O funk nasceu nos anos de 1970, tomando como base a música negra, no caso a soul music, o jazz e o R&B dos Estados Unidos, e teve o seu maior expoente em James Brown, que o transformou em um novo tipo musical. Seu principal hit, “Sex Machine”, levou esse ritmo para além das fronteiras norte-americanas, fazendo, desse modo, grande sucesso pelo mundo, inclusive no Brasil, onde foi tocado em rádios e bailes.

Em terras americanas, esse estilo de música modificou-se durante os anos, mas o que é muito curioso é que a inspiração para o funk carioca não vem diretamente de Brown e seus discípulos, mas sim de outro ritmo estadunidense que, além das batidas aceleradas, trazia uma forte insinuação sexual em suas letras. O Miami Bass fez muito sucesso entre as décadas de 80 e 90, tanto que esse tipo de hip hop atravessou o continente americano chegando à cidade maravilhosa.

O batidão na terra do samba

Primeiro álbum de funk lançado no Brasil em 1989. (Imagem: Divulgação)

Tudo começou no início da década de 1980, quando o DJ Malboro tentava os seus primeiros experimentos de mixagem que, em 1989, culminaram na criação do primeiro funk carioca: “O Melô da Mulher Feia”, cantado por Abdulah, e que fez parte do álbum Funk Brasil, do mesmo DJ. Continuando nessa mesma linha, na década de 90, o mais marcante foi o “Rap da Felicidade”, de Cidinho e Doca, que virou um hino para os jovens das comunidades, levando esse ritmo musical para além das fronteiras do Rio de Janeiro.

Na mesma década, outra dupla de muito sucesso foi Claudinho e Buchecha, com o seu primeiro álbum lançado em 1996, que alcançou a marca de um milhão e 250 mil cópias vendidas, com o hit de estréia: “Rap do Salgueiro”. Amigos de infância, os dois possuíam uma origem muito humilde no Bairro do Salgueiro em São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Iniciaram a sua carreira em bailes funks, além de ganharem um concurso de rap que abriu portas para a dupla. Outras músicas de sucesso de Claudinho e Buchecha que marcaram o movimento foram “Fico assim sem você”, “Quero te encontrar” e “Só Love”.

Primeiro álbum de Claudinho e Buchecha. (Imagem: Divulgação)

No novo milênio, diversos funkeiros apareceram, sendo que muitos causaram impacto com músicas de destaque e outros tantos ainda contagiam as ruas nos alto-falantes de seus ouvintes. MC Serginho com a sua “Eguinha Pocotó”, MC Leozinho com “Se ela dança, eu danço (Ela só pensa em beijar)”, “Cerol na mão” de Bonde do Tigrão, “Adultério” de Mr. Catra e “Créu” de MC Créu são bons exemplos. Mais recentemente, as mulheres também começaram a entrar nesse mundo antes povoado só por MCs e DJs masculinos, Perla com “Tremendo vacilão” e Tati Quebra Barraco com “Boladona” foram e ainda são sucesso.

Tati Quebra Barraco em seu álbum de estréia “Boladona”. (Imagem: Divulgação)

O funk vira paulista

Ao chegar aos dias de hoje, esse tipo musical ganhou mais um espaço além dos bailes funks, a internet. Com a facilidade e o advento dessa nova tecnologia amplamente disseminada, postar vídeos de clipes no Youtube virou a maneira mais recorrente de espalhar a música desses mais novos MCs. Foi a partir daí que o funk produzido em São Paulo começou a crescer e garantir uma legião de fãs dentro e fora do estado, sendo que o que o torna mais inovador é a criação de um grande tema: a ostentação.

A batida continua a mesma, o que muda é o enfoque das letras, ao invés de algo mais sexual ou crítico, o que está na moda é falar sobre artigos de luxo com altos preços, como carros, motos, roupas, bebidas e perfumes.

MC Danado, o “Top do momento”. (Imagem: Divulgação)

Essa tendência observada é denominada funk de ostentação e traz para seus ouvintes o desejo de ascender socialmente, e poder, enfim, se aproximar mais do universo de itens que antes só fazia parte dos seus sonhos. No caso dos funkeiros que lucram muito com a repercussão desse gênero musical, é possível dizer até que esses sonhos se realizam.

Os tops do momento

“Top do momento” é um dos grandes representantes de toda essa ostentação, sendo o funk cantado por André Moura, 31 anos, nascido na Zona Leste e conhecido como MC Danado. Ao fazer sucesso na internet, a sua única divulgação foi um clipe lançado há seis meses no Youtube, que hoje conta com aproximadamente dez milhões de acessos. Ele tira a maior parte de seu sustento dos shows realizados, cerca de 50 por mês, recebendo quantias em torno de cinco a sete mil reais por apresentação.

MC Guimê, cantor do sucesso “Tá patrão”. (Imagem: Divulgação)

MC Guimê, aos 19 anos, já é um grande exemplo do seu gênero. Intérprete do grande sucesso “Tá patrão”, chegou aos 12 milhões de acessos no Youtube. Por causa desse som foi parar na MTV, o que ocasionou uma visibilidade ainda maior, possibilitando o estabelecimento de um projeto de música em parceria com o famoso rapper Emicida.

MC Pocahontas, não é paulista, mas, sim, carioca e já se tornou adepta desse movimento. Aos 17 anos, canta a música “Mulher no poder”, que fez grande sucesso virtualmente. Ela possui outras letras com impacto mais sensual, entretanto, seguir essa tendência paulista não a fez perder seus fãs no Rio.

O berço do funk no Brasil foi a periferia, por isso a importância desse estilo musical para seus moradores. E se você tem vontade de conhecer um pouco mais sobre essa batida que contagia todos aqueles que se propõe a experimentá-la, não perca o relato da transformação pela qual passou o nosso repórter, depois de se dispor a conhecer o funk, livre de qualquer preconceito. Em entrevista a ele, E.B, um jovem de treze anos, conta suas experiências com o funk.

A mudança de um repórter – com Aldrin Jonathan

Perguntei como quem gostaria de uma simples informação: Conhece algum funkeiro por aqui? Estou fazendo uma reportagem sobre o funk. Seus olhos abandonaram as fotos do facebook, fitaram o céu e se entregaram a uma expressão debochada. “Está falando com a pessoa certa. Eu amo o funk”. O funk nasce nos braços da comunidade. É sua realidade intrínseca: mesclada de vida, fé, narrativa. Une num mesmo som, num mesmo credo, os irmãos na palavra que aprendem desde cedo: humildade.

Seus olhos brilhavam, lucidez. Tão logo começou a enumerar filas de nomes de MC’s, seus ídolos e, por vezes, parceiros de dramaturgia. O que mais o impressiona é o fato de que embora muitos cantores da comunidade façam sucesso e ganhem muito dinheiro, eles nunca abandonam a humildade e o lugar onde nasceram. Do alto de sua sabedoria de treze anos, E. B ensina: “foi por ser pobre que sou humilde (…) A humildade é que cativa”, surpreendeu-me o menino. A humildade aqui anda de mãos dadas com a simplicidade, com o saber exatamente o que se é. A incerteza desse mundo os faz buscar a companhia fraterna de um irmão em sina.

“O que importa é a humildade que o funkeiro tem um com o outro e fé em Deus”. Talvez Deus tenha um carinho especial por esses meninos que desejam trair o destino do mundo de contrastes com música. “Deus deu a Terra e as coisas para usufruirmos delas”, completou com um ar de sinceridade. “Quanto mais se tem, mais se quer”, disse ainda. Eis a lógica capitalista mais bruta: acumular mais e mais capital.

O funk, em uma perspectiva não generalizante, pode ser entendido sob variados aspectos. Pode ser compreendido como uma forma de protesto social. O movimento nasce da vivência em comunidade, nasce como um dar voz a quem não tem voz, porque está calado pela mídia e pela sociedade desigual. Mas o funk de ostentação parece se transformar em um protesto inconsciente. Os funkeiros entenderam as entranhas capitalistas desde quando estas eram apenas sonho: Quem não é visto não é lembrado.

A burguesia que reclamou durante séculos o poder político ensina a dinâmica da ascensão social: a via econômica. A ostentação musical é caudatária da burguesia sedenta pelas regalias aristocráticas. O discurso é semelhante e se insere no sistema neoliberal e “globalizante”. O grande problema, no entanto, é a enorme fissura social ocasionada pelo mesmo modo de produção há tempos combatido energicamente por Marx. Como se ostenta sem capital? Sem condições mínimas para tê-lo? Sem deter os meios de produção para isso?

O sonho de seguir uma carreira de MC é também para E.B a busca por uma vida melhor, longe da agudeza social que rebaixa o ser humano à exclusão. Por meio do funk, há uma tentativa sincera de almejar vôos mais altos, mais dignos. Nossa sociedade condena e criminaliza o “jovem favelado”. A ascensão social é possível, mas tem seus limites, arrasta consigo o suor milagroso de cada dia, as lágrimas e a dor de quem insiste em lutar por um futuro melhor. “Há dois caminhos”, me dizia E. B. “Tudo que aprendi foi escutando os ensinamentos de minha mãe e do meu tio. Os conselhos deles são iguais os de Deus”. Eu escutava atentamente aquela aula de como se tornar raro. Sinto-me um nada perto de sua experiência de vida, cuja face de treze primaveras me deixa envergonhado. “Aprendi as coisas apanhando da vida”.

Os dois caminhos proféticos são um emaranhado de certezas e incertezas. “Se eu for procurar emprego no Banco Itaú, levo meu currículo, assino papéis etc. Ao verem minha cor e descobrirem que sou morador de favela dirão que meu passado não é legal. Mas que passado? Condenam-me por ser pobre e morador de favela”. Seus olhos estão encharcados de razão. Estão mergulhados numa realidade que eu desconheço. Há uma ânsia de todos, sobretudo da juventude, por uma vida melhor. Isto significa uma vida digna que ofereça moradia, alimentação, conforto. Sem apuros no fim do mês, sem a preocupação de como vou me alimentar, vestir-me, viver.

O submundo do crime mostra-se como alternativa mais acessível a garotos que também sonham em ter uma realidade diferente, que sonham com um tênis da Nike, óculos da Oakley, relógio Rolex. “Vida é ter um Hyundai e uma Hornet, dez mil pra gastar, Rolex e Juliet”, como diria a música “Top do momento” de MC Danado. O funk mostra-se como a expressão de outro caminho para se alcançar aquilo que se quer. Mas descola-se do rap nesse sentido, passando a reivindicar concessões. Eis que o capitalismo irmana a todos, pobres e ricos, na posição de consumidores. O problema do discurso consumista é a acomodação, há um problema de ordem socioeconômica por trás dele, que constantemente se aceita sem contestação.

“Mulher no poder” é seu maior sucesso atual

O que você acha de MC Pocahontas? – perguntei. A resposta veio com outro questionamento: “Que exemplo que ela tá dando para as outras meninas?” Seriamente mostrou-se contra a desvalorização da mulher, como mercadoria de sexo, embora tenha confessado que muito do funk ostentação as pormenorize. Há uma relação bem clara entre mulher-homem nas músicas. Quando a MC é uma garota, ela passa a ser dominadora, passa a ter poder na relação. Quando é um homem que tem a voz, o contrário. São inúmeros vídeos e clipes que mostram sempre uma ou várias garotas dançando ao lado de carros e motos de luxo.

Não dá para recriminar o discurso ostensivo do funk. Não é raro se deparar com a mídia, aquela que deveria suscitar debates, tratando seus leitores não mais como cidadãos pertencentes a uma esfera pública preocupada com a verdade, mas como meros consumidores, até mesmo de notícia. O discurso publicitário de garantia do direito do consumidor legitima a sociedade consumista. Não se trata apenas de um tênis, óculos, camiseta. É a marca que importa. Como se ela me envolvesse de um brilho característico, inserisse-me num grupo de notáveis. Com ela, posso até ter as mulheres que quero. Com ela posso tudo, pois sou visto e idolatrado.

J.Press
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