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Como os universitários podem sair do vermelho?

Especialistas ajudam universitários que estão longe de casa a administrar suas despesas e sair do sufoco



Por Carolina Vellei (carolina.vellei@gmail.com) e Mariana Soares (nanacsoares@gmail.com)

Morar sozinho não é fácil e aprender a lidar com o dinheiro é um desafio enfrentado pela maioria dos jovens que se dispõem a isso. Eles saem da casa dos pais para estudar e precisam controlar os gastos do mês para não passarem do limite. Conversamos com alguns estudantes da Universidade de São Paulo, que recebe muitos alunos de outras cidades. Eles nos contam como administram suas despesas e quais as principais dificuldades enfrentadas por quem tem que aprender a se virar sozinho. Para ajudá-los, conversamos com especialistas na área de finanças que dão dicas para você não passar o mês no vermelho.

Quem são eles?

Estes universitários vivem com o dinheiro contado. Alguns têm que se esforçar para não gastá-lo em uma semana, enquanto outros conseguem fazer com que ele dure um pouco mais. Saiba como é a vida de quem vive quase sempre com a grana no limite.

Caio Carmo está no quarto ano de Ciência da Computação, trabalha, mas recebe ajuda dos pais conforme sua necessidade. Segundo ele, seus principais gastos são com comida, passagem para sua cidade Natal (Salto de Pirapora-SP) e despesas da república. Apesar de ter cartão de crédito, ele quase não usa para ter mais controle dos seus gastos. Ele se considera controlado com dinheiro, afirmando nunca ter faltado no fim do mês. Caio não consegue pensar onde pode reduzir seus gastos, pois já faz de tudo para economizar, especialmente com comida: seus gastos diários não chegam a R$10,00.

Em São Paulo seu dinheiro rende menos do que em Salto de Pirapora, mas mesmo assim ele poupa uma parte para dar uma viagem de presente para seus pais e sua irmã. Onde é mais difícil não gastar dinheiro? “Em livros e em jogos [de videogame]. Sou louco por isso, tenho que me segurar pra não gastar por impulso”, diz Caio.

 

(Imagem: divulgação)

O estudante do segundo ano de Geologia, Mateus Nardo, recebe um dinheiro fixo de seus pais para se sustentar. Esse dinheiro é destinado principalmente ao pagamento do aluguel, do curso de inglês e de sua alimentação. Embora tenha cartão de crédito, ele diz quase não o usa. Para economizar, ele diminuiu seus gastos com comida e a agora procura se alimentar somente nos restaurantes universitários da USP, onde a refeição sai por R$1,90: “faz duas semanas que eu não faço compras e quando faço, eu compro só o básico do básico mesmo”. Ele conta que só não conseguiu pagar todas as suas contas uma vez, quando voltou mais do que o normal para sua cidade.

Mateus diz que não sobra muito dinheiro para seu lazer, então ele procura sair mais em Rio Preto do que em São Paulo, até porque lá é tudo mais barato. O jovem, que estuda em período integral, vai começar a trabalhar ainda este ano para aliviar as despesas. Já Stela Saes, que se mudou de Santa Bárbara D’oeste para São Paulo há seis anos, assume que poderia gastar menos do que gasta. Ela cursa Letras e no momento depende do dinheiro que seus pais mandam. Com esse dinheiro ela paga principalmente as despesas relativas ao apartamento que divide com duas amigas, além de bancar sua alimentação e transporte. Diferentemente de Caio e Mateus, Stela tem muito mais gastos não planejados, especialmente com comida. Fora o dinheiro que seus pais mandam, ela também usa o cartão de crédito, que assume estar quase sempre no limite.

A estudante até tenta poupar dinheiro, mas não consegue: “eu sempre acabo mexendo depois de um tempo”, diz ela. Stela conta que mais de uma vez gastou mais dinheiro do que devia, chegando ao limite do cartão. Ela atribui essa dificuldade em controlar os gastos ao custo de vida da cidade de São Paulo: “em Santa Bárbara eu trabalhava, fazia muito mais do que faço aqui e gastava menos da metade do que eu gasto, fora que os preços subiram demais. Quando eu mudei, minhas contas do apartamento não passavam de R$200,00 e, cinco anos depois, já estavam em R$500,00”.

Isadora Toledo, aluna do primeiro ano de Engenharia Mecatrônica, morava com sua família em Goiânia antes de se mudar para São Paulo. Ela vive sozinha em um apartamento próximo à universidade e sofre com as despesas do aluguel, que chegam a significar 70% da renda mensal que a família envia a ela. Com isso, é difícil administrar o dinheiro para fazer com que ele renda mais. Isadora comenta que no começo já chegou a ter que pedir mais dinheiro para os pais. Na ocasião, faltava quase uma semana para acabar o mês e ela só tinha R$10,00 na conta corrente.

A estudante, seguindo o hábito dos outros entrevistados, quase sempre come no restaurante universitário, por ser mais em conta. Para ir ao supermercado ela não faz lista de compras, mas dá uma dica para quem está começando a administrar suas próprias finanças sozinho. Para ela, deve-se evitar comprar alimentos pela marca mais cara. “Claro que você não vai comprar um produto ruim, mas você pode experimentar marcas de qualidade que não custam tão caro”, avalia Isadora, que aprendeu na raça como esticar o dinheiro até o fim do mês.

Fiquei no vermelho, e agora?

Batemos um papo com os professores Fernando Nogueira da Costa, da Unicamp, e Carlos Eduardo Luporini, da USP em que eles revelam estratégias para fazer com que os universitários poupem seu dinheiro e possam comprar mais com o que têm.

Uma dica para economizar é visualizar as despesas mensais, como conta Fernando Nogueira. Um jeito prático de organizar os gastos é montar uma planilha colocando de um lado a receita que se tem (bolsas, mesada etc) e de outro as despesas que aparecem todo mês (aluguel, mensalidades, alimentação, por exemplo). “Com isso é possível que a pessoa veja se há sobras ou se ela precisa cortar algum gasto para ficar dentro do orçamento”, diz Costa. Esse hábito facilita para que o jovem tenha maior controle sobre seu dinheiro e não requer muito tempo. Nos próximos meses o planejamento já estará pronto e só será preciso atualizar os valores. Carlos Luporini concorda com a ideia, dizendo que isso ajuda a ter uma maior noção de quanto será poupado.

 

(Imagem: J.Press)

Para aqueles que adoram comprar coisas por impulso, os professores dão uma dica: evite andar com cartão de crédito e prefira pagar suas despesas diárias com dinheiro em espécie. O economista conta que, ao ver o dinheiro, a pessoa pensa mais antes de gastar. Para Costa, “tirar o dinheiro vivo do bolso dói mais”. A compra por impulso é um mal que deve ser evitado para não ficar no vermelho.  Luporini acrescenta que sair com uma quantia limitada de dinheiro também ajuda na contenção de gastos.

O professor da USP alerta para os perigos do cartão de crédito e do cheque especial: “É um pecado, não deveria existir. O cartão cria uma ansiedade e uma vontade enormes e muitas vezes você acaba comprando por impulso, e depois tem que arcar com as consequências disso”. Luporini pondera que o cartão só é bom para planejar a data do pagamento, mas é necessário que se use com moderação, o que é muito difícil, considerando os estímulos constantes para o consumo que nos cercam: “[o cartão de crédito e o cheque especial] são coisas que não deveriam existir, porque nós deveríamos viver apenas com o dinheiro que temos. Nós compraríamos muito mais se não tivéssemos que pagar esses juros”.

Essas ferramentas seduzem os universitários, que muitas vezes acabam gastando mais do que podem por quererem ter os mesmo produtos que seus amigos têm. Mas o professor aconselha os jovens a pouparem o dinheiro caso queiram comprar algo mais caro e nunca usar o cartão ou o parcelamento: “se você fica parcelando, forma uma bola de neve e não dá mais para sair dela”.

Para conseguir ter dinheiro para gastar com lazer, o professor de economia da Unicamp sugere que o jovem procure opções que não sejam muito caras e que deem prazer a ele. Costa aconselha que o estudante invista em cultura. “Visite exposições, vá a shows e adquira o hábito de aproveitar o seu dinheiro para aprender mais”, conta.

E se sobrar algum dinheiro, o que fazer com ele? Depois de se organizar, pode ser que sobre um dinheirinho a mais. Nisso, ambos os especialistas concordam: o conselho é investir em capital intelectual, ou seja, investir na sua capacidade de gerar ganhos, que nada mais é do que investir na sua formação. Cursos de línguas e cursos em outros países podem ser opções. O universitário precisa se preocupar durante os anos de estudo em adquirir o máximo de conhecimento que puder, para que isso se reverta em uma melhoria na sua capacidade de trabalho e que ele seja um profissional diferenciado no mercado.

Carlos Luporini pondera que um jovem que mora sozinho normalmente tem o dinheiro contado. É muito difícil um pai que dê uma quantia ilimitada ao filho. Caso ele consiga guardar alguma parcela de sua receita e queria já começar a poupar para a velhice, é aconselhável que o investimento seja em programas de renda fixa, como poupança ou algum outro investimento que tenha a garantia do dinheiro. Nada que seja especulativo, como a bolsa de valores. “A poupança ainda é um método eficiente, porque embora tenha um rendimento pequeno, já está descontada do Imposto de Renda, ao contrário de outros programas que parecem render mais, mas nem sempre isso acontece”.

J.Press
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