Saúde

Conheça a profissão de parteira e as vantagens de um parto natural em casa

Mesmo com o reconhecimento profissional, o parto normal ainda é minoria dos procedimentos no país

Por Rosiane Siqueira (rosianesiqueira@gmail.com)

A escolha do parto normal parece ser cada vez menos comum entre as mulheres brasileiras. Apesar da facilidade da recuperação pós-parto, a dor sentida é um dos fortes argumentos que afugentam as mulheres. Cerca de 52% dos nascimentos em hospitais são feitos por cesáreas. A Organização Mundial da Saúde recomenda que esse número não ultrapasse os 15%. Mesmo com a grande procura por cesáreas, a agenda da parteira Vilma Nishi é lotada. Pensando no maior conforto das gestantes na hora do parto natural, a antiga profissão de parteira tem sido cada vez mais procurada pelas mães que querem ter seus filhos na tranquilidade de casa, sem os assustadores processos hospitalares, como cortes e agulhas.

Aos 58 anos, Vilma conta que não gostava da rotina de enfermeira, de viver agendando cesáreas no hospital. Em 2000, começou a trabalhar no ambulatório da favela Monte Azul, em São Paulo, e conheceu a parteira alemã Angela Gehrke, que atuava auxiliando partos normais. No ambulatório, Vilma passou a realizar os exames de pré-natal e prestar orientação às gestantes.

Em 2002, começou a trabalhar na casa de parto de Sapopemba, também em São Paulo, realizando partos em casa. Na época, a profissão ainda não tinha o espaço de hoje e Vilma era a única mulher a atender na cidade. Junto à comunidade, Vilma montou a casa de parto da Monte Azul. Hoje, atua como autônoma, fazendo diversos partos. Segundo ela, seu maior número foi nove nascimentos em uma semana.

A profissão de parteira é uma das mais antigas do mundo e é vista por muitos como algo rústico e sem estrutura. Desmistificando isso, Vilma mostra que o trabalho é profissional e seguro. As parteiras são cadastradas pela Secretaria de Saúde do município para que possam exercer a profissão. Além do auxílio no parto, elas recebem do Ministério da Saúde uma declaração a ser preenchida e entregue aos pais, para que eles façam o registro do nascimento no cartório.

Apegada às crianças, Vilma guarda recordações da família que lhe confiou 4 dos 7 partos de seus filhos (Foto: Arquivo pessoal)

Além do apoio do Ministério da Saúde, os procedimentos médicos também são tratados com seriedade. Todo o acompanhamento de pré-natal é feito para criar um vínculo de confiança entre a parteira e a gestante e para detectar quaisquer problemas que possam atrapalhar o parto. Em alguns casos, os exames encontram detalhes que acabam por indicar que o nascimento da criança deve ser feito no hospital.

Segundo Vilma, não há um perfil da mulher que busca por parteiras: são artistas, advogadas, donas de casa e das mais variadas idades e classes sociais. Normalmente são mulheres que possuem um entendimento de vida ligado à natureza, que acreditam na força feminina e querem resgatar sua história. Costumam cuidar muito da saúde, da alimentação e da mente. Com todos os exames pré-natais em dia e sem encontrar complicações durante a gravidez, o parto em casa pode ocorrer tranquilamente.

No momento tão esperado do nascimento, as parteiras mostram profissionalismo e sensibilidade. Durante a gravidez, a mulher é orientada para reconhecer os sinais de que a hora chegou. Dessa forma, quando sente que entrará em trabalho de parto, liga para a parteira, que vai até a casa e monitora os seus batimentos cardíacos e as suas contrações. As parteiras chegam equipadas com aparelhos para aferir a pressão arterial e para escutar os batimentos cardíacos da mamãe e do bebê. A partir daí, são feitas atividades para aliviar a tensão e a dor, como massagens, exercícios respiratórios e compressas quentes. Muitas vezes, até o sono é induzido, para que a mulher relaxe. Algumas mulheres optam por partos em banheiras, como o caso de Gisele Bundchen, que optou pelo parto em casa, natural e na água.

(Imagem: J. Press)

Cesárea ou parto normal: qual escolher?

Segundo Daniel L. Rolnik, médico e diretor obstetra do Ambulatório de Obstetrícia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, existe uma grande discussão no ambiente médico sobre qual o melhor procedimento para o parto. O parto vaginal possui muitas vantagens: a recuperação é melhor, causa menos dor no momento pós-parto, o sangramento é menor e as taxas de infecção do útero ou da ferida operatória são irrisórias. Sua principal desvantagem ocorre a longo prazo, sendo o risco de frouxidão dos músculos da pelve, consequência conhecida como “bexiga caída”, “bexiga baixa”, incontinência urinária ou incontinência fecal, que costuma gerar flatos (gases).

A cesárea, segundo o médico, pode ser considerada bastante segura e com baixas taxas de complicações. A principal vantagem da cesárea com indicação médica é permitir o nascimento de crianças saudáveis e garantir a saúde da mãe na vigência de intercorrência materna e/ou fetal. Já a cesárea eletiva (opção da gestante), sem indicação, tem como vantagens ser um procedimento rápido e permitir a programação por parte de todos os envolvidos no processo (equipe profissional ou parteira e família do paciente). A cesárea também apresenta menores riscos de lesão da musculatura pélvica.

Suas principais desvantagens em relação ao parto vaginal são: maior volume de sangramento e maior risco de anemia, maiores taxas e maior gravidade de infecção do local da cirurgia ou do útero, dor mais intensa nos dias que sucedem o procedimento, retorno mais lento às atividades habituais (domésticas ou profissionais), custo mais elevado para o sistema de saúde, maior tempo de internação necessário. O risco de desconforto respiratório do recém-nascido também é maior na cesárea, principalmente quando realizada antes do início do trabalho de parto.

Daniel explica que são diversas as causas do grande número de cesáreas no país. Segundo ele, os motivos vão desde fatores culturais (como o medo da dor pelas gestantes) até fatores que passam pela falta de política de incentivo ao parto vaginal, como a ausência de preparo técnico para a realização de parto vaginal seguro de boa parte dos profissionais e a remuneração inadequada por parte do sistema de saúde pública. Ele ainda afirma: “Há quem defenda que a cesárea só deve ser realizada se existe essa real necessidade, mas há quem diga que deve ser direito da mulher escolher a via de parto que melhor atende aos seus interesses”.

J.Press
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