Saúde Sociedade

A mente interessantíssima dos jovens

Jovens estão indo ao psicólogo e mostram que a adolescência não é só uma fase

Texto e ilustrações por Ricardo Kuraoka (ricardo.kuraoka@gmail.com)

Ao fazer 13 anos, ele não quer mais dar a mão para a mãe ao atravessar a rua, quer sentar no banco da frente do carro e mudar as estações do rádio. Aos 14 anos, ela quer um sutiã igual ao que todo mundo está usando e dorme na casa das amigas no final de semana. Aos 15, ele começa a se preocupar com a roupa que vai usar para sair e coloca gel no cabelo. Aos 16, ela passa a usar roupas pretas, piercings e tintura. Aos 17, ele pega o carro escondido e vive na casa da namorada. Aos 18, ninguém mais entende o que eles querem ou, ao menos, quase ninguém.

Eles estão procurando ajuda

Guilherme Vaz, estudante de 20 anos, fez terapia em dois momentos de sua vida. Na primeira vez, mais novo, foi levado pelos familiares. No entanto, com 20 anos, decidiu sozinho que deveria procurar algum tipo de tratamento. Assim como ele, muitos outros jovens estão tomando a frente da procura por tratamento psicológico profissional e isso tem se mostrado uma tendência. Anna Carolina Favilli, formada em psicologia e funcionária do cursinho Poliedro, conta como a procura de alunos por consultas tem sido grande. Além de problemas como ansiedade, pressão e estresse, proporcionados pelo próprio ambiente de um cursinho pré-vestibular, há também uma gama enorme de outros fatores não relacionados diretamente ao estudo que levam os jovens a sentarem à mesa com ela.

Os motivos são diversos: problemas com a família, desilusões amorosas, dificuldade de se expressar ou de fazer amigos. Os jovens estão pondo em cheque o famoso “é só uma fase” para firmar seus problemas perante a sociedade e tratá-los tão seriamente quanto acreditam ser necessário. Há ainda, no entanto, uma visão muito negativa em relação às preocupações dos jovens e à própria terapia. Um preconceito que vem diminuindo, mas ainda existe.

Tudo é grande na cabeça deles

Quem diz ao jovem que não é o fim do mundo quando algo dá errado, ainda que tenha boas intenções, pode estar se equivocando na atenção dada ao problema. “Os pais muitas vezes acreditam que tudo o que o adolescente está fazendo é drama. O adolescente é dramático, mas aquilo é real para ele. Aquilo que ele está passando e o tamanho que ele está vendo o problema dele é real. É lógico que uma pessoa que já passou por esta fase, já amadureceu, já teve que superar essa etapa da vida, vai olhar com olhos não de alguém de 15 ou 16 anos, mas de 40 ou 50. Uma pessoa com essa idade e maturidade logicamente vai ver esse problema como sendo pequeno”, diz a psicóloga Mariana Caliman em entrevista.

Essa falta de preocupação para com os problemas dos jovens faz com que muitos deles se sintam menos à vontade para tratar de determinados assuntos com pessoas mais próximas. Afinal, do que adianta expressar suas preocupações se sempre serão consideradas exageradas e sem importância? A abordagem do psicólogo aqui faz toda a diferença. Encontrar um modo de se aproximar do jovem e ver seus problemas tal como ele próprio vê também é tarefa do terapeuta.

O pacto de confiança

Para que a terapia surta efeito, é preciso que haja uma relação de confiança entre o psicólogo e o jovem. Para Mariana Caliman, o vínculo com o adolescente é especialmente mais delicado. Isso porque é preciso tirar qualquer visão de autoridade ou julgamento que ele possa ter do psicólogo. O fato dos pais ou familiares financiarem a consulta também pode atrapalhar um pouco a confiança no terapeuta. É preciso definir antecipadamente quem é o real cliente. “Eu pessoalmente não trabalho se a pessoa não estiver interessada. A terapia não funciona com pressão dos pais. Os pais às vezes procuram, mas eu mesma coloco que se ele for obrigado não vai dar certo. Eu não atendo porque eu vejo que é uma experiência que não funciona. Ele vai sabotar a terapia, ele não vai confiar, ele vai achar que tudo o que está acontecendo ali é culpa dos pais. Eu respeito muito o tempo e o espaço da pessoa, ela tem que querer”, explica Mariana.

Uma vez firmado o pacto, o jovem se sente livre para falar sobre seus sentimentos sem temer que sejam menosprezados ou repassados aos pais sem seu consentimento. Certamente não se pode excluir totalmente os pais do processo, no entanto, nenhuma ação deve ser tomada sem o consentimento ou a consciência do jovem.

Psicólogo para quem é louco

Um notável fator para essa tendência de adolescentes indo ao psicólogo é a própria desmistificação da terapia. O tratamento psicológico muitas vezes é relacionado a patologias ou incapacidades mentais. Isso faz com que as pessoas não procurem a terapia ou tenham vergonha de dizer que frequentam. Os jovens, principalmente, são questionados sobre o desejo de se consultarem, muitas vezes com frases como “Mas você não é louco” ou “Você é tão novo para ter problemas de verdade”. Segundo Mariana Caliman, existem alguns possíveis fatores para essa maior aceitação, como um desenvolvimento educacional, cultural e até mesmo a maior divulgação na mídia de informações sobre o que é uma terapia e para que serve. Ela ainda diz que a terapia deve ser procurada quando há uma falta de conexão da pessoa com ela mesma, o que pode acontecer com qualquer um, em qualquer idade.

A tendência de jovens indo ao psicólogo mostra não uma fraqueza ou deficiência, mas sim uma maturidade e respeito próprio inesperados. Quebrar preconceitos e estar aberto para a autocrítica são qualidades pouco óbvias, mas muito valorosas de quem se sujeita a passar pelo tratamento psicológico.

Adolescência: O que ela é e o que não é

A adolescência certamente é uma etapa muito confusa. É quando tudo muda, quando surgem as mais diversas dúvidas sobre a vida, quando tudo parece enorme e precisa ser resolvido aqui e agora. Isso, no entanto, não desqualifica os problemas e as decisões tomadas pelos jovens. O adolescente não vai ao psicólogo por um motivo especial, mas sim porque é uma pessoa como qualquer outra, que possui problemas reais e dúvidas sobre sua vida. Possui olhos, boca, dedos, tais quais os de uma criança; pernas, braços e dentes tais os quais de um adulto; e uma mente incrível de onde pode sair tudo e qualquer coisa.

J.Press
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