Sociedade

Da adolescência à adultescência

 

Conheça os motivos de quem não vê mais necessidade em deixar a casa dos pais

Por Patrícia Beloni (pat.beloni@gmail.com)

Para muitos, morar com os pais depois de adulto não é mais sinônimo de imaturidade. A tendência que começou nos anos 90 traz um grande número dos chamados “adultescentes”, aqueles adultos, alguns formados academicamente, outros não, que ainda estão na casa dos pais.

O fenômeno é mundial e está presente nas mais diversas classes sociais. No mundo da música, a situação é bem comum. Famosos como Lady Gaga e Sorocaba, da dupla Fernando e Sorocaba, moram com os pais até hoje e não se envergonham disso.

O conservadorismo e a rigidez dos pais na criação dos filhos fermentavam ideias como: sair de casa e ter o seu espaço, as suas coisas, a sua independência. Ter a própria casa, pagar as próprias contas, organizar suas finanças, sair e chegar a hora que quiser, ser livre para fazer suas escolhas e se sustentar.

Hoje, o plano não é mais esse. Adiar a mudança da casa dos pais já virou uma opção. Fica mais fácil conseguir se formar academicamente, entrar no mercado de trabalho, se estabilizar e aí sim, pensar em se mudar, casar, ter filhos. Esse é o rumo que os jovens estão seguindo.

(Imagem: J. Press)

Só casa, comida e roupa lavada?

E quem acha que os motivos que levam esses adultos a continuarem na casa dos pais são só a praticidade e a comodidade que essa situação oferece está muito enganado. A maior parte dos pertencentes a essa chamada Geração Canguru ainda continua com os pais devido à falta de dinheiro.

É difícil bancar as contas de casa, a faculdade, o aluguel ou o pagamento da parcela de um imóvel, a alimentação, tudo sozinho. Ewerton Fonseca, de 25 anos, acredita que nessa fase de formação acadêmica e de trabalho é essencial a ajuda dos pais. “Creio que a sociedade mudou. As pessoas estão amadurecendo financeiramente mais tarde”, aponta o atendente a clientes e também estudante de engenharia.

Ele ainda não viu a necessidade de sair da casa dos pais. “Não moraria sozinho só para mostrar que sou independente, quero primeiro me estruturar financeiramente”, declara Ewerton. Essa ideia não é só do futuro engenheiro. É o pensamento de muito outros que não acreditam que a maturidade está diretamente ligada a sair da casa dos pais.

Letícia Mello, de 24 anos, também assim. Ela é formada em educação artística, mas ainda não trabalha na área. Apesar de não contribuir financeiramente com a família, ela ajuda na manutenção das tarefas de casa 24 horas. “Com o tempo os papéis se invertem, não somos nós que moramos com nossos pais, são nossos pais que moram conosco”.

A educadora continua na casa dos pais não só por contar com o apoio deles, mas também porque pode dividir problemas, responsabilidades e estar próxima a pessoas conhecidas e que ela ama. “Morar com os pais não é o problema, mas a forma que encaramos e lidamos com isso é que pode ser vista negativamente”, diz Letícia.

Parte disso acontece também porque a convivência atual com os pais vem ficando mais fácil. Os pais estão com a cabeça mais aberta, mais dispostos a ouvir, a compartilhar experiências e a ter uma relação também de amigo com o filho.

E quando os filhos não estão preparados para sair de casa?

Margareth dos Reis, psicóloga, formada pela faculdade de medicina da USP, explica que continuar na casa dos pais faz com que a pessoa não assuma o papel principal da família ou da casa, continuando sempre a ser o filho.

Essa escolha vem muitas vezes por medo de se afastar dos pais e de ter que assumir outras responsabilidades. A insegurança vem e sempre há uma desculpa para não sair de casa ou para adiar a mudança.

Os filhos ganharam mais liberdade, mais espaço e independência mesmo estando dentro da casa dos pais. Por isso, sentem-se mais a vontade para continuar morando com eles. “Hoje, os jovens podem ter a vida deles. Podem ter muita coisa que no passado só poderiam viver depois que saíssem de casa”, aponta a terapeuta Margareth dos Reis.

É claro que não podemos esquecer dos pais protetores e dos filhos que gostam de ser mimados. Eles querem proteger os filhos do mundo e suprir todas as necessidades deles. Essa vontade dos pais acaba se manifestando e interferindo na vida dos filhos, de acordo com a psicóloga.

Sônia Pinheiro, de 50 anos, acha que sua filha, de 28, ainda não está preparada para morar sozinha. Ela tem consciência de que essa situação é proveniente de uma falha na educação. “Acho que, de uma certa forma, a presença dos pais atrapalha sim, mas não por maldade e sim porque se tratam dos filhos”, declara a mãe. Sônia não quer pressionar a filha, mas acredita que os filhos precisam ter suas próprias experiências sozinhos para conseguirem crescer e se tornarem adultos de verdade, donos do seu próprio nariz.

 

J.Press
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