Escritório de arte Ana Cláudia Roso atrai o público com exposição de obras em sua vitrine.
Cultura

“Eu acredito em mercado de arte”

 

Galerias de São Paulo expõem arte e convidam público a repensar o papel cultural das obras.

Texto e Fotos por Karin Ellert Salomão
karinhasalomao@gmail.com

“Essa questão pede um cigarro”. À sombra de uma goiabeira, nos fundos de seu escritório de arte, Ana Cláudia Roso relembra os anos 80. Uma assadeira com cookies que sobraram da última inauguração de mostra e alguns cigarros ajudam a contar a história das galerias de arte em São Paulo. Para ela – e para muitos outros donos de galerias – o objetivo  de uma galeria não é só comprar e vender quadros para deixar uma casa bonita. O que querem é fazer com que as pessoas curtam enxergar uma obra de arte, passem a visitar mais galerias e exposições e desenvolvam um novo olhar sobre a vida.

 

Galerias de arte apresentam espaços tranquilos e iluminados para conversar com clientes.
Galerias de arte apresentam espaços tranquilos e iluminados para conversar com clientes.

 

Um adesivo em um armário da Galeria Virgílio, no qual se lê “eu acredito em mercado de arte”, pode fazer alguns retorcerem o nariz. Mas, de alguns anos para cá, é o que faz a arte contemporânea brasileira ter mais reconhecimento internacional, apesar do público nacional restrito.

O crescimento das galerias de arte está ligado à própria história da arte contemporânea brasileira. A partir dos anos 50, a arte moderna entrou em crise. Várias manifestações artísticas, tão diferentes e semelhantes entre si, começaram a surgir no Brasil e no mundo e receberam a etiqueta genérica de arte contemporânea. Agnaldo Farias, professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos (USP), em seu livro “Folha Explica – Arte Brasileira Hoje”, traz um panorama da arte que vem sendo desenvolvida desde então. Os anos 60 e 70 foram o início da trajetória de diversos artistas; a ditadura militar no Brasil emprestou cunho político às suas obras. Nos anos 80, os artistas retomaram as formas tradicionais de arte, como a pintura, além de incorporar elementos novos, como a arte híbrida e multimídia.

Foi justamente nos anos 80 que começou a crescer o mercado de arte no Brasil e, mais especificamente, em São Paulo. A maioria das galerias de arte teve início nos anos 80, apesar de ter passado por mudanças nos últimos 30 anos. Ricardo Trevisan, curador da galeria Casa Triângulo, enxerga uma correspondência entre a demanda do mercado e o número de galerias existente em São Paulo. “O mercado está bombando, naturalmente estão surgindo novas galerias. Galerias de outros estados, inclusive, vêm para São Paulo, onde o mercado está mais aquecido”. Há espaço para surgirem ainda mais galerias, segundo ele. “A arte brasileira é vigorosa e há galerias com muitos artistas que estão infladas”.

A proposta inicial da Casa Triângulo, bem como do escritório de arte Ana Cláudia Roso, da Galeria Virgílio e de tantas outras que surgiram nessa época, era experimental. Traziam à tona artistas que eram jovens e buscavam construir a arte contemporânea e o seu espaço. Hoje, esses jovens cresceram e muitos estão inseridos no âmbito internacional. Junto com eles, também o mercado se profissionalizou e vem crescendo cada vez mais.

Atualmente, a preocupação é de representar o artista no exterior e valorizar o seu trabalho. Assim, o marchand, termo francês para o intermediário da compra e venda da obra de um artista, virou um agente institucional do artista, que acompanha de perto a sua carreira, auxiliando inclusive na formação de portfólio, livros e busca de patrocínio. Mariana Dupas, gerente de atendimento da galeria Nara Roesler, diz que “às vezes, a simples comercialização não é interessante para o artista. O que vale é colocar a sua obra em lugares estratégicos”. A representação dos artistas age a partir de um hall de artistas exclusivos. Através de uma teia de relações, introduzem a obra dos artistas nos museus, departamentos de arte, instituições e até em outras galerias. Mariana Dupas diz que “às vezes, doações de obras a museus valorizam muito a obra do artista”.

O próprio colecionador de arte mudou o seu papel. Os antigos acumulavam, “alguns tinham obra até no lavabo”, brinca Ana Cláudia. Os colecionadores mais novos têm uma visão mais mercantil, compram obras de um artista desconhecido e revendem. Isso aumenta a liquidez do mercado, a distribuição das obras, a visibilidade de um artista – e os lucros das galerias.

Internacionalização

A Bienal de São Paulo, ao trazer artistas internacionais, auxilia na propagação dos valores da arte contemporânea brasileira e a torna mais conhecida no exterior. Diversas galerias brasileiras acabam, dessa forma, participando de feiras internacionais. As mais conhecidas são a Art Basel-Basel, Art-Basel Miami Beach, Frize Art, The Armory Show, em Nova Iorque, Zonamaco, no México, VIP Art Fair, que acontece exclusivamente online. Segundo o livro de Agnaldo Farias, “qualquer grande exposição internacional (…) já incorporou a arte brasileira e o Brasil como parada obrigatória”.

Além disso, o Ministério da Cultura criou em 2006, junto a Fundação Bienal de São Paulo, o programa Brasil Arte Contemporânea. O intuito do projeto é, segundo seu site, “divulgar as obras artísticas brasileiras e aumentar as exportações das artes visuais nacionais”. Há parcerias com a Agência Brasileira de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) e o Ministério das Relações Exteriores. As próprias galerias de arte atuam na internacionalização de seus representados. Muitas oferecem empréstimos de obras para mostras no exterior, seja em outras galerias ou em museus como o MoMA, em Nova Iorque.

Arte como mercadoria

Tadeu Chiarelli, professor de artes plásticas da USP e curador do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, aponta vantagens e desvantagens na crescente mercantilização da arte. Segundo ele, o sistema capitalista foca-se mais na produção da arte como mercadoria, independente da qualidade. Artistas importantes, conhecidos internacionalmente, estão englobados nesse jogo de mercado, que não valorizaria tanto a sua qualidade, mas sim o lucro que pode ser obtido. Em entrevista por telefone, diretamente de Paris, ele diz que “aqui, há uma exposição de Manet. Tem obras de coleções particulares expostas que, portanto, estão passíveis de serem compradas”.

Além disso, artistas jovens surgem, seguindo a moda ou uma demanda de mercado, são consumidos rapidamente e deixam de existir. Ele exemplifica essa questão a partir da comercialização do grafite. A arte, que estava na rua, passa para uma tela e, assim, vira uma mercadoria. Cria-se uma demanda e o grafite se torna uma necessidade do colecionador. É assim que grafites d’OSGEMIOS, grafiteiros de São Paulo e famosos por suas figuras humanas amarelas, começaram a aparecer nacional e internacionalmente, a partir de uma exposição no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo.

Roberto Rugiero também não vê essa comercialização com bons olhos. O fundador e diretor da galeria Brasiliana, diz que esse mercado “virou um grande cassino”. A ligação entre o mercado de arte e o financeiro, inclusive através de grupos de investimentos e ações em bolsas de valores, transformou a obra de arte em status, forma de exibicionismo. Para ele, a arte contemporânea “é fashion, é midiática, é Nova Iorque”.

 

Roberto Rugiero, fundador da galeria Brasiliana, exibe um quadro de Ranchinho, artista de sua galeria.
Roberto Rugiero, fundador da galeria Brasiliana, exibe um quadro de Ranchinho, artista de sua galeria.

 

Rugiero prefere se focar, então, na arte popular contemporânea brasileira. Os clientes de sua galeria, segundo ele, são cultos, descontraídos e sem esnobismo, que buscam uma arte ligada à natureza, principalmente para decorar uma casa de campo ou de praia. Rugiero aposta em artistas que “daqui a pouco vão começar a valer alguma coisa”, como o Ranchinho, o artista mais importante de sua galeria. Deficiente mental, ele produz arte espontânea, desenha sem que ninguém o tenha ensinado, expõe seus medos e angústias nos desenhos. Porém, as suas obras estão guardadas em uma pasta, porque para Rugiero, a arte popular, “a verdadeira arte brasileira, é marginalizada”.

O arquipélago da arte contemporânea

Segundo o livro de Agnaldo Farias, a arte contemporânea pode ser entendida como um arquipélago por suas diversas correntes, direções e obras singulares, apesar de tocarem-se umas às outras. Dessa forma, torna-se difícil compreender e abarcar a arte contemporânea em um conceito, tanto pelo seu crescimento, diversidade e simultaneidade, quanto por estar sendo feita no tempo presente. Por isso, há boas obras circulando no mercado, mas também há muita coisa de qualidade duvidosa.

Para Tadeu Chiarelli, cabe às instituições à margem do mercado definir a qualidade de uma obra. Museus e outras instituições irão elaborar parâmetros, valores e críticas acerca da qualidade de uma obra ou movimento, uma vez que não estão diretamente ligados à comercialização das mesmas.

Público

Apesar de reconhecida internacionalmente, a arte contemporânea não encontra respaldo no próprio país, contando com um público ainda muito restrito. Ricardo Trevisan, da Casa Triângulo, diz que “as pessoas ainda têm reticência ao visitarem as galerias. Eles imaginam que, ao entrar, têm quase que comprar uma obra, mas não, a galeria está aberta ao público”. Quem visita a galeria de Trevisan é um público que tem empatia direta com as artes plásticas, como admiradores de arte, colecionadores e curadores. Para ele – e para muitos outros galeristas – falta a educação e a cultura de observar a arte e de se envolver com ela.

 

Café e arte. Galerias atraem público com a mistura de um ambiente familiar e atmosfera descontraída.
Café e arte. Galerias atraem público com a mistura de um ambiente familiar e atmosfera descontraída.

 

A galeria Virgílio busca trazer essa cultura para o seu espaço. Izabel Pinheiro, diretora e fundadora da galeria, diz que o espaço é familiar. Ao lado da galeria, seu marido e artista plástico, Omar Pinheiro, abriu seu ateliê. Seus filhos continuaram o projeto, criando o centro cultural b_arco, como lugar de discussão de arte. Izabel conta que muitos freqüentadores do centro cultural passaram a ser clientes da galeria, depois de conhecer mais o trabalho de certos artistas. Assim, o seu público é formado também por jovens estudantes e professores.

Os decoradores e arquitetos são hoje as principais vias de acesso do público às galerias. Isso traz uma série de vantagens, porém acrescenta mais um intermediário entre o público e o artista, podendo distanciar as pessoas ainda mais. Diversas galerias buscam, então, educar e sensibilizar o público comprador da importância daquele quadro. “Não é só um quadro, precisamos mostrar o trabalho do artista”, diz Mariana Dupas. Algumas galerias continuam mostrando a carreira do artista aos clientes mesmo depois da compra, propriamente dita, para criar no público o gosto pela arte.

No escritório de arte Ana Cláudia Roso, o que atrai o público é a vitrine. As pessoas passam em frente, não entendem a obra e entram para questionar. “Está sendo divertido [ter uma vitrine]”, diz Ana Cláudia, sorrindo, e se servindo de mais um cookie.

 

Escritório de arte Ana Cláudia Roso atrai o público com exposição de obras em sua vitrine.
Escritório de arte Ana Cláudia Roso atrai o público com exposição de obras em sua vitrine.

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