Cultura

Prateleiras dos sebos guardam um universo de histórias para contar

Sebos da cidade de São Paulo revelam detalhes sobre a paixão de leitores e vendedores das obras

Por Marina Castro (marina.castror@gmail.com) e Thuany Coelho (thucoel@gmail.com)

“Nenhum país se constrói fortemente sem educação e leitura”. A frase de Karine Pansa, presidente do Instituto Pró-Livro, evidencia a importância da aquisição de conhecimento, principalmente por meio dos livros. Embora essa ideia seja um senso comum, o brasileiro, em geral, não tem o hábito de ler, muito menos de comprar livros, seja em livrarias ou sebos. Isso pôde ser comprovado pela pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto citado e do Ibope Inteligência, que registrou uma queda no já pequeno número de leitores.

Os dados mostram que, em 2007, havia 95,6 milhões de leitores no país e, em 2011, esse número caiu para 88,2 milhões, apesar do aumento da população. Em contrapartida, aumentou a porcentagem de pessoas que optam pela televisão, por vídeos e DVDs ou pela internet nas horas de lazer. Uma das possíveis causas desses resultados é a visão do livro como obrigação, visão essa que costuma surgir na escola.

Dentro desses quase 90 milhões de leitores, por volta da metade declara adquirir livros por meio da compra de exemplares novos, sendo que apenas 11% o fazem em sebos, recintos geralmente muito frequentados por apaixonados por leitura.

Sebos

Muitas pessoas, quando pensam em sebos, imaginam um lugar pequeno, aconchegante, ainda que empoeirado, cheio de pilhas de livros com folhas amareladas pelo tempo e cheiro característico. Algumas obras raras e capas bonitas espalhadas pelas estantes completam o cenário. No entanto, não é sempre assim. O Sebo do Messias, por exemplo, é quase o oposto da descrição acima. Localizado no centro de São Paulo, região que concentra grande parte das lojas do gênero, o espaço é amplo e organizado e edições antigas se misturam com as mais recentes nas prateleiras.

Sebo do Messias: maior sebo da América Latina atende, em média, de 400 a 500 pessoas por dia. (Foto: Thuany Coelho)

Os sebos usualmente são procurados por serem uma opção mais econômica para a compra de livros, além de oferecerem títulos que muitas vezes não estão disponíveis nas livrarias, por serem raros ou não mais publicados. E mesmo que nem sempre os livros estejam em seu melhor estado, o valor cobrado compensa. Paula Pacanaro, estudante de pedagogia, conta: “esses dias, comprei um livro bem gasto chamado ‘Mundo de Megan’, por 3 reais. Deu pra ler, assim como um livro novo”. Paula é tão fiel ao sebo que frequenta que até se tornou amiga do dono e, quando precisa, este vai até a sua casa para trocarem livros.

Além da motivação econômica, Maria Claudine Vargas, frequentadora assídua desses ambientes, cita a estética: “sempre tem um de capa dura, com escritas bonitas e antigas – o da minha cabeceira é meu amor”. E a possibilidade de imaginar quem eram os donos (especialmente de livros assinados) está entre as principais razões que a fazem adorar esses lugares.

Endereço da livraria em que o livro foi comprado pela primeira vez desperta a curiosidade de sua nova dona, Maria Claudine, uma leitora que não impõe limites à imaginação. (Foto: Maria Claudine)

Início dos sebos

Sebos geralmente são menos vistos como um negócio do que uma livraria e, assim, muitos imaginam que a ideia de montar uma loja deve vir de alguém apaixonado por livros e grande conhecedor de títulos. Esse é um outro senso comum que não necessariamente é verdadeiro.

José Carlos, dono do Sebo Alternativa, conta que, a princípio, o motivo principal para abrir a loja não teve muito a ver com vontade e sim com necessidade: ele estava desempregado. “Na época, em 1995, eu havia me desligado de uma empresa e comecei a frequentar o sebo de um primo meu e ele me incentivou a abrir o meu próprio sebo. O irmão dele, meu outro primo, também estava desempregado e foi assim que abrimos o sebo”. A sociedade durou seis meses e depois eles se separaram: José Carlos mudou-se para a Avenida Brigadeiro Luís Antônio, enquanto seu primo permaneceu em Santo Amaro, cada um com um negócio próprio.

O interesse por livros e o consequente enriquecimento literário vieram só depois, com o tempo e a convivência com as obras, já que, no começo, “não conhecia quase nada, só livros didáticos e livros de literatura pra colégio. Depois que eu comecei a trabalhar dentro da livraria, passei a me interessar bem mais, aí eu acabei pegando gosto e passei também a conhecer muito, né?”, relata.

O proprietário acha que é importante que seus funcionários (que são poucos, segundo ele) gostem e entendam de literatura, pelo menos um pouco. “Eu acho que faz diferença a pessoa conhecer, saber o que está vendendo e gostar, isso sem dúvida”, ele diz. Entretanto, não pode ignorar que o mesmo que aconteceu com ele venha a acontecer com outras pessoas: “às vezes você pode contratar alguém que não saiba muito, mas tem interesse em aprender e acaba pegando mesmo”. Além disso, o essencial na hora de contratar é ver se o candidato tem “o dom de atender, de conversar com o cliente”. O apreço pode vir depois, como ocorreu com ele mesmo.

“Seu” Francisco seria, então, o atendente ideal para um sebo: gosta tanto de conversar com os clientes quanto de obras literárias. O funcionário do Sebo do Messias diz que, quando pequeno, “era meio preguiçoso”, mas que, com a idade, começou a gostar de ler. Fã de biografias, ele está no emprego atual há quase cinco anos e, antes disso, trabalhou em outra livraria por dez anos. “Conheço um pouquinho”, brinca. E logo após, revela entre risos: “uma coisa que eu não gosto é de poesia, eu nunca gostei, nunca fui com a cara, (…) eu tenho uma raiva quando o cara enche a boca pra falar isso [que alguém é um grande poeta], porque assim, é grande pra ele”.

Já o patrão, Messias, usa um ditado popular para descrever sua relação com os livros: “‘Casa de ferreiro, espeto de pau’. Eu sou de trabalho, trabalho, trabalho, não tenho tempo para ler, infelizmente”. Apesar disso, declara ser, sim, apaixonado por livros, ainda que de um jeito diferente: são eles que o propiciam o prazer de encontrar raridades e de oferece-las às pessoas, no seu sebo, existe a oportunidade de achar títulos dificilmente encontrados fora dali.

Maurício, por outro lado, montou o sebo Chama de uma Vela há quase quatro anos e se encaixaria no arquétipo usual do dono de sebo. Professor de História da Arte, ele declara que sempre gostou de literatura e tinha vontade de montar um negócio em que pudesse conciliar sua formação acadêmica com o interesse por livros. A própria loja só não é exatamente igual ao que se espera de um sebo porque, ao invés de títulos como “Ulysses”, de James Joyce, em edições de capa dura, o que se vê nas prateleiras são livros de História, Psicologia, Filosofia e Artes, em sua maioria. “Já tive a primeira edição das ‘Memórias de Napoleão’ e um livro autografado pelo Di Cavalcanti”, diz.

Talvez pelo tipo de livros que vende, Maurício conta que 70% das pessoas que frequentam o estabelecimento são universitárias. Nada impede, no entanto, que quem não esteja mais estudando goste do sebo. A sua localização, na rua Augusta, faz com que muita gente passe por ali todo dia. Eventualmente, acabam notando a loja e entrando para conhecer. Quando perguntado se algum desses clientes é fiel, ele brinca: “Não muitos. Tem um que não é bem fiel, ele é chato”.

O outro lado

José Luis não se encaixa nas histórias contadas acima. Dono de um sebo na rua Augusta, ele sempre preferiu trabalhar sozinho, até tentou contratar alguém “mas não deu certo, eu só sei trabalhar sozinho”. O senhor, que já teve um acervo com mais de quinze mil obras, começou juntando livros e descobriu depois que o “ divertido era comprar e vender”. Hoje, ele está se desfazendo de sua coleção para abrir um novo negócio, em suas palavras: “um café, que vai ter livros também, mas muito poucos, vai ter vinho, que é um negócio de que eu entendo muito e de que meu filho também gosta e entende muito”.

O proprietário, que não abre aos sábados e só trabalha no período da tarde, revela que decidiu fechar o sebo porque passou a fazer meditação e se “encheu” do trabalho. Além disso “os chatos” que frequentam o sebo e os baixos preços pedidos na estante virtual ajudaram o senhor que começou a gostar de livros com “uns 18, 19 anos” a optar por começar um novo empreendimento.

A ideia de vender vinhos surgiu porque, segundo ele, “o vinho é mais importante que o livro, porque o livro é só alimento para o espírito, o vinho é para o corpo e para o espírito e muito mais divertido também (risos) e tem muito menos chato, tem chato também, mas muito menos”.

José Carlos conta que os gêneros de livros mais procurados são: esoterismo, espiritismo e auto-ajuda. (Foto: Thuany Coelho)

Construção do acervo

Messias veio de Minas Gerais para São Paulo e logo começou a trabalhar vendendo livros de porta em porta. Graças a essa ocupação, fez amizade com um de seus clientes (com o qual “até almoçava junto, às vezes”), morador do Jardim Europa e possuidor de grande número de obras literárias. De uma notícia triste relacionada ao amigo surgiu a oportunidade que ele esperava para montar o sebo. “Chegando lá um dia, a esposa dele, chorosa, me disse que ele tinha morrido (…). Daí fiquei muito pesaroso e tive que fazer uma pergunta a ela e fiquei meio constrangido. O que ela ia fazer com aquela biblioteca? (…). Ela disse ‘Messias, eu vou ter que vender e mudar para um apartamento’”. Com essa resposta, ele propôs a compra da coleção que daria início ao sebo que começou “em 1970, numa salinha na praça João Mendes, uma salinha muito pequena, 3×4 (…) que foi crescendo, crescendo e hoje, graças a Deus, é considerada Patrimônio de São Paulo”, ocupa uma área de 2 mil metros quadrados e tem nada menos do que 160 mil títulos na loja virtual e 140 mil na física.

Diferente de Messias, José Carlos precisou fazer muita divulgação, inclusive entre os amigos, para conseguir os livros e iniciar o Sebo Alternativa.“Cheguei até a fazer anúncio em outdoor”, conta ele. Com o tempo, porém, o local ficou conhecido e as pessoas passaram a procurá-lo. “Hoje, eu já não preciso mais fazer divulgação de que eu compro livros. Tanto é que, se você notar, eu não tenho placa porque a loja já existe há vários anos e o público já conhece”. Tanto esforço deu resultado, uma vez que, atualmente, José Carlos conta com estoque suficiente para manter as duas lojas que possui na região da Paulista.

Vendas virtuais

A internet vem ocupando uma parte cada vez maior da vida dos que têm acesso a ela. Pesquisar, conversar com amigos, ler notícias, quase tudo pode ser feito através da rede. Inclusive compras. De acordo com pesquisa do Ibope NetRatings, 20% dos internautas compram pela internet e, em 2011, foram gastos R$ 18,7 bilhões com essa atividade.

Dentre os produtos adquiridos constam livros. Nesse quesito, a Estante Virtual é o maior site de vendas de livros usados e semi-novos do país (sua página inicial anuncia que há mais de 9 milhões de exemplares disponíveis) e costuma oferecer preços bastante baixos. Há livros que custam R$ 3, por exemplo. Devido aos preços praticados e à comodidade de se comprar sem sair de casa, esse mercado vem crescendo e afetando as vendas dos estabelecimentos físicos dos sebos. As opiniões sobre se as consequências são positivas ou negativas foram diferentes.

José Carlos diz que sites como a Estante Virtual são ótimos para quem compra, mas nem tanto para quem vende. “Tenho vários clientes que vinham com mais frequência e passam [a vir] uma vez a cada dois meses agora. Falam que acham tudo pela internet”.

Já para Messias, a loja virtual ajudou a presencial: “Aumentou [o movimento na loja física] até porque as pessoas, às vezes, não sabiam que o Messias existia, hoje entram no Google e acham e tanto compram pelo site como descobrem o sebo na praça João Mendes”. Além disso, é no site que os livros raros são vendidos, pois, se expostos, “acontece de muita gente pegar e não pagar. Não é roubar, é pegar e não pagar (risos)”.

Maurício foi o mais crítico em relação ao site. Afirmou que, logo que foi criada, a Estante Virtual tinha uma política mais aberta e dialogava mais com os donos dos sebos. Hoje, não é mais assim: “Acho que eles tinham que ser um pouco mais justos com a gente [donos de sebos]. Eles estão nos cercando para tentar fazer com que menos gente compre na loja. Tiraram o nosso endereço [do site]. Podia haver um acordo para que as pessoas reservassem pela internet e fossem às lojas buscar os livros”. Entretanto, admite que as vendas online não prejudicaram as vendas da loja em si, mas são complicadas pois o valor do frete (que não é cobrado separado) faz com que seus livros sejam mais caros que os outros e, por isso, tenham uma saída menor.

Os sebos não são apenas locais onde podemos comprar títulos baratos ou raros, achar capas diferentes e históricas, eles têm uma importância muito maior. Possibilitam que universitários e pessoas com menor poder aquisitivo possam comprar livros caros, ou mesmo os comuns, a um preço bem mais acessível, difundindo, assim, a leitura, peça vital no desenvolvimento de qualquer sociedade. Eles são um incentivo tão grande que fazem com que seus próprios donos, como foi com José Carlos, se interessem e se apaixonem pelas obras.

J.Press
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