O fantástico mundo da leitura

Desde os best sellers infantojuvenis ao consagrado e erudito mundo dos clássicos, a leitura está coberta de magia, e também de polêmicas

Por Ana Lourenço (carvalho.ana37@gmail.com)

Desconhecendo a verdadeira história de seus pais, um garoto órfão mora com seus tios, que o impedem de saber a verdade. É resgatado de seu mundo, comum e banal, e levado a confrontar a verdade que procurava: ele é muito diferente e possui poderes que jamais imaginou. Porém, essa descoberta o levará a ter que assumir grandes responsabilidades. Uma profecia, um destino: derrotar o mal. Com os conselhos de um sábio ancião e a ajuda de fiéis amigos, ele partirá nessa jornada existencial e encontrará seu pior inimigo, conectado a ele de forma irreversível.

A descrição acima lembrou o bruxo britânico Harry Potter? Na verdade, trata-se de um personagem separado deste por duas décadas: Luke Skywalker, da franquia de sucesso Guerra nas estrelas. A desconcertante semelhança entre os dois protagonistas não é obra do acaso: a construção do heroi é feita, segundo um estudo do antropólogo Joseph Campbell, seguindo certos preceitos fundamentais. Para ele, a jornada do heroi segue algumas etapas, passando pela apresentação do mundo comum, em seguida pelo “chamado à aventura”, o encontro com o mestre ou guia, as dificuldades enfrentadas pelo caminho, e tudo levando ao confronto final com o grande vilão. A fórmula é simples e mais comum do que parece, visto que a maioria das narrativas possuem, se não todas, pelo menos algumas dessas características. É a receita para o sucesso? Definitivamente. A explicação pode residir na intensa identificação do leitor com o heroi, que sempre sai de uma existência comum, semelhante à de quem lê. Seja em filmes, quadrinhos, seriados, animes ou livros, a experiência é a mesma. E assim se faz uma lenda.

 

A evidente semelhança entre as histórias de Harry e Luke traz à tona a "jornada do heroi" (Fonte: Comic Book Resources forum)

 

A literatura adolescente

São sagas de livros milionárias. Mal são postas à venda, os estúdios se aglomeram para comprar os direitos de adaptação cinematográfica. A gigantesca franquia Harry Potter é apenas uma das precursoras dos grandes sucessos que se seguiram. Tudo isso prova que a fantasia nunca esteve tão em alta quanto nos últimos anos. Mesmo sagas de livros escritas há mais tempo, como As crônicas de gelo e fogo de George R. R. Martin, foram redescobertas pela mania de fantasia que vem tomando conta das produções de entretenimento.

Com o lançamento de Crepúsculo, um novo panorama surgiu: a fantasia como ferramenta para o tema central da obra, que é o amor. Esses livros são majoritariamente direcionados ao público das garotas adolescentes, que se sentem contagiadas pela magia de suas histórias. Porém, toda essa geração de best sellers fantásticos não é muito bem vista por professores, que torcem o nariz frente à ideia de utilizá-los em sala de aula, além de leitores mais velhos e aqueles que se julgam mais cultos ou eruditos. Há que se fazer justiça: esses críticos estão certos? Há, realmente, menor valor literário em J. K. Rowling ou Stephenie Meyer do que em Machado de Assis ou Liev Tolstói?

Alessandro Martins, editor do blog literário Livros e Afins, afirma: “Eu poderia dizer que Dom Casmurro é menos prazeroso por conter menos ação que Harry Potter. Ou eu poderia dizer que Harry Potter é menos prazeroso por conter menos densidade psicológica e ironia que Dom Casmurro. Há leitores para todos os gêneros”. Haver ou não densidade psicológica, críticas sociais ou outros elementos que engrandecem os clássicos não necessariamente configura o fato de uma obra ser mais importante ou melhor do que outra. O público a que toda obra se direciona deve ser levado em conta antes que qualquer crítica seja feita. Deve-se considerar, também, as dissonâncias entre o olhar de cada leitor, que possui sua própria bagagem cultural. “Talvez o leitor de fantasia encontre ação em Dom Casmurro e o de Machado encontre densidade psicológica em Harry Potter, se olhar sob o ângulo certo”, completa Alessandro.

 

A extensa fila para a estreia de Eclipse, no Brasil, mostra o grande sucesso das franquias fantásticas (Fonte: Portal R7)

 

Outro aspecto que envolve o gosto literário dos jovens, em especial adolescentes, é o desprezo que eles parecem ter por livros que sejam antigos demais. Isso é propagado por muitos pais e professores, que alegam que a juventude atual gosta de literatura de “baixa qualidade”. Na visão de Felipe Santos de Torre, professor e especialista em literatura brasileira pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), “esse ‘desprezo’ pode vir por causa da má exploração do conteúdo em sala de aula, visto que muitos professores são despreparados, além da correria pautada pelo currículo escolar. E também deve-se ao fato de a geração atual estar condicionada a um ritmo acelerado. Muitos jovens não têm paciência para a leitura de livros extensos”. Os clássicos literários, também, geralmente implicam em conhecer uma realidade muito diferente da do leitor, seja em relação à época em que foram escritos ou ao local onde o enredo toma lugar.

Lidar com esse tipo de conhecimento pode parecer fascinante para um leitor mais experiente, mas não se pode nem se deve esperar o mesmo de uma pessoa que ainda está com a personalidade em formação. Anna Schermak, blogueira do Pausa para um café, explica que, na sua opinião, “os livros clássicos brasileiros são lidos em idades erradas por esses adolescentes. Não é justo jogar um adolescente de 14 a 16 anos para ler José de Alencar ou Machado de Assis. São livros que envolvem questionamentos que nessa idade ainda não temos”. Apesar disso, talvez não haja muita justiça em dizer que os jovens não mais apreciam os bons valores de antigamente. A psicóloga Ana Laura Martinez, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências de Ribeirão Preto (FFLCRP-USP), afirma que “[a saga Crepúsculo pode ser] uma releitura pós-moderna da saga de Romeu e Julieta, embora, obviamente, investida de uma roupagem mais moderna, porque os jovens talvez não tenham muita paciência para acompanhar as falas romanescas e rebuscadas de Shakespeare. Shakespeare é digerível para quem viveu e foi constituído num universo simbólico e histórico que era regido por um outro tempo”.

Despindo a questão da polêmica que envolve a presença ou não do valor literário nas obras lidas pelos adolescentes, não se pode negar que há um grande trunfo na literatura comercial para os jovens: desenvolver o gosto pela leitura. Se uma vez era difícil inserir essa paixão na vida dos adolescentes, que não tinham ou têm paciência para sentar e devorar um calhamaço de 400 páginas, hoje é muito mais fácil inseri-los no grupo dos leitores ativos.

Os best sellers podem ser o incentivo necessário para mobilizar um povo desacostumado à leitura, como o é o brasileiro, a engrossar as filas dos amantes de livrarias e sebos. O professor Felipe Torre afirma: “já cansei de pedir para muitos alunos pararem de ler em sala, pois estavam dispersos ao conteúdo da aula. Meus alunos adoram ler os best sellers, mas já chegaram assim à escola. Eu acho ótimo, porque na verdade essa ideia de livros certos é equivocada. Meu papel como professor de literatura é lapidar meus alunos no intuito de mostrar que, além desses livros que eles adoram, existe uma lista infinita de outros que, de certa forma, irão também colaborar para seu desenvolvimento cultural e linguístico”.

A fantasia cotidiana

Mesmo que Crepúsculo possua sua base de fãs inabaláveis majoritariamente concentrada no público adolescente, não se pode negar que o amor à fantasia é muito mais generalizado. A própria saga Harry Potter, lançada há 15 anos, tem fãs de todas as idades, embora muitos deles sejam aqueles que cresceram lendo. Porém, a literatura fantástica voltada para um público mais velho faz um sucesso estrondoso também, vide a franquia As crônicas de gelo e fogo ou O senhor dos anéis. Não há dúvidas: a fantasia faz parte do cotidiano de todos. Desde a criança que, quando faz 11 anos, sonha em receber a carta de Hogwarts, até o adulto que adoraria ser um dos cavaleiros de Westeros, a fantasia predomina.

Mas qual seria o motivo desse fascínio que impera nos enredos fantásticos? Retomando o conceito colocado no início: todo heroi da fantasia tem uma identificação com o leitor. Seja partindo de um mundo normal, seja por possuir as mesmas angústias e fraquezas das pessoas, o heroi tende a ser comum. A identificação ocorre justamente aí quando, no íntimo, o leitor pensa: “poderia ser eu” e se vê inserido, através dessa conexão com o heroi, em um mundo muito mais fascinante, em que tudo pode acontecer. “Os livros fantásticos nos ajudam a esfriar a cabeça, são uma forma de terapia, uma volta ao tempo em que sonhar era muito mais real do que nos dias atuais. Eu, pessoalmente, sou apaixonada pelo gênero fantástico pelo simples motivo de tudo ser possível”, afirma Anna Schermak.

 

Com a série As crônicas de gelo e fogo, a literatura fantástica retomou o público adulto (Fonte: Blog Techquila)

 

Ainda assim, fantasiar a realidade é algo mais comum entre as pessoas do que perder-se em meio a dragões e elfos em um livro. A questão é mais profunda e está na essência do ser humano. Segundo a psicóloga Ana Laura, “o ser humano, desde os primórdios, tem necessidade de criar, de fantasiar a partir da realidade. Quando uma criança, por exemplo, pede inúmeras e inúmeras vezes para que sua mãe ou pai lhe contem a história da Chapeuzinho Vermelho, o que ela está fazendo? Na verdade, ela está tentando elaborar, através da fantasia, vivências e angústias do seu momento de vida”. A fantasia, então, se torna uma expansão da realidade. Se tudo é possível, pode-se ser tudo. Com as narrativas fantásticas, o desejo de sair de sua existência comum e, assim como seu heroi, partir para uma aventura, alucina os fãs. Muitas vezes dá-se vazão à realização dos desejos mais íntimos de alguém por meio do poderoso instrumento da fantasia.

“Na literatura fantástica e em outros gêneros notoriamente imaginários temos a possibilidade de realizar aqueles desejos, pulsões e ambições que em nossa vida real não podemos realizar, seja por medo, repressão ou impossibilidade física e social mesmo. É mais fácil aceitar que certas coisas são possíveis apenas em universos fantásticos do que admitir que não as realizamos apenas porque somos social e moralmente incapazes”, afirma Alessandro Martins. Além disso, também pode-se considerar o desejo de visualizar uma realidade melhor, em que tudo seja mais feliz e menos frustrante do que a vida real. Porém, será que é apenas na literatura fantástica que essa “fuga da realidade” ocorre? Para o professor Felipe Torre, “qualquer livro literário carrega consigo o emblema de sair da realidade maçante e limitada da vida, assim como as demais categorias artísticas”.

Dá para dizer, portanto, que a literatura fantástica é uma simples “válvula de escape” para seus leitores? De maneira alguma. Além do reconhecido valor literário de muitas obras fantásticas, também devemos entender que a própria fantasia tem um valor imensurável. Nas palavras da psicóloga Ana Laura: “o gênero fantástico tem preferência universal não porque serve para ‘fugirmos da realidade’, mas porque exatamente nos auxilia a entrar em contato com nossa realidade interna. É como se estas histórias fantásticas fossem uma espécie de espelho mágico que reflete o que se passa dentro da mente. [Donald] Winnicott, um psicanalista importante, tem uma frase que eu gosto muito: ‘somos pobres se somos apenas sãos’. Com isso, ele chama a atenção para o fato de que empobrecemos também se ficamos totalmente aprisionados na realidade concreta”.

Ah, os livros…

Apesar das polêmicas que rodeiam o gosto literário, não há dúvidas: a literatura é mágica. Não no sentido literal da palavra, mas sim naquele que é mais amplo. Seja qual for o enredo, o tempo, o autor, a leitura proporciona um aprendizado sem igual. Apesar de parecer um verdadeiro clichê, qualquer alucinado por livros possui sentimentos ensopados de pieguices quando se trata de uma obra do tipo. Mesmo que se discuta os valores literários, a profundidade, ou o que quer que seja que componha uma verdadeira obra prima, cada livro é único em si, modificando e amadurecendo muitas mentes, mesmo que seja indiferente a muitas outras. Esse é o valor que não se pode negar.

Segundo o blogueiro Alessandro Martins, “ a literatura é uma das melhores formas de conhecer o outro, o olhar que o escritor tem do mundo através dos olhos dos seus personagens. É um jogo de espelhos em que me vejo e, ao mesmo tempo, vejo o que é diferente de mim. Gosto muito de Jorge Luis Borges, que na síntese e na lógica consegue apresentar o universo de maneira poética”. Para a psicóloga Ana Laura Martinez, “se eu me permito ser penetrada pela história, ela irá me modificar e eu a ela. Por isso, nunca duas pessoas terão a mesma interpretação de uma obra de arte, seja ela qual for, porque nós também modificamos a obra. Desta forma, acredito que uma obra de arte tem este sentido de ser particular e universal ao mesmo tempo”.

Nas palavras da blogueira Anna Schermak, “o livro começa a mudar nossas emoções para depois começar a mudar nossos atos. Muitos personagens nos inspiram, nos transmitem paz; outros nos deixam até mesmo com raiva. E muitos nos influenciam nas tomadas de decisões”.

Já para o professor Felipe Torre, “ninguém continua igual ao terminar um livro. Nós acabamos adquirindo um novo conhecimento, uma nova vivência. Os autores escrevem para continuarem existindo de alguma forma, pois deixam sua marca no tempo. Já o restante das pessoas dedica seu tempo à leitura para saber que existem enquanto seres humanos. Antonio Cândido, grande professor e crítico da área literária, revela que a literatura tem o poder de humanizar as pessoas, ou seja, de ampliar a nossa condição enquanto sujeitos. Essa pausa da realidade externa que fazemos, ao ler um livro, colabora justamente para potencializar ela própria”.

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