Aceitando as diferenças: o surdo e a LIBRAS

Conheça o universo daqueles que apesar de não escutarem, têm muito a dizer

Por Jéssica Soler (soler.j.sol@hotmail.com)

A humanidade sempre relutou em aceitar as diferenças existentes entre os indivíduos. Desde a Antiguidade, as pessoas rejeitavam aqueles que por algum motivo divergiam do padrão estabelecido pela sociedade. No Brasil, não é difícil perceber que o preconceito para com o diferente diminuiu, contudo, é nítido que ele persiste e está atrelado ao dia-a-dia, ainda que não seja notado. Quanto aos surdos, não há muita diferença. O preconceito contra a pessoa surda existe, e somente a busca por esclarecimentos poderá reduzi-lo.

De acordo com o Art. 2o da Lei nº 10.436, pessoa surda é aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS.

Uma breve história sobre os surdos e a LIBRAS

A Grécia Antiga sempre foi muito preocupada com a estética e a perfeição corporal, costumavam desprezar os deficientes. Muitos deles eram mortos logo que nasciam, justo pelo fato de não corresponderem a um ideal atlético perfeito. No livro A política de Aristóteles, o filósofo considera, aproximadamente em 300a.C., que “(…) com respeito a conhecer quais os filhos que devem ser abandonados ou educados, precisa existir uma lei que proíba nutrir toda criança deforme”.

Em relação aos surdos, a História se repete. Em Esparta, costumavam arremessá-los do alto das montanhas. Na Antiguidade Chinesa, eles eram atirados ao mar e, em Roma, não podiam exercer seus direitos como as outras pessoas. No século XIX, Jean Marc Gaspard Itard, médico cirurgião, procurando encontrar a cura para a surdez chegou a dissecar cadáveres de surdos, perfurar membranas timpânicas de alunos e até mesmo aplicar descargas elétricas nos ouvidos de alguns deles.

A educação de surdos, porém, se iniciou no século XVI, na Espanha, com Pedro Ponce de Leon, considerado o primeiro professor de surdos, que utilizava a escrita e gestos manuais simples na instrução dos alunos. Na Inglaterra, século XVII, William Holder também dava os primeiros passos para a aprendizagem dos surdos. No Brasil, a primeira escola para deficientes auditivos foi fundada em 1857, no Rio de Janeiro. A pedido de Dom Pedro II, Ernest Huet, professor surdo e francês, veio ao país ensinar a Língua de Sinais da França. Motivo que contribuiu para que, até hoje, a LIBRAS possua influências da Língua de Sinais Francesa.

Contudo, em 1880, um Congresso realizado em Milão decidiu que o ensino oralizado deveria ser privilegiado em relação ao ensino gestual, proibindo então que se utilizasse a língua de sinais em escolas. Essa decisão prejudicou o desenvolvimento das línguas gestuais em todo o mundo. Entretanto, os surdos não extinguiram os sinais de suas vidas e continuaram usando-os, às escondidas, até que pudessem, novamente, comunicar-se por meio deles. Com o passar do tempo e o surgimento de novas teorias, as línguas gestuais conseguiram, aos poucos, retomar seus papéis na aprendizagem do surdo.

No Brasil, com a promulgação da Lei nº 10.436, em 2002 e com sua regulamentação pelo decreto 5626, em 2005, a LIBRAS passou a ser a língua oficial da comunidade surda no país.

LIBRAS, o quê?

Muitas pessoas costumam passar despercebidas diante das mais de cinco milhões de outras que utilizam uma língua diferente do português para se comunicarem. Seria o inglês? O espanhol? O francês? Não! A LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). No Brasil, a Língua Brasileira de Sinais é reconhecida como o segundo “idioma” oficial.

A voz e os ouvidos dos surdos são suas mãos, por meio delas eles se expressam e interagem com o mundo externo a seus pensamentos e emoções. (Imagem: Divulgação)

De acordo com o Art. 1º da Lei nº 10.436, a LIBRAS é uma forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um mecanismo linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.

A LIBRAS é uma língua e não apenas uma tradução do português para o gestual. Ela possui uma gramática própria, com regras independentes da Língua Portuguesa. Ao contrário do que muita gente pensa, ela também não é uma língua universal. Nenhuma língua oral, aliás, é universal. Não há motivos, portanto, para que haja uma língua gestual global. Cada país possui a sua língua de sinais oficial, como a Língua de Sinais Americana (ASL), a Língua de Sinais Francesa (LSF), a Inglesa (SE), dentre outras. Existe, porém, a Língua Internacional de Sinais (Gestuno), que é uma linguagem e não uma língua de fato, já que não possui uma gramática própria. Ela é utilizada geralmente em reuniões ou em conferências internacionais.

Juliana Fernandes, diretora administrativa da FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos) na cidade de São Paulo, explica que a LIBRAS sofre alterações como qualquer outra língua. “Nós temos dialetos, temos o aipim, a mandioca e a macaxeira, no português. As línguas de sinais também possuem essas variações sócio-dialetais que nós identificamos na língua portuguesa e em qualquer outra língua oral”. Segundo Juliana, o vocabulário da LIBRAS vem crescendo cada vez mais: “Hoje em dia, os surdos estão indo fazer engenharia, arquitetura, matemática. E os sinais técnicos, os jargões existem. A língua vem sofrendo um boom, um grande aumento de vocabulário”.

O Alfabeto na Língua Brasileira de Sinais (Imagem: Jéssica Soler)

A FENEIS SP

A FENEIS é uma instituição sem fins lucrativos e um dos órgãos de maior representatividade da comunidade surda no país. Desde que foi fundada, em 1987, realiza um importante trabalho de divulgação da língua de sinais. Oferece cursos de LIBRAS para surdos, intérpretes e ouvintes; promove debates, palestras e está sempre envolvida em movimentos que lutam pela causa surda no Brasil.

Juliana Fernandes explica que muitos surdos vão à Feneis SP procurar ajuda para que possam ir ao Ministério Púbico e exigir a presença de um intérprete em sua universidade. “Ainda não aconteceu, mas o dia que um surdo passar na FUVEST [Fundação Universitária para o Vestibular], será obrigatória a presença de intérpretes na USP [Universidade de São Paulo]”, completa.

Para ela, é possível garantir acessibilidade para o surdo. “A grande barreira para eles é a barreira linguística. Garantir a inclusão é garantir a presença de intérpretes nos espaços públicos. Nos cinemas, nas universidades, dentro de hospitais, aeroportos, enfim, é garantir intérpretes. Além disso, é preciso que existam mais escolas bilíngues, este é um dos grandes pleitos do surdo”.

Quanto à questão do preconceito, a FENEIS vem lutando em busca de um maior esclarecimento por parte da população. “Existe muito preconceito pelo fato do desconhecimento das pessoas. Nosso trabalho é de ‘formiguinha’, exige paciência e determinação”. Ela conta que em empresas, mesmo com a inclusão por cotas, existe receio. “Nós percebemos o preconceito ainda muito atrelado. As empresas dizem que aceitam surdos, mas querem surdos que saibam falar, escrever, fazer tudo. Ou seja, não querem um surdo, querem alguém que escute um pouquinho”.

O ambiente escolar: uma difícil escolha

Carolina Vieira Dirolli, 11 anos, ficou surda devido a uma meningite bacteriana que a atingiu ainda muito pequena. Os pais a colocaram numa escola particular regular aos dois anos de idade. Carolina sempre foi muito esperta e comunicativa, mas deu-se o momento em que ela já não conseguia mais acompanhar o ritmo de seus colegas de classe. E a escola, segundo o pai, Marcelo Dirolli, não estimulava sua filha à aprendizagem.

No começo deste ano, os pais se viram, então, numa situação complicada. Tirar a menina da escola particular, em que sempre estudara, ou procurar uma escola pública especializada. Esta é uma dúvida corriqueira de grande parte das famílias de crianças surdas.

Depois de muita procura, porém, os pais de Carol encontraram a EMEBS (Escola Municipal de Ensino Bilíngue para Surdos) Helen Keller e finalmente decidiram matriculá-la. A Helen Keller é uma escola bilíngue que atende crianças, jovens e adultos com surdez e com surdez associada a outras deficiências. As aulas, sejam elas de português, ciências ou matemática, são todas ministradas em LIBRAS. Foi a escola pioneira dentre as EMEBS de São Paulo. Possui um amplo espaço físico, com direito a playgrounds, horta, quadra, “Jardim dos Sentidos”, sala multimídia, diversos espaços de artes, um deles, inclusive, preparado para receber alunos surdo-cegos e muitos outros.

Fazendo um sinal de que o bolo estava gostoso, Carol (a segunda na foto, da esquerda para a direita) aproveita uma das delícias preparadas na aula. (Imagem: Arquivo da Escola Municipal Helen Keller)

A diretora Mônica Lemos Amoroso explica que existe um grande cuidado com os alunos. “Aqui temos poucos alunos, eles são atendidos em grupos de dez, podemos dar a atenção que eles precisam”. Ela conta ainda, que a escola oferece curso de LIBRAS gratuito para pais e familiares. “É necessário facilitar a comunicação entre eles”.

Quanto a Carolina, Mônica fala sobre sua rápida adaptação. “A gente sente a diferença na aquisição da língua, quando ela chegou aqui sabia um pouquinho e, hoje, nem parece a mesma criança no sentido linguístico. Ela é muito querida, a gente vê que ela se encontrou, tem muitos amigos, não parece a mesma menina que entrou”.

Hoje, os pais de Carolina sentem que fizeram a escolha certa. Ela já possui um bom conhecimento da Língua de Sinais e consegue se comunicar muito melhor com os pais, que frequentam o curso oferecido pela escola. “Vemos que ela tem mais autonomia, mais amigos, vemos que ela pode crescer. Eu sei que foi o certo, hoje ela está feliz”, completa o pai.

Muito importantes para ajudar os deficientes auditivos, os cães ouvintes precisam se manter atentos durante o trabalho. (Imagem retirada de: libras.com.br)

Curiosidades

Já ouviu falar em cão ouvinte? Eles são cãezinhos treinados para auxiliar surdos no seu dia-a-dia. Identificados com coleiras laranja ou vestimentas com os dizeres hearing dog (cão ouvinte), esses animais são responsáveis por reconhecer sons que possam fazer parte do cotidiano de seus donos. Sendo assim, capazes de alertá-los sobre simples chamadas telefônicas e campainhas ou, até mesmo, sobre o disparo de alarmes de incêndio, choro de bebês e veículos dando ré.

A escola EMEBS Helen Keller é uma homenagem a essa grande mulher. Helen Keller (1880-1968) ficou surda-cega ainda quando criança. Com a ajuda de Anne Sullivan, sua professora, Helen cresceu, formou-se, tornou-se escritora, filósofa, jornalista, foi premiada pelas maiores instituições de ensino do mundo, em diversos países, recebeu inúmeras condecorações e sempre lutou pelos direitos dos deficientes. Uma parte de sua vida é contada no filme “O Milagre de Anne Sullivan”, que narra as dificuldades da professora para ensinar e educar a menina, até então, muito mimada e protegida pelos pais. O filme, extremamente emocionante, é um exemplo de vida e superação para cada um de nós.

 

Para aguçar os sentidos

Não deixe de conferir alguns vídeos que tratam do assunto!

Aceitando as diferenças. Exemplo da igualdade no tratamento para com os deficientes auditivos, as Olimpíadas de Londres apresentam em seu encerramento um coral formado por dois grupos de crianças: algumas cantando e outras interpretando a música Imagine, de John Lennon, na Língua Inglesa de Sinais.

 

Trailer do filme “O Milagre de Anne Sullivan”, lançado em 1962.

Para mais informações, acesse:

- feneis.com.br

feneissp.org.br

surdo.org.br