Política Sociedade

O que brilha nos olhos da mídia

Você leu, viu ou ouviu falar da greve nas federais? Saiba porque certos assuntos têm destaque na mídia e outros não

Por Ricardo Kuraoka (ricardo.kuraoka@gmail.com)

“No dia 17 de maio de 2012, mais de 95% das instituições federais de ensino superior entraram em greve. Houve muitas manifestações que pararam as aulas prejudicando o andamento do calendário. As negociações foram muito complicadas, mas os professores acabaram aceitando o reajuste salarial de 40%. Agora, com a volta das aulas, alunos e professores se desdobram para recuperar o tempo perdido”. Essas informações predominaram nos noticiários durante o período da greve. A abordagem da mídia em relação aos acontecimentos foi muito questionada pelos envolvidos. Estaria ela cumprindo seu papel?

As universidades estão paradas

Alunos e professores que, de alguma forma, participaram do movimento criticaram duramente o modo como os meios de comunicação se portaram frente às manifestações. “O que eu ouvia da mídia na verdade era muito pouco sobre os motivos da greve. Geralmente diziam apenas que estava parado, se muito, mostravam um aluno que estava se sentindo prejudicado com a greve” disse em entrevista Caio Bexiga, 18 anos, estudante de direito pela UnB (Universidade de Brasília).

Em protesto, professores promovem carreata fúnebre que simboliza o descaso com a situação enfrentada pelas universidades federais brasileiras (Foto: Luiza Fernandes)

Segundo ele, os principais motivos da greve mal receberam atenção, como a delicada questão trabalhista dos professores e como isso afeta a qualidade do ensino. Essa postura é notada não somente na greve das federais, mas também em muitos outros movimentos. Em greves de outros grupos como caminhoneiros, bancos ou correios há uma tendência de se priorizar o incômodo criado na população em detrimento de informações mais precisas do acontecimento como um todo. No caso dos caminhoneiros, ganham as manchetes, por exemplo, problemas ocasionados pela crise de abastecimento gerada por uma possível greve, sendo deixados de lado os motivos que geraram a manifestação.

Diferentemente desses serviços, é ainda mais difícil fazer com que a greve em escolas ou faculdades tenha repercussão. Isso porque não há um contato muito grande do evento com as pessoas de fora da universidade e o assunto acaba se tornando algo interno e pouco relevante para a população.

Por que o brasileiro precisa saber das greves?

Segundo o Ministério da Educação (MEC), em 2010, apenas 14% dos brasileiros estavam matriculados em cursos de ensino superior, sendo que o governo federal pretendia chegar a 30%, de acordo com o Plano Nacional de Educação (PNE). Isso mostra como os brasileiros estão distantes da realidade acadêmica, com a dificuldade no ingresso em instituições públicas e a exigência de se entrar logo no mercado de trabalho. Por que então deveria ser de interesse desse brasileiro que a mídia tratasse das greves? Dennis Oliveira, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) fala sobre como essa visão está equivocada. “A universidade não diz respeito somente a quem está dentro dela. Claro que somos os principais interessados, mas não deve se enxergar desse modo. Nós temos o ensino público, fundamental e médio, de baixa qualidade. Em boa parte isso acontece porque a formação dos professores e profissionais de ensino é deficitária e quem faz essa formação é a universidade”.

Há ainda uma grande distância entre a população e as universidades públicas, ainda que elas sejam sustentadas com impostos. As atividades de extensão e pesquisa são um exemplo disso. O problema é que esse retorno à sociedade não é claro nem muito divulgado, o que gera dúvidas em relação à transparência e também ao quanto o que acontece dentro da universidade é de importância popular. Saber que uma universidade não está funcionando como deveria também é um modo de ver que o dinheiro dos contribuintes pode não estar sendo bem aplicado.

(Foto: Luiza Fernandes)

Leonardo, estudante de Química pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) fala como a falta de informações sobre a greve dificultou o entendimento dos dois lados da discussão: o dos professores e o do governo. “Muitas pessoas achavam que a greve não era legítima porque não sabiam das propostas dos professores. Se os dois lados tivessem mais informações do que estava acontecendo, a proposta seria mais divulgada e as pessoas poderiam ver mais sentido na exigência dos professores e também veriam mais sentido no motivo do governo não estar dando isso para eles. Não é tão difícil parar para ler as propostas, mas isso não chegava nas pessoas. Era complicado ver qual lado tinha mais apoio da população porque ninguém fazia ideia do que estava acontecendo”.

USP x Federais

Ano passado, os alunos da USP entraram em greve e, surpreendentemente, esse acontecimento foi muito mais noticiado nas grandes mídias do que a greve nas federais. O motivo para isso parece simples a princípio. A USP é uma universidade de maior prestígio que as federais, além de estar localizada em uma das cidades mais importantes do país. Apesar de esses serem fortes determinantes para a situação, o professor Dennis aponta um fator muito importante da escolha dos assuntos pela mídia. “A greve da USP tocou numa questão política estadual muito forte, a questão do governo estadual de São Paulo e ela abordou um aspecto que é muito caro à mídia que não é a questão da universidade, mas a questão da segurança. A ocupação da reitoria aconteceu devido à presença da PM no Campus. Como o caso envolve a questão da segurança pública e é um tema que tem mais tendência da mídia cobrir, ganhou mais espaço. Outras greves da USP não tiveram a mesma cobertura. As greves que tratam mais da questão trabalhista não alcançam tanto espaço na mídia”.

Apesar do foco dado não ter agradado a todos os envolvidos, essa maior frequência do assunto na mídia ajudou ao menos a desenvolver e divulgar a ideia da greve fora da USP. As discussões que surgiram foram muitas: a universidade é um local público ou não? Qual o poder da Guarda Universitária? Quais as consequências de se ter a PM no Campus? Qual é o poder de autoridade de um reitor? Muito embora a abordagem possa ter tido suas predileções, o poder manipulador é superestimado pelas pessoas. O simples fato de alguma discussão ter ocorrido, já foi o suficiente para que se pudessem ser criadas segundas, terceiras ou quartas opiniões sobre o acontecido.

A Agenda da mídia

O que muitas vezes pode parecer contraditório no modo como os grandes meios de comunicação agem, na verdade, é algo muito claro e razoável na Agenda da mídia. Tal qual a preferência entre a divulgação da greve da USP e a greve das federais, também há muitos outros casos em que há essa aparente contradição. Um exemplo também apontado pelo professor Dennis é o das notícias sobre emprego e sobre educação. “Nos jornais, por exemplo, há muitas notícias que falam sobre empregos sobrando por falta de gente qualificada. Isso é muito estranho. Apesar da cobrança de profissionais qualificados, não se discute o investimento público nesse tipo de formação. Isso é totalmente anacrônico. A bandeira dos 10% do PIB para a educação foi ignorada pela mídia. Foi um movimento grande, que envolveu professores, servidores federais, educadores de modo geral. Não foi abordada também a discussão levantada pelo movimento docente e o movimento estudantil de destinar recursos do pré-sal para serem aplicados em educação”.

Nesse caso, a questão do emprego é algo que interessa muito mais à mídia do que a educação, ainda que sejam questões intrinsicamente ligadas. É notável, no entanto, o quanto as pessoas gostam mais de um assunto do que de outro, e a mídia se aproveita muito disso para a construção e caracterização de sua agenda.

Acendendo o brilho

A falta de divulgação das greves na mídia não está exatamente ligada ao fato de serem greves, mas sim se elas estão ou não articuladas a assuntos que chamem a atenção da população. Por sua vez, a população muitas vezes não tem acesso a informações suficientes para que possa se portar frente a debates. É como um ciclo vicioso: um não enxerga porque não vê brilho, o outro não brilha porque não é enxergado. A inserção de um tema em um universo de discussões é algo complexo e não depende apenas de uma mudança em um ou outro aspecto do sistema. É um processo longo e trabalhoso em que não existe necessariamente um começo ou um fim.

J.Press
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