A magia dos musicais no teatro brasileiro

Conheça mais sobre a origem do teatro musical no Brasil

Por Luísa Granato (luugac@gmail.com)

“O teatro musical além de ter um enredo que cativa o público, utiliza a música e a dança. A mistura desses três ingredientes, juntamente com os cenários, figurinos e efeitos visuais, faz com que o público sinta que a peça sempre esteja em ‘movimento’. É um número musical, ou uma cena, ou uma dança, ou a combinação de tudo. O teatro musical é, para mim, a fórmula perfeita de entretenimento”.

Essas são palavras de Beatriz Breviglieri, uma jovem atriz. Pessoas como ela, que amam esse gênero de teatro, divertem-se com as coreografias e emocionam-se com as músicas. Em todo mundo, há uma forte tradição de musicais que apaixonam um vasto e fiel público. Quem nunca ouviu falar em Broadway ou, talvez, Fantasma da Ópera? Mas o que muitos ignoram é que o Brasil também possui um longo repertório de musicais por toda a sua história e principalmente na atualidade. Apesar de não obedecer ao padrão dos grandes musicais, sua qualidade e excelência se destacam.

“Eu costumo dizer que o teatro já nasceu cantando no Brasil”

A frase acima pertence à professora da Universidade de São Paulo, Elizabeth Azevedo, quando questionada sobre as origens do teatro musicado no Brasil. A maior parte das expressões artísticas que existiram aqui foi trazida da Europa por colonos e estudiosos. Porém, a origem desse gênero teatral foi diferente.

Já no primeiro registro feito por Pero Vaz de Caminha sobre a descoberta das terras brasileiras a música tem grande importância, servindo como um dos primeiros contatos entre os povos.  A musicalidade já fazia parte da cultura dos indígenas. Combinando tambores e flautas com a viola portuguesa, o Padre Antônio de Anchieta pôde desenvolver um teatro catequético que ultrapassava a barreira linguística.

O Teatro de Revista

Passaram-se séculos de colonização, a vinda da família real e a independência. O teatro acompanhou cada passo e desenvolveu-se aproveitando todo estímulo possível. Evoluiu de um papel educativo e religioso para grupos amadores reencenando peças francesas e deslocou-se das portas de igreja para as Casas de Opera, espaço exclusivo para apresentações musicais e cênicas.

 

 

Teatro S. Pedro de Alcântara, hoje Teatro João Caetano. “Começa-se a marcar um espaço específico para o teatro, como espaço cênico”, Beth Azevedo. (Foto: Divulgação)

Teatro S. Pedro de Alcântara, hoje Teatro João Caetano. “Começa-se a marcar um espaço específico para o teatro, como espaço cênico”, Beth Azevedo. (Foto: Divulgação)

 

 

Assim, em meio a dramas franceses e romances venezianos, a comédia em um ato entra em cena com Martins Pena, na primeira metade do século XIX, que assimilou a técnica dessas breves peças cômicas e acrescentou referências do Brasil, fundando o teatro nacional. Embora a música não estruturasse a narrativa da peça, as comédias do autor ainda eram embaladas pelo canto e dança.

Mas foi com Teatro de Revista, em meados do século XIX, que o teatro musical nacional ganhou força. A cada ano era lançada uma Revista que tinha a função de retomar os acontecimentos de maior destaque no ano que se passou. Quando encenada, possui uma história embalada com músicas daquele período e dois personagens geralmente conduziam a peça. A professora de História do Teatro e Teatro Brasileiro na USP, Beth Azevedo, explica como eram essas peças:

“O personagem, por exemplo, vai ao Rio de Janeiro e se encontra com vários acontecimentos. Ou, então, com uma circunstância personificada, como a febre amarela. É uma peça que se abre para personagens alegóricos, para o épico, para essa maleabilidade do tempo e espaço. Na hora que você põe um personagem que é o próprio ‘ano de 1878’ ou uma instituição como personagem, há uma liberdade para criar.”

 

Grande Otelo e Chiquinha Gonzaga também são exemplos de grandes artistas brasileiros envolvidos no Teatro de Revista. (Fotos: Divulgação/Montagem: J.Press)

Grande Otelo e Chiquinha Gonzaga também são exemplos de grandes artistas brasileiros envolvidos no Teatro de Revista. (Fotos: Divulgação/Montagem: J.Press)

 

A primeira Revista de sucesso no Brasil foi escrita por Artur Azevedo, depois o gênero conquistou o país. Vários grupos teatrais criavam Revistas regionais, maleáveis para que fossem sempre atualizadas e conversassem com o público, já que a sociedade se via no palco. Ou, então, as Revistas carnavalescas, que eram lançadas antes do Carnaval e, por vezes, lançavam novas marchinhas da moda.

O teatro musicado hoje

A aprovação do brasileiro foi tamanha que hoje se discute se o teatro cômico e musical não tenha causado a decadência do melodrama. Hoje, apesar de não possuirmos a mesma tradição norte-americana para formar atores, cantores e dançarinos, existem atores, dramaturgos, diretores e produtores capazes de montar espetáculos que surpreendam e encantem o público.

Como a dupla, Charles Möeller e Cláudio Botelho, que juntos fizeram vários musicais de sucesso, sendo coroados os “Reis dos musicais”. Foram responsáveis pela tradução e adaptação de diversos musicais como Noviça Rebelde, Mamma Mia, Avenida Q e Beatles num Céu de Diamantes, entre outros. Sua produção própria conta com As malvadas, Os Abre Alas (Contando a história de Chiquinha Gonzaga) e 7 – O Musical.  A adaptação das letras para o português é uma das maiores diferenças nas peças estrangeiras, acentua Beatriz Breviglieri, estudante e bailarina. “As adaptações nacionais não deixam nada a desejar das peças originais, pois tanto o elenco quanto a produção são muito bem preparados e talentosos, incluindo todas as pessoas que trabalham nos bastidores”, confirma.

Confira abaixo um trecho da peça A Noviça Rebelde.

Thelmo Fernandes, formado na Escola de Teatro Martins Pena, tem uma carreira que se estende por mais de 50 trabalhos no teatro, na televisão e no cinema. Atuou em musicais de texto e realização inteiramente nacional. O ator carioca já encarnou o “poetinha” Vinicius de Moraes, no Tom e Vinicius, O musical e encenou textos de Chico Buarque, como A Opera do Malandro e Gota d’Água. Atualmente, está ensaiando para sua próxima estreia. Aqui ele fala de sua nova peça, papéis anteriores e sobre o teatro musicado.

Ator já interpretou mais de 50 papeis diferentes (Foto: Divulgação)

Ator já interpretou mais de 50 papeis diferentes (Foto: Divulgação)

J.Press: Fale um pouco sobre a peça que você está ensaiando agora, Aurora da minha vida. Como é o seu personagem?

Thelmo Fernandes: “Aurora” é um texto universal e atemporal que foi concebido com personagens pertinentes ao universo escolar, daí eles são definidos por suas características mais marcantes e não por nomes próprios. Nesta montagem – a primeira em formato de musical – faço um dos alunos, o “Bobo”, e ainda o “Diretor” e o “Padre”, que é um dos professores. É muito interessante esta releitura de um autor tão encenado e clássico como Naum Alves de Souza, mostra que a obra teatral é eterna e são infinitas as suas possibilidades.

J.Press: Em Gota d’água e em Tom e Vinicius, nós temos a presença da música brasileira participando da peça. No primeiro, o texto é escrito por Chico Buarque e, no segundo, uma homenagem a dois artistas importantíssimos para a música brasileira. Até que ponto os musicais brasileiros participam da criação de um repertório nacional novo e até que ponto ele retoma e homenageia o que já está criado?

Thelmo Fernandes: Os musicais brasileiros em sua maioria têm sido autobiográficos. Porém acho importantíssima e fundamental a presença de musicais brasileiros no cenário teatral pelos dois motivos citados na pergunta. Quando você resgata um grande compositor brasileiro, seja ele Tom Jobim, Vinícius ou Wilson Batista, você está resgatando a nossa história e a nossa memória.  Chico possui uma dramaturgia extremamente rica que merece ser revisitada de tempos em tempos e que são musicais. Ao mesmo tempo precisamos do novo, é necessário que surjam novos dramaturgos e compositores com obras inéditas para musicais, e já podemos vislumbrar algum progresso neste sentido.

J.Press: E como foi interpretar Vinicius de Moraes?

Thelmo Fernandes: Foi extraordinário. Uma das experiências mais especiais da minha vida. Tive a oportunidade de conhecer de perto a magnitude da figura de Vinícius em toda a sua intimidade e não apenas pelo folclore envolvendo a figura do “poetinha” e o retorno foi incrível, não só da família, mas também de amigos e fãs que conviveram com ele. Estará marcado para sempre na minha vida.

J.Press: Mesmo em outros gêneros teatrais, como o dramático, ainda há presença da música? E como se dá essa presença?

Thelmo Fernandes: Sim, com certeza e cada vez mais a música é fundamental para a obra teatral. Ela pontua a dramaticidade e enriquece o conteúdo da cena.

J.Press: Você acha que as peças musicais brasileiras utilizam a música da mesma forma que musicais internacionais (como na Broadway)?

Thelmo Fernandes: Há diretores que optam claramente pelo formato Broadway, mas não creio que isso seja uma regra para todos os musicais feitos no Brasil. Penso que a música em um espetáculo musical deve fazer parte da dramaturgia, ou seja, ajudar a contar a história. Se for o formato “Broadway” ou não, isso é o que menos importa.

Confira a atuação de Thelmo em cena da peça Gota D’Água:

 

Contudo não são somente grandes produções e dramaturgos que contribuem para o crescimento do teatro musical brasileiro. A Oficina dos Menestréis trabalha a expressão teatral com seus alunos de forma livre e lúdica. E essas turmas de jovens, idosos, deficientes físicos e visuais fecham o curso com a montagem de peças que misturam música e dança com textos originais, ao todo mais de 20.

Projetos como esse, que podem parecer pequenos, ainda fazem a diferença. Promovem a inclusão social e desenvolvem o prazer pela arte. Porém, como Beth Azevedo colocou, “todo teatro é valido, você assiste a uma coisa e acaba conhecendo outras realizações. É como com a leitura: a criança começa lendo um gibi simples e descobre que tem gosto por isso e procura novos desafios”. O teatro brasileiro possui uma herança de muitos anos de história e a capacidade para produzir cada vez mais. Nacional ou estrangeiro, o que importa no final é que nossos artistas continuem criando e o público, aplaudindo.

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