Ciência

Construções sustentáveis do piso ao teto

Tecnologias verdes aplicadas à construção civil reduzem custos de operação de edifícios em fase de funcionamento

Por Marina Salles (marina.salles.jor@gmail.com)

A palavra sustentabilidade virou sinônimo de consciência frente aos problemas enfrentados pelo caráter finito de importantes recursos naturais. Mas, além da disseminação de um discurso pró-preservação ambiental, o que mais tem sido feito para evitar problemas futuros? No campo da construção civil, empreendimentos planejados com cautela apontam para a gestão de edifícios sustentáveis, que a médio e longo prazo têm sido exemplo de como é possível investir agora para economizar mais tarde. Assim, além da natureza ser beneficiada, novos estímulos garantem o apoio dos grandes empresários à “tsunami verde” que está cada vez mais popular no mundo todo. Fruto de iniciativas nacionais e internacionais, alguns desses projetos foram apresentados na terceira edição da Conferência GreenBuilding Brasil, um encontro que contou com a presença de especialistas do setor da construção sustentável e de profissionais ligados ao ramo, em sua maioria arquitetos e engenheiros.

Exemplo de sucesso na Índia

Parte do projeto da Indústria Bayer MaterialScience, que tem como objetivo desenvolver construções sustentáveis, o EccoCommercial Building levantado na Índia, em janeiro de 2011, é exemplo no setor de edifícios autossuficientes em energia. Segundo Fernando Resende, representante da empresa na Conferência, esse tipo de iniciativa precisa ganhar ainda mais espaço, porque os problemas climáticos persistem, assim como o aumento da taxa de urbanização e o crescimento populacional. “O planeta é o mesmo, precisamos otimizar isso”. Com 900 m² e capacidade para abrigar até 40 estações de trabalho, o empreendimento reflete não só a possibilidade de se reduzir o consumo de água e energia, mas também a viabilidade econômica de se fazer um investimento desse porte.

O Programa Ecco CommercialBuilding é responsável também pela construção de edifícios como esse na Alemanha, nos Estados Unidos e na Bélgica, estando em fase de desenvolvimento dois outros projetos no Brasil e na China. (Imagem retirada de: Mapolis Magazin)

Tratando da importância de se reduzir custos ainda na fase de projeto, o coordenador do programa no Brasil acrescenta: “Uma média de 80% dos custos estão na fase de operação, o que demonstra como um bom planejamento faz toda a diferença”. Localizado na região industrial de Noida, cidade próxima a Nova Delhi, o edifício consome até 50% menos energia do que os prédios da vizinhança. Isso porque conta com a instalação de fontes energéticas fotovoltaicas (placas instaladas no telhado que captam a energia solar transformando-a em energia elétrica) e faz uso de um diferenciado sistema de luminosidade, que controla simultaneamente a entrada de luz e de calor.

Construído com tecnologias capazes de se adequarem a um clima variado, que apresenta temperaturas altas no verão e um frio intenso no inverno, o edifício está adaptado ainda ao fenômeno das monções (período de chuvas constantes), muito comuns no norte da Índia. Dessa forma, foram instaladas, por exemplo, janelas operáveis, que podem ser mantidas abertas ou fechadas a depender da estação do ano; assim como um sistema de isolamento térmico planejado para que o conforto no interior do prédio seja mantido independentemente do clima externo.

Idealizado para gerar a compensação do investimento em no máximo dez anos, esse empreendimento contribui mês a mês para a economia de recursos naturais e de dinheiro nas principais contas que cercam um edifício em funcionamento. Em junho desse ano, o Programa Ecco Commercial Building foi condecorado durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, evento associado à Rio +20, com o prêmio “Melhores Práticas Globais em Construção Verde” oferecido pelo Fórum Global sobre Assentamentos Humanos.

Certificações

Para atestar a sustentabilidade de um empreendimento foram criadas certificações como o selo LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), implementado, no Brasil, com a chegada da ONG Green Building Council Brasil (Conselho de Construção Sustentável do Brasil) em 2007. Apoiada por mais de 500 empresas que buscam praticar ações sustentáveis, a organização não governamental oferece também cursos voltados para o setor, a fim de colher novos frutos por meio da educação sócio ambiental. Presente em sete capitais brasileiras, o Programa Nacional de Educação já atendeu 33 mil profissionais, seja em cursos de curta duração, especializações ou MBA.

Atualmente, o Brasil conta com 65 empreendimentos certificados, sendo que outros 525 buscam conquistar o selo. Números esses que, em conjunto, colocam o país na quarta posição no ranking mundial de construções sustentáveis. Resultado da soma de pontos, adquiridos em cada requisito específico colocado pela GBC Brasil, a certificação possui quatro versões diferentes, que podem ser aplicadas a um total de oito tipos de empreendimentos. Entre os principais requisitos analisados estão: reciclagem de materiais e recursos, inovação e tecnologia, eficiência energética e qualidade dos ambientes internos da edificação. Ao todo, no Brasil, existem sete quesitos previamente determinados, sendo possível dar início ao do registro do seu projeto de certificação por meio da plataforma LEED On line.

 

As quatro versões da certificação LEED. (Imagem: Divulgação)

 

Outro selo reconhecido pelo mercado da construção sustentável no Brasil é o Processo AQUA (Alta Qualidade Ambiental), que possui o diferencial de ter sido desenvolvido internamente, permitindo uma maior identificação dos critérios de análise com a realidade brasileira. A certificação é resultado do trabalho da Fundação Vanzolini, instituição privada, sem fins lucrativos, que foi fundada e, hoje, é administrada por professores do Departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Baseado em um modelo francês de certificação, o selo AQUA possui 14 critérios de avaliação das edificações.

Copa do Mundo 2014

No Brasil, um grande estímulo ao mercado das construções sustentáveis tem sido os empreendimentos planejados para sediar o Mundial de futebol. Pensadas para obter, no mínimo, a certificação mais simples do selo LEED, as arenas onde vão ocorrer os jogos visam aliar projetos bem concebidos a uma cuidadosa realização das obras.

Nas palavras da coordenadora de sustentabilidade da Concremat, empresa responsável por parte do projeto de construção da Arena Pantanal, em Cuiabá: “é necessária uma integração muito grande dos atores envolvidos, sendo um planejamento para a sustentabilidade importante para mitigar impactos”. Nesse sentido, ela defende que algumas medidas simples podem fazer a diferença já no início da construção: “optamos por fazer a prevenção e controle da poluição ambiental, limpar semanalmente o entorno do canteiro, fechar os taludes, umedecer os caminhos que levam [os caminhões e carros] até a obra, controlar os sedimentos lançados no corpo hídrico do entorno e reciclar até 90% dos resíduos gerados”.

 

A expectativa é de que a obra seja concluída em dezembro de 2012. (Imagem: GPC Arquitetos)

 

Dessa forma, tanto ela como a diretora executiva da GPC Arquitetos, Alessandra Araújo, uma das responsáveis pelo mesmo projeto, acreditam que é possível convencer os empresários do setor de que esse tipo de prática também contribui para a redução de custos com os empreendimentos. “A captação da água da chuva resulta em uma economia de água que chega a 30%. Sendo que, o paisagismo feito com espécies nativas reduz a necessidade de irrigação[, economizando água também]”, exemplifica Alessandra.

Segundo dados divulgados pela Reed Exhibitions Alcantara Machado, organizadora da Conferência GreenBuilding Brasil, é possível afirmar que adotando medidas sustentáveis pode haver uma redução média de até 9% no custo de operação de um empreendimento durante toda a sua vida útil.

A última hora

Lançado em 2007, o documentário traça um panorama sobre a relação do homem com a natureza. (Imagem: Divulgação)

Mais uma vez, tratando da simplicidade e da importância dos recursos naturais para a manutenção das mais diversas atividades do nosso dia a dia, o documentário A última hora revela por meio da fala de cientistas e especialistas no assunto informações que, na maioria dos casos, nem sequer fazem parte das nossas estimativas.

Em depoimento para a produção do filme, David Suzuki (cientista e ambientalista) afirma: “Algumas tecnologias nunca seriam capazes de fazer o que a natureza faz. Por exemplo, polinizar as plantas floríferas. Qual seria o custo de tirar o gás carbônico do ar e devolver oxigênio? Coisa que a vegetação faz para nós de graça? É possível dar uma estimativa aproximada do custo de substituir a nossa natureza. O Dr. Robert Constanza [autoridade mundial em estudos a respeito do valor econômico dos serviços oferecidos pelos ecossistemas terrestres], isso já tem alguns anos, estimou um custo de 35 trilhões de dólares por ano para se fazer o que a natureza faz para nós de graça. Para se entender isso, somando-se todas as economias anuais de todos os países do mundo, naquela época, o resultado seria de 18 trilhões de dólares. Então, a natureza fazia para nós o dobro do trabalho desempenhado pelo conjunto de todas as economias do mundo. E na insensatez das economias convencionais, isto não é incluído”.

Resultado da iniciativa do ator Leonardo DiCaprio em tentar aproximar a realidade enfrentada pela Terra da série de transformações naturais aceleradas pelo homem, A última hora apresenta uma gama de motivos para nos empenharmos cada dia mais na missão de tomar atitudes frente à destruição daquilo que temos de mais valioso: o próprio planeta que habitamos.

J.Press
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